A RESSONÂNCIA SOCIAL E ECLESIAL DA VISITA DO PAPA AO MÉXICO (SEGUNDA PARTE)

Entrevista com três sacerdotes do Pontifício Colégio Mexicano de Roma

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ROMA, quarta-feira, 14 de março de 2012(ZENIT.org) – Apresentamos a segunda parte da entrevista com os sacerdotes do Pontifício Colégio Mexicano publicada ontem.

Como é a situação da liberdade religiosa no México?

Pe Armando: É preciso entender este tema em uma perspectiva histórica. A relação da Igreja com o Estado mexicano nunca foi fácil por razões históricas que os bispos ilustraram na carta pastoral de 2000 intitulada Do encontro com Cristo à Solidariedade com todos. Os progressos obtidos em matéria de liberdade religiosa são importantes, mas não suficientes, visto que a nossa legislação não se coloca à altura de muitos países civilizados do mundo, que dão à liberdade religiosa o lugar que deve ter nos direitos humanos. No México houve uma grande reforma constitucional, aprovada recentemente na carta, que tem o direito humano como base e fundamento da legislação nacional. Mas este passo, desde que eram chamadas “garantias individuais” concedidas pelo estado até o reconhecimento dos direitos humanos, é notável e nesta conjuntura está o direito a liberdade religiosa. Existe uma série de inovações que estamos debatendo, algumas das quais o Congresso já aprovou, mas que o Senado continua a recusar, não apenas no que diz respeito a liberdade religiosa em geral, mas também a liberdade da Igreja católica em alguns setores, como a educação, as comunicações e manifestações públicas de idéias, sobre as quais existe um forte debate. Neste âmbito nós precisamos ter um pouco de “paciência histórica”, não dar passos apressados, pois, mesmo na certeza, devemos saber “convencer sem irritar”, como disse Newman, para não polarizar e não ferir sentimentos que são respeitáveis, que talvez não compartilhamos, mas que podem ter alguma razão histórica.

Existe um tema que se fala muito, ligado a religiosidade popular no México. O que pode ser feito para que esta manifestação não desvie os fiéis do “núcleo” da fé?

Pe Javier: Se trata de um elemento que apreciamos, porque a religiosidade popular  não é um elemento negativo no processo de crescimento da fé dos fiéis. É uma expressão com a qual nos servimos para aprender a amadurecer a fé deles.

Pe Armando: Acho que seria necessário entender a religiosidade popular como um viver o Evangelho com a simplicidade de homens e mulheres que não questionam muito e oferecem a Deus a sua fé de maneira muito simples. Acho que é, sobretudo uma ocasião para apresentar a novidade do Evangelho tocando a vida da comunidade, que se exprime de maneira simples com cantos, orações; traduções cíclicas, pois tudo o que exprime é ligado a vida. E como foi ensinado pelo Concílio Vaticano II, de Puebla, até Aparecida, devemos reconhecer a genuinidade e o valor da piedade popular, mas também purificar-la, pois internamente podem conter distorções ou um efeito oposto ao daquele que se procura em uma religiosidade autentica.

E a “devoção” à Santa Morte, qual é a sua origem?

Pe Emmanuel: Não é uma devoção cristã nem católica. A qualificarei como uma “pseudo-devoção” que muitas vezes- não sempre- é ligada ao narcotráfico, à violência, e que se perde nas expressões populares da fé e afasta do conteúdo do Evangelho e daquilo que a Igreja afirma em relação ao culto. Não é que exista uma guerra contra os seguidores da Santa Morte, mas através dos bispos, a Igreja indicou que é uma forma de culto que não corresponde à fé cristã – que deve render culto de adoração somente a Deus – e colocar o tema da morte no contexto cristão.

Pe Javier: Devemos estar atentos a deformação da fé no México e em qualquer lugar. Porque o tema da mal chamada “Santa Morte” não promove a Boa Nova que é Jesus Cristo e que é promover a vida. Devemos prestar mais atenção naquilo que corresponde a nossa fé, do que naquilo que a distorce e suja. É um argumento delicado que devemos saber distinguir com a nossa gente, identificar o que corresponde à nossa fé e distinguir aquilo que está à margem para não confundir com a fé cristã.

Qual é a mensagem de vocês para os nossos leitores que se preparam para a visita do papa ao México e Cuba?

Pe Emmanuel: Devemos estar muito atentos à visita do Papa em nosso país e concentrar no elemento central do evento, que é o Papa e a sua mensagem, escutando-a, com toda a sua riqueza, como uma mensagem de esperança que encoraja a continuar a obra de evangelização. E depois pedir para estarem unidos em oração para que esta viagem se realize sem contratempos e que o Espírito Santo opere sobre o Papa e na sua mensagem.

Pe Javie: Que dêem a possibilidade de escutar-lo e de descobrir como ele pode tecer os fios da nossa vida interior, familiar e nacional. E finalmente questionar: o que restará depois desta visita, no meu compromisso pessoal, familiar, eclesiástico e com o povo no México?

Pe Armando: Chama a minha atenção uma imagem de uma visita do Papa, na qual alguns jovens vestiam uma camiseta de futebol, com o nome Bento e o número 16 na parte de trás. Isto seria a mensagem, especialmente para os jovens: vestir a camisa de Bento XVI e partilhar com todos os outros, as esperanças, expectativas e medos para fortalecer uns aos outros. E sentir que o Papa é alguém da nossa casa, que vem estar conosco, para isso um ambiente de oração, de boa atmosfera e de comunidade que podemos criar será muito importante. Durante a visita é preciso estar muito atento e escutar, porque diferentemente de João Paulo II que as pessoas gostavam de ver, do Papa Bento XVI gostam de ouvi-lo. Tudo isso porque é um homem muito inteligente – a ponto de ser definido por alguns Padre da Igreja – nos fala com sabedoria e profundidade, mas ao mesmo tempo, com simplicidade capaz de iluminar e representar a esperança também nas situações mais difíceis da vida da Igreja e da sociedade. No “depois”, é necessário estar muito atento para receber luzes para a construção da paz, para a superação da pobreza e da desigualdade, como também sobre o tema da Missão Continental e da Promoção da Nova Evangelização. Para os irmãos sacerdotes é uma boa oportunidade para reforçar a vocação. Fico perplexo quando leio alguns jornais no México que instrumentalizam a visita e me pergunto: como posso ter medo de um homem de 85 anos? Muito eloqüente para nós é a vida que o Papa tem e como permanece fiel ao seu ministério. Com um peso tremendo sobre as costas, tem disciplina de vida: tem tempo para rezar, descansar, passear, ler, escrever, tocar piano, assim como recebe em Audiência muitas pessoas que querem vê-lo, ou dedica-se aos afazeres da Cúria e ao governo da Igreja...Acho que nenhum sacerdote tem o pretexto para não fazer o mesmo, e ainda pode dar um grande horizonte ao nosso ministério em dois campos: o amor e a verdade.

(Tradução:MEM)