A revolução de Francisco

Entrevista com teólogo próximo do Papa, dom Víctor Fernández, da Pontifícia Universidade Católica da Argentina

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 578 visitas

“Chega de padres que vivem no luxo. Vou explicar a revolução de Francisco”: com este título, o jornal italiano La Repubblica veiculou hoje uma entrevista de página inteira com o arcebispo dom Víctor Fernandez, diretor da Pontifícia Universidade Católica da Argentina e teólogo muito próximo do santo padre.

O ponto central, diz o teólogo, é que “Francisco pensa que uma Igreja que quer sair de si mesma e chegar a todos tem a necessidade de adaptar o seu modo de pregar”. Por isso, “ele aplica um critério que foi proposto pelo concílio Vaticano II e que é muitas vezes esquecido: a hierarquia da verdade”. Porque o problema é que “muitas vezes os preceitos da doutrina moral da Igreja são propostos fora do contexto que lhes dão significado”, o que faz com que “eles não manifestem por inteiro o coração da mensagem”.

O arcebispo especifica: “Por exemplo, se um pároco fala dez vezes por ano sobre moral sexual e só duas ou três vezes sobre o amor fraterno ou a justiça, é evidente que existe uma desproporção”. E o mesmo ocorre “se ele fala muito contra o casamento homossexual e pouco sobre a beleza do matrimônio”. Se o convite “não brilha com força e com poder de atração, a moral da Igreja corre o risco de desabar, como um castelo de cartas. Este é o maior perigo”.

Sobre as características do papa Francisco, o diretor da PUCA observa: “Ele vai além das discussões teológicas sobre o concílio, porque o santo padre está interessado em dar continuidade ao espírito de renovação e de reforma da Igreja, que vem desde o próprio concílio. Ele está fora de qualquer obsessão ideológica” e tem a intenção de “levar a Igreja para fora de si mesma, para chegar a todos”.

Quanto às relações às vezes difíceis entre Bergoglio e a presidente Cristina Kirchner, o arcebispo redimensiona, explicando que as homilias foram muitas vezes interpretadas a partir de uma perspectiva política, quando, na realidade, nenhum político pode afirmar "que teve Bergoglio como aliado político, seja de esquerda, seja de direita”. E o arcebispo amplia o horizonte da problemática: “Eu acho que quem tem alguma forma de poder, inclusive eclesiástico, não pode deixar de sentir sobre si mesmo o aguilhão de Bergoglio, porque ele é e sempre será intérprete de quem não tem poder”.

Dom Fernández recorda: “Em 2000, Bergoglio expressou um desejo: ‘que o poder não seja um privilégio inexpugnável’. E isto vale para um presidente, para um governador ou para um homem de negócios, para um cardeal e para os membros da cúria romana”.

O reitor considera, no entanto, que “uma certa afinidade com o peronismo existiu”, na medida em que o peronismo "assumiu com força valores da doutrina social da Igreja", embora reconheça: “Isto não significa que Bergoglio tenha sustentado alguma vez algum poder político”.

O teólogo também fala da pregação do papa sobre a pobreza: “Não é um amor ao sacrifício por si mesmo, nem uma obsessão pela austeridade”, mas um despojar-se interior “voltado a colocar Deus e os outros no centro da própria vida”. E enfatiza que “o papa Francisco não gosta dos ‘padres príncipes’, que tiram férias caras ou jantam nos melhores restaurantes, que ostentam objetos de ouro por cima das vestes ou que fazem contínuas visitas a pessoas poderosas”.

Sobre a reforma na cúria romana, o arcebispo considera que o mais importante não é a simplificação da estrutura, “mas outras formas de participação (sínodos, conferências episcopais, consulta aos leigos), que, nos últimos anos, foram mais reais do que formais”. Isto requer que alguns setores da cúria deixem de ser excessivamente jurídicos, inquisidores e ao mesmo tempo majestosos, “pois eles estão correndo o risco de se tornar autorreferenciais”. O reitor da universidade comenta: “Algumas vezes, ouvi personalidades da cúria dizerem 'nós' sem incluírem toda a Igreja, nem sequer o papa, mas apenas a si mesmos”.