A pesquisa e o tratamento médico devem ser guiados pelo amor

Visita do papa à Universidade Católica do Sagrado Coração

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Salvatore Cernuzio

ROMA, sexta-feira, 4 de maio de 2012 (ZENIT.org) - "Sem amor, até a ciência perde a sua nobreza". Esta frase resume a reflexão sobre o sentido da medicina e da pesquisa científica feita por Bento XVI nesta quinta-feira, na sede romana da Universidade Católica do Sagrado Coração.

Em visita por ocasião dos 50 anos da instituição da Faculdade de Medicina e Cirurgia, que leva o nome do fundador, padre Agostino Gemelli, o papa aproveitou para cumprimentar pessoalmente a comunidade acadêmica, as equipes de saúde, os pacientes e os estudantes e para destacar a "reciprocidade profunda" entre ciência e fé.

O encontro, na praça em frente ao auditório da faculdade, teve a participação de autoridades políticas e eclesiásticas, como o cardeal Angelo Scola, arcebispo de Milão e presidente do Instituto Giuseppe Toniolo de Estudos Superiores, que, junto com o vice-reitor Franco Anelli, deu as boas-vindas ao papa.

Avaliando como as ciências experimentais do nosso tempo "transformaram a visão do mundo e a própria autocompreensão do homem", Bento XVI enfatizou os "múltiplos descobrimentos e tecnologias inovadoras" que, sucedendo-se "em ritmo acelerado", apresentam com frequência "aspectos inquietantes".

"Rico de meios, mas não de fins", observou o papa, "o homem do nosso tempo vive condicionado pelo reducionismo e pelo relativismo, que o levam a perder o significado das coisas". Esse homem, "quase cegado pela eficiência técnica", relega "a dimensão transcendente à irrelevância", fertilizando o terreno para "o pensamento débil e para o empobrecimento ético, que nublam as referências normativas de valor".

As consequências são "imprevisíveis", afirmou o papa, porque, diminuindo "aquele Logos que preside a obra da criação e guia a inteligência da historia", além de ser a única fonte para a pesquisa científica, chega-se a uma "mentalidade ‘tecnoprática’" que causa "um arriscado desequilíbrio entre o tecnicamente possível e o moralmente bom".

É importante que "a cultura redescubra o vigor do significado da transcendência" e "abra com decisão o horizonte do quaerere Deum”, o buscar a Deus. No fundo, acrescentou o papa, "o impulso à pesquisa científica brota da nostalgia de Deus que habita o coração humano".

O homem de ciência, precisou ele, "tende a atingir aquela verdade que pode dar sentido à vida", porque, "ainda que seja apaixonada e tenaz a sua busca, ele não é capaz de esclarecer completamente a questão das realidades eternas".

Cabe a Deus, portanto, "tomar a iniciativa de ir ao encontro e se dirigir ao homem com imenso amor". Isto lhe garante "uma via de iluminação e de segura orientação"; sem isto, disse o papa, "o seu quaerere Deum se perderia num emaranhado de caminhos".

Fica manifesta, assim, "a reciprocidade fecunda entre ciência e fé", quase "uma complementar exigência da inteligência do real". Percorrendo o caminho da fé, "o homem é capaz de vislumbrar até nas realidades do sofrimento e da morte, que atravessam a sua existência, uma possibilidade autêntica de bem e de vida".

A esta luz, a Cruz de Cristo se torna "Árvore da vida", onde o ser humano "reconhece a revelação do amor apaixonado de Deus por ele". O cuidado de quem sofre, em consequência, é um "encontro cotidiano com o rosto de Cristo, e a dedicação da inteligência e do coração se torna sinal da misericórdia de Deus e da sua vitória sobre a morte".

Vivida na sua integridade, concluiu o pontífice, "a pesquisa é iluminada pela ciência e pela fé", duas "asas" que "o impulsionam e projetam, sem que ele perca a justa humildade e o senso do próprio limite". De tal modo, a busca de Deus "se fecunda pela inteligência, fermento de cultura, promotora do verdadeiro humanismo".

É neste marco que "se contextualiza a tarefa insubstituível da Universidade Católica, lugar em que a relação de tratamento não é ofício, mas missão; onde a caridade do Bom Samaritano é a primeira cátedra e o rosto do homem que sofre é o Rosto do próprio Cristo".

Recordando a "particular relação entre a Universidade Católica e a Sé de Pedro", o papa sublinhou que, "em uma faculdade católica de medicina, o humanismo transcendente não é um slogan retórico, mas uma regra vivida na dedicação cotidiana".

A propósito, ele recordou a importância da instituição do novo Ateneu para a Vida, realização do sonho do fundador, o padre Gemelli, de criar "uma faculdade de medicina e cirurgia autenticamente católica, que traga até o centro da atenção a pessoa humana em sua fragilidade e em sua grandeza".

Um pensamento especial foi voltado a todos os pacientes do hospital, em cujo rosto "se reflete o de Cristo que sofre". O pontífice assegurou a todos a sua oração e afeto, tranquilizando-os com o fato de que no Gemelli "eles sempre serão cuidados com amor".