A «Rosa de Sarom» é a Esposa/Maria

Maria, cujas excelências e virtudes canta profeticamente o Cântico dos Cânticos

Recife, (Zenit.org) Pe. Rafael Maria, osb | 713 visitas

No Brasil existe um grupo musical católico que se intitula «Rosa de Sarom». Para estes e outros as informações que se seguirão poderão ajudar melhor na compreensão e servir de formação e orientação para uma adequada aplicação do título.

Alguns sites católicos procuram identificar a «Rosa/Flor de Sarom» a Cristo. Ora, o texto no livro do Cântico dos Cânticos 2,1-2 (Ct) onde menciona em uma única vez demonstra que tal referência se aplica a Esposa do Ct e não ao Esposo/Cristo.

O texto diz o seguinte, segundo a Bíblia de Jerusalém: “Sou um narciso de Sarom, uma açucena dos vales. Como açucena entre espinhos é minha amada entre as donzelas”.

Embora muitos especialistas não consigam identificar que “Rosa/Flor” seja esta, deduzem que seja de uma espécie floral própria da planície do Sarom, próximo ao Monte Carmelo. Vale dizer que as traduções mais antigas da Bíblia não dão uma característica desta flor. A “Bíblia Vulgata” chama «Flor dos campos»; a “Bíblia Ecumênica”, de «Narciso»; a “Bíblia de Almeida”, de «Rosa».

Na história da patrística muitos autores aplicam a figura da Esposa à Igreja e outros à Virgem Maria.

Maria como esposa do Ct na tradição da Igreja.

Para entendermos a relação entre a Rosa/Flor de Sarom e a Esposa/Maria convém conhecermos a intenção de muitos Autores que quiseram interpretar em perspectiva mariana muitos textos do Antigo Testamento. Dentre tais textos, surge o livro do Cântico dos Cânticos, interpretado pelo abade beneditino Ruperto de Deutz († 1130), direcionando-o à pessoa de Maria, porque, segundo ele: “Maria é a mãe-virgem do futuro Salvador, a quem dará a luz o povo de Deus, na qualidade de Esposa de Yahwé. Maria é a parte ótima deste povo e sua representante, cujas excelências e virtudes canta profeticamente o Cântico dos Cânticos”.

Segue-o neste caminho interpretativo outros autores medievais: Honório de Autun (séc. XII), Filipe de Harveng († 1183), Tomás de Perseigne († fins do séc. XII) e Alano de Lilla († 1203).

Já encontramos, em autores anteriores a Ruperto, alguns elementos marianos em textos particularizados do Ct, tais autores são: Hipólito de Roma († c. 235), Origenes († 284), Efrém Siro († 373), Ambrósio de Milão († 397), Epifânio de Salamina († 403), Jerônimo († 410), Pedro Crisólogo († 450), Sofrônio de Jerusalém († 638), Apônio (séc. VII), Germano de Constantinopla († 740), João Damasceno († 750c.), Ambrósio Autperto († 781), Pedro Damião († 1072), Amadeu de Lausanna († 1159) e João de Ford († ca. 1214).

A Esposa/Maria está desde o princípio unida ao Esposo/Cristo e segue-o, pois ela é sua amiga, “pela graça e pelas obras” (Alano de Lila † 1203).

O livro do Cântico dos Cânticos oferece-nos diversas figuras simbólicas, que muitos autores interpretaram de modo livre a respeito da Virgem Mãe de Deus. Identificam-na com a imagem do pescoço, aquela que une a cabeça ao corpo místico de Cristo [Dimitrio de Rostov († 1709)]; e para demonstrar sua força, este pescoço é como uma torre (cf. Ct 4,4;7,5): [Hermano de Tournai ca. 1147]; quando falam de sua beleza imaculada vêem a imagem da pomba/rolinha, simples e casta (cf. Ct 4,1): [Cirilo de Alexandria († 444)]; chamando-a de amiga (cf. Ct 4,7): [Teodoro Studita]; e sua beleza imaculada é comparada com a aurora/lua/sol (cf. Ct 6,10): [Germano de Constantinopla († 733)]; quando sua virgindade perpétua é exaltada, usam a imagem do jardim fechado (cf. Ct 4,12): [Esiquio de Jerusalém († 451)]; quando se dirige à amada chama-a de irmã (cf. Ct 4,9-10) [Teodo Studita]; proteção e refúgio, a imagem do muro (cf. Ct 8,10): [Dimitrio de Rostov], enfim,  é figura da Mãe do Senhor.

Tais interpretações poéticas e metafóricas oferecem uma visão simbólica-teológica que podem parecer exageradas e ricas de sentimentalismo, mas revelam, por parte dos Autores, uma convicção e sentido teológico do texto Sagrado, a fim de demonstrar uma interdependência da mãe com o filho.

Cristo ressuscitado, centro de nossa redenção, associa sua Virgem Mãe ao mistério da salvação, da sua encarnação à sua paixão, mas também na alegria/consolação de sua ressurreição.

A riqueza com que os Padres e Autores sagrados utilizaram a Sagrada Escritura, para iluminar de modo representativo a pessoa de Maria e de seu papel ao lado da missão do Filho, encanta-nos e oferece-nos elementos sugestivos de culto mariano bem aprofundado.

Na linha exegética dos Padres, o Ct serve como modelo tipológico de Maria e da Igreja. S. Ambrósio de Milão († 397) já dizia: “Quanto são belos também todos aqueles símbolos com os quais a Escritura, sob a figura da Igreja, profetizaram sobre Maria!”.

Em várias aparições marianas, Nossa Senhora traz como adorno, seja nas vestes como adorno pessoal, elementos florais: Caravaggio em 1482 (Itália), Guadalupe em 1531 (México), Aparecida em 1717 (Brasil), Lourdes em 1858 (França), Knock em 1879 (Irlanda) e outras.

Portanto, a Rosa/Flor fica como símbolo mariano.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

BERTETTO, D. La sposa del Cantico dei Cantici, in Maria nel dogmma cattolico. Trattatodi mariologia. Torino: Società Editrice Internazionale, 1950². p. 82-91.

CASAGRANDE, D. EnchirindionMarianumBiblicumPatristicum. Romae: «Cor Unum», 1974. p. 1976.

GHARIB, G. – TONIOLO, E. – GAMBERO, L. – DI NOLA, G. (a cura di), Testi Mariani del Primo Millennio. Padri e altri autori latini, vol. 3. Roma: Città Nuova, 1988. p. 175.

PEINADOR, M. Mariologia de Ruperto de Deutz, in Ephefemerides Mariologicae 17 (1967) 140.