A relação e a opressão no diálogo político contemporâneo

Nós cristãos não nos identificamos completamente nem com a esquerda, nem com a direita contemporâneas, na exata medida em que queiram construir uma sociedade humana sem Deus

Brasília, (Zenit.org) Paulo Vasconcelos Jacobina | 571 visitas

Há um pessimismo antropológico oculto no pensamento político e jurídico contemporâneo, que é fruto do pessimismo antropológico ínsito à própria modernidade: trata-se de compreender a categoria da “relação” como essencialmente equiparável à categoria da “opressão”. Vale dizer, quando o pensamento contemporâneo se defronta com uma relação, seja ela qual for, busca imediatamente desvendá-la em termos de opressão. Pensar criticamente, para essa contemporaneidade pessimista, é desvendar a “opressão” que se ocultaria por trás de cada “relação”.

Não é simples encontrar as raízes deste modo de pensar. É claro que a dúvida sistemática de Descartes lhe levou a estabelecer, como ponto de partida para encontrar a verdade, o seu cogito, a famosa frase “penso, logo sou” que é o seu conhecido ponto de partida. A dúvida sistemática de Descartes, portanto, é, no fundo, uma dúvida quanto à possibilidade de verdade no outro, ou seja, quanto à verdade ínsita em cada relação. Para ele, o ponto de partida da verdade é estritamente individual, está no pensamento individual que se reconhece claro e separado em si mesmo.

Neste sentido, pode-se dizer que Hobbes foi um discípulo de Descartes, quando estabeleceu seu mito político do indivíduo solitário e todo-poderoso do “estado de natureza” pré-social. O indivíduo hobbesiano, nesse seu “Éden” individualista imaginário, é o lobo do outro indivíduo, porque cada indivíduo hobbesiano tem direito a tudo, inclusive ao ser e ao corpo do outro indivíduo. Se nos deixamos conduzir pelo imaginário de Hobbes, esses lobos individualistas somente seriam realizados se todos os outros indivíduos se submetessem plena e incondicionalmente à sua própria vontade individual plenipotenciária. Cada relação, para Hobbes,seria, concretamente, um choque de indivíduos com direitos igualmente absolutos com relação ao outro, em que necessariamente o resultado seria a opressão de um pela satisfaçãodo outro.

Uma vez que esta conta não fecha, já que não é possível que cada indivíduo seja ao mesmo tempo um deus todo-poderoso com todos os direitos, e um objeto do direito de outro deus igualmente todo-poderoso, Hobbes imagina que o contrato social consistiria na abdicação, de cada indivíduo, de todos os seus direitos em favor do Estado, cuja contrapartida consistiria apenas em garantir a vida desses indivíduos. O Estado hobbesiano seria, a um só tempo, o detentor de todos os direitos por cessão dos indivíduos, e ao mesmo tempo o mais ilegítimo de todos os entes - já que concentraria em si todas as relações e, portanto, todas as opressões. E seu fim seria impedir que os indivíduos gozassem plenamente dos seus direitos naturais, de sua liberdade plena natural, pela promessa da garantia da própria sobrevivência ou da sobrevivência do outro.

Assim, a categoria “direitos humanos” passou a ser vista, contemporaneamente, como a categoria de resistência dos lobos hobbesianos contra o Leviatã, o Estado visto sempre como fundamentalmente ilegítimo, porque destituído de direitos originários. E a contemporaneidade dividiu-se em duas alas, de “direita” e de “esquerda”.

Os primeiros acreditam que, diante da impossibilidade de corrigir o irremediável egoísmo humano, o Estado deve ser reduzido ao mínimo possível, e mais poder deve ser dado aos indivíduos – para que o “choque dos egoísmos” produza o bem comum por um processo de seleção natural, em que a eliminação dos fracassados será inevitável no caminho de um equilíbrio instável que conduzirá a uma humanidade mais forte e, portanto, mais perfeita. Não conseguem, porém, explicar por que todas as vezes em que a sociedade se aproximou desse suposto ideal, ou reduziu os mais fracos ao estado lastimável dos operários dos séculos XVIII e XIX, ou foi colhida por crises econômicas, morais e políticas como a de 1929 ou a de 2008.

