A pintura leva a Deus

Uma conversa sobre o livro "Ritratti d’autore", de Mario Dal Bello

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Por Marialuisa Viglione

ROMA, terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Mario Dal Bello, crítico de arte e teatro, acaba de lançar seu novo livro: “Dal Bello: Ritratti d‘autore” (Città nuova), que traz um panorama dos últimos 800 anos da pintura europeia.

- O que é a inspiração artística?

- Mario Dal Bello: Um dom de Deus.

- O que é a arte para o senhor?

- Mario Dal Bello: Expressão da busca da beleza, presente em todo homem. Busca pela eternidade, imortalidade. As grandes obras-primas falam de Deus.

- Como nasceu este livro?

- Mario Dal Bello: Da amizade de toda uma vida com estes artistas. Venho de Asolo, na província de Treviso, e desde criança conheço a pintura veneziana, que me fez me apaixonar pela beleza: Tiziano, Giorgione, Bassano, Canova. Muitos são convertidos com uma pintura. A pintura conduz a Deus.

- Qual é seu quadro preferido?

- Mario Dal Bello: É um dos quadros de El Greco que se encontra em Nova York, A Vista de Toledo. É extraordinário.

- Como a arte abstrata é capaz de falar de Deus? Deus é encarnação.

- Mario Dal Bello: A arte bizantina é abstrata, suas imagens são imateriais.

- O senhor faz descrições apaixonadas de quadros importantes. Descrições que partem de uma emoção e de uma tentativa de compreender por que o quadro foi imortalizado pela história. Qual é a proposta de seu livro? 

- Mario Dal Bello: Pretendo apresentar algumas das reflexões que acompanham os apaixonados por desvelar a beleza. E a beleza, sendo algo transcendental, uma propriedade de Deus, ajuda-nos a ser melhores.

- O primeiro pintor que aborda é Duccio. Por que Duccio pintou tantos quadros sobre a Virgem Maria?

- Mario Dal Bello: Os artistas pintavam por encomenda. Siena, cidade natal do pintor, estava dedicada a Maria. Assim, ele pintava o principal tema de devoção pública e privada de sua comunidade. Suas Madonas, comparadas a outras obras do período, revelam um senso ternura, ainda que sejam de inspiração bizantina. Ele acrescenta humanidade e ternura ao representar a relação com o filho, e por isso agrada tanto.

- Em seguida, apresenta Giotto. Quais novidades ele introduz?

- Mario Dal Bello: Inaugura o humanismo. Deus é representado de acordo com as representações tradicionais, o juiz Onipotente.

Na contra-fachada da capela Scrovegni, no Juízo Universal, Jesus juiz é retratado forte e, ao mesmo tempo, doce. É o divino que se encarna. É como na narrativa de São Mateus, em que à sua direita estão os bons e à sua esquerda os maus. O Juízo Universal é representado sempre assim na iconografia ocidental e nos mosaicos.

- Michelângelo posiciona os maus em baixo e os bons no alto?

- Mario Dal Bello: Também Michelangelo, em sua Capela Sistina, representa os bons, que sobem, do lado direito, e os maus à esquerda, descendo.

- Como Masaccio se impõe como artista?

- Mario Dal Bello: Dando continuidade ao trabalho de Giotto. Na obra de Masaccio, o protagonista é o homem, que é dotado de grande dignidade, por ser filho de Deus. Na capela Brancacci, em Florença, o homem é grandioso também em sua desgraça. Adão e Eva, expulsos do Paraíso, têm formas físicas robustas: permanecem filhos de Deus, mesmo em sua culpa.

- Piero della Francesca fala de Deus?

- Mario Dal Bello: Contempla o divino. Madonna con il Bambino e i Santi, incompleto, é uma cena muito íntima, interiorizada. É a contemplação do eterno.

- O que há de novo nas Madonas de Leonardo?

- Mario Dal Bello: A Virgem das Rochas ou Madona dos Rochedos, a imaculada conceição, é a Virgem de joelhos, atrás de um nicho, que representa a natureza, a criação, a obra de Deus. Representa a presença de Deus na natureza. A Virgem tem uma atitude misteriosa: é parte do mistério da encarnação.

- Rafael é o pintor das Madonas por excelência?

- Mario Dal Bello: Para a tradição católica, sim. É o pintor dos afetos. Não retrata uma pessoa real. Real é o amor que Maria tem por seu filho. O afeto materno se reconhece imediatamente em sua obra, de forma popular.

- E quanto a Michelangelo e seu tempo?

- Mario Dal Bello: Surgiu em pleno Renascimento. Tem uma imagem idealizada do homem. E retoma as estátuas gregas com seus nus. A perfeição exterior representa a perfeição da alma. Pode ser considerado um segundo Platão, tendo sido muito popular em sua época. Na Capela Sistina, é o pintor do Gênesis do Antigo Testamento. Deus é onipotente. As formas são gigantescas, robustas. Deus é maior que o homem, e o esmaga. Michelangelo, ao final de sua vida, pintou Pietás, crucificações e a Paixão de Cristo.

- E sobre a religiosidade de El Greco?

- Mario Dal Bello: É um pintor místico. Estamos na Espanha, ao final dos 1.500 e início dos 1.600, época de Santa Teresa D’Ávila e de São João da Cruz. Por isso se nota, em seus quadros, esta tendência ao misticismo, à experiência sobrenatural. Ele afila as figuras, as cores são irreais. Alcança aquilo que se dá na alma.

- Velasquez exprime a mesma forma de religiosidade?

- Mario Dal Bello: Em menor profundidade. É um grande ilustrador da cenas sacras. Em Roma, temos seu retrato do Papa Inocêncio X, na galeria Doria Pamphili.

- Rembrandt, protestante, é uma grande pintor dos temas bíblicos?

- Mario Dal Bello: Juntamente a El Greco e Michelangelo, é também intimamente religioso. Protestante, inspirado pela Bíblia, teve contato com o mundo judeu em Amsterdã, tendo pintado principalmente cenas do Antigo Testamento 

- E Tiziano?

- Mario Dal Bello: Bastante eclético, servindo na corte do Rei da Espanha, pinta principalmente crucificações e coroações de espinhos.

- Para representar o mundo moderno, o senhor escolheu Picasso. Foi por ter pintado Cristo?

- Mario Dal Bello: Não. Pode-se pintar arte sacra sem ter fé. A meu ver, representa bem o século XX, o homem fragmentado em um pesadelo, sem Deus, e portanto destruído.

- E Rochtko, o pintor abstrato?

- Mario Dal Bello: Não é católico, mas busca por um Deus, pelo absoluto. Seu desejo de criar uma capela, para expor quadros de todas as expressões de fé, está ligado à sua necessidade de infinito. Busca por um sentido para a existência, sobretudo após a morte. Deseja uma relação com um ser superior.