A religião não é um problema pessoal

A bíblia, as orações, os sacramentos e os sacramentais não são recursos de autoajuda

São Paulo, (Zenit.org) Edson Sampel | 531 visitas

A religião é, sem dúvida, uma escolha do indivíduo, conforme no-lo certifica o documento Dignitatis Humanae, do Concílio Vaticano II. No entanto, está longe de ser uma mera questão pessoal. São Tiago nos adverte: “A religião pura e sem mácula diante de Deus é assistir os órfãos e as viúvas nas suas atribulações”(Tg 1, 27). Se não levarmos em consideração esta verdade social da religião, corremos o sério risco de transformarmos nosso relacionamento com Deus numa espiritualidade supersticiosa, mágica. Aliás, são João, o evangelista, também nos admoesta: “Se não amo meu irmão, que vejo, como posso amar Deus, que não vejo?” (1 Jo, 4).  

Não faz muito tempo, uma revista semanal do Brasil publicou uma reportagem, em que se mostrava quão benéfica é a espiritualidade na vida das pessoas. Segundo a aludida matéria jornalística, quem reza, acredita em Deus etc. goza de melhor saúde. Penso que a postura religiosa incremente mesmo a salubridade do crente. Mas, a religião não é um placebo médico, uma espécie de refrigério. A religião, na ótica cristã, não é nem sequer um liame Deus ↔ eu, mas uma religação (religião = religarereligatio) Deus ↔ meus semelhantes ↔ eu. O santo padre, em 28/7/2013, no Brasil, discursando aos dirigentes do CELAM, denunciou o erro da ideologização psicológica.  Eis as palavras do vigário de Cristo: “Trata-se de uma hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o ‘encontro com Jesus Cristo’ e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento. Costuma verificar-se principalmente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais etc. Acaba por resultar numa posição imanente auto-referencial. Não tem sabor de transcendência, nem, portanto, de missionariedade.”

Infelizmente, uma ideologia anticristã ameaça constantemente os filhos da Igreja católica. Refiro-me à mentalidade que tem ojeriza pela cruz, pelo sofrimento. Isto não tem nada a ver com o evangelho, onde Jesus nos alerta: “Quem quiser me seguir, carregue a sua cruz de cada dia”. Não existe religião cristã sem sofrimento ou sem compaixão pelas agruras que atormentam nossos irmãos, principalmente os mais necessitados.

Aprouve a Deus salvar-nos socialmente, enquanto povo, enfatiza a constituição pastoral Gaudium et Spes. Assim, o cume da prática religiosa ocorre na paróquia, nas celebrações litúrgicas e, eminentemente, na eucaristia santíssima. Não dá para privatizarmos o catolicismo que, por definição, é universal. Qualquer tentativa de fazer da religião pregada por Jesus um problema pessoal, a minha religião, implica o total aniquilamento do catolicismo. Já não estaremos mais diante de uma religião, mas do alienamento supersticioso. Explicitou o papa Francisco no discurso supramencionado: “O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos outros.”

A bíblia, as orações, os sacramentos e os sacramentais não são recursos de autoajuda. São meios de santificação do povo de Deus. A religião cristã é, pois, um problema social para cada fiel. Da adesão individual e indelegável parte-se para o compromisso com todos os seres humanos. Destarte, o batismo desencadeia uma onda de amor, de sociabilidade, que não se compara à beneficência das o.n.g.’s ou a pseudo-caridade de certas seitas, porque a solidariedade cristã está embasada no amor a Deus e não no dó que o padecimento do próximo nos causa. 

A religião genuína não se circunscreve apenas a determinado setor da vida, como equivocadamente revelaram os entrevistados da reportagem acima citada: o tempo em que se ora, a ida à missa, a participação em numa procissão ou em um retiro etc. A religião católica tem de estar presente em todos os momentos da existência humana ou não está presente nunca. Lembra-nos são Paulo: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer coisa, fazei-o para a glória de Deus”.