Os segundos, por outro lado, acreditam pelagianamente na perfectibilidade humana, e que o Estado deve ser conquistado e usado como indutor irresistível do bem comum, compreendido como a cura do egoísmo infinito dos lobos hobbesianos. A missão do Estado seria redentora, transformando os lobos hobbesianos em anjos altruístas a partir da redenção imposta coercitivamente pela minoria vanguardista e iluminada através da “educação” ou “reeducação” dos renitentes. Esta esquerda reivindica poder total no domínio do Estado em nome da “desconstrução” de todas as relações humanas atuais, que enxerga como essencialmente opressoras, para reconstruí-las em bases “libertadoras”, sem explicar exatamente como esta cura se daria sem construir-se outras relações ainda mais opressivas do que as que se visa destruir, dados os mesmos pressupostos. Esta foi a realidade em todos os Estados em que esta “esquerda” conseguiu o poder estatal que reivindicava.

Ambas as correntes políticas contemporâneas, que descrevi um tanto esquematicamente acima, partem, pois, da mesma visão antropológica que têm a expressão mais pura em Hobbes, e encontra-se, em seu próprio ponto de partida, em oposição à visão cristã (e verdadeira) de que a relação, sendo da essência mesma do Deus uno e trino, é boa em si mesma, embora eventualmente se corrompa por força do limite humano que a teologia cristã chamou de “pecado original”. O pecado, para o cristão, não é uma realidade positiva, mas uma carência estrutural no ser humano que optou originalmente contra o bemPois o mal, pensam os cristãos, não é um ser, mas a ausência,a recusa de um bem devido que não está no ser humano nem lhe pertence.

A nenhum cristão ocorreria que um marido violento ou uma mãe desnaturada levasse à necessidade de destruir as famílias, ou que um mau empresário negasse a necessidade do empreendedorismo, nem que um mau sindicalista implicasse a necessidade de destruir qualquer organização operária, ou que um menino com crise de identidade sexual levasse à necessidade de destruir a heterossexualidade. Ou a de que um velhinho doente e improdutivo, ou um embrião de mãe pobre, devesse ser eliminado em “eutanásia” em nome da sua incapacidade de ajustar-se ao mercado.

Assim, a opressão, para o cristão, é um desvio acidental do bem essencial da relação, devido a um acidente chamado hamartia, que os cristãos traduzimos como “pecado”, mas que em sua acepção grega original significa fracasso, distância do alvo, impossibilidade de alcançar por si mesmo os próprios fins. Para o cristão, a relação é boa por essência, porque reflete a própria essência íntima do Deus trinitário, sob cuja imagem fomos constituídos. O pecado macula as relações, mas não as invalida: “abusus non tollit usus”, dizia um velho ditado latino. Mas não é possível redimir este pecado pelos esforços humanos: é preciso deixar espaço, nas imperfeições da cidade dos homens, para que aqueles que quiserem possam abrir-se à graça de Deus.

Neste sentido, nós cristãos não nos identificamos completamente nem com a esquerda, nem com a direita contemporâneas, na exata medida em que queiram construir uma sociedade humana sem Deus, ou mais especificamente, sem levar em conta o Deus trinitário cuja essência não é o poder prepotente que oprime, mas a relação amorosa que liberta. Não estamos impedidos de conversar com eles, de concordar e discordar, e até de nos aliar com aqueles que parecem, a cada momento, mais aptos a construir uma cidade dos homens menos injusta. Mas devemos sempre lembrar-nos e lembrá-los que seus mitos fundantes não passam de atos de fé, aliás muito menos razoáveis que a nossa – e que a nossa lealdade fundamental de cristãos, mesmo quando separados por cores políticas, se encontra num plano infinitamente mais elevado.