A sedução do dinheiro fácil

Futuro em jogo

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Padre John Flynn, L.C.

ROMA, domingo, 13 de março de 2011 (ZENIT.org) - Cada vez mais gente joga na Grã-Bretanha e cresce o número de jogadores problemáticos. Esta é a conclusão de uma pesquisa publicada em 15 de fevereiro pela Comissão de Jogo do país.

A Pesquisa sobre o Predomínio do Jogo na Grã-Bretanha mostrou que 73% dos adultos apostaram em 2010, em comparação com 68% em 2007. O estudo revelou que a proporção de jogadores problemáticos aumentou de 0,5% da população adulta em 2007 para 0,7% em 2010. Segundo o estudo, este aumento não é significativo estatisticamente.

Entretanto, Brian Pomeroy, presidente da Comissão de Jogo, admite que uma "pequena, mas provavelmente crescente proporção da população tem graves problemas com o jogo", em declaração que acompanhou o comunicado de imprensa.

A Loteria Nacional é a forma mais popular de jogo. 59% dos adultos comprou bilhetes nos últimos 12 meses. Em popularidade, seguem outras loterias (25%), raspadinhas (24%) e apostas em cavalos (16%).

Em termos de frequência, 43% dos adultos apostaram em pelo menos um desses jogos na semana anterior à pesquisa. Um terço comprou bilhetes da loteria nacional naquela semana.

Quanto ao perfil dos jogadores, o estudo observa que o jogo é notavelmente mais comum no grupo étnico branco: 76%, contra 52% dos negros e 41% dos asiáticos.

A educação é outro fator diferenciador. As pessoas com mais formação se mostraram menos propensas a jogar durante o último ano. Em 2010, 70% das pessoas com diploma universitário jogaram, contra 76% das pessoas sem essa formação.

Problemas

Os problemas com o jogo são mais frequentes entre homens do que mulheres. Relacionam-se também com a idade, sendo maior a porcentagem de jogadores problemáticos entre os adultos jovens do que entre os mais velhos.

Embora os problemas afetem menos de 1% da população, o estudo indica motivo de preocupação para a saúde pública.

Assim como os jogadores não problemáticos, os problemáticos também tendem a ter menos estudos. Porém, o contexto étnico é diferente: os asiáticos têm a porcentagem mais alta de jogadores problemáticos, seguidos de negros e, por último, brancos.

Entre os jogadores não problemáticos e os problemáticos, também há diversas motivações.

Apesar de que o desejo de ganhar dinheiro é muito presente nos jogadores normais, esta motivação não supera a da simples diversão.

Já os jogadores com problemas tendem a jogar para satisfazer um forte desejo de emoções positivas e fugir das emoções negativas. Para eles, são menos importantes as motivações sociais ou extrínsecas, como o desejo de ganhar dinheiro.

Reforma

A Austrália é outro país onde aumenta a preocupação com o impacto do jogo. Um relatório do ano passado da Comissão de Produtividade destacou os custos sociais dos jogadores problemáticos e a miséria que o jogo traz para milhares de pessoas.

O parlamento australiano criou um comitê para estudar as possíveis reformas das leis que regulam o jogo e quais medidas adotar para mitigar o aumento de pessoas com problemas relacionados a ele.

Em fevereiro o comitê viajou pelo país ouvindo testemunhos de grupos.
Em Adelaide, o presidente da Autoridade Independiente para o Jogo do Sul da Austrália, Allan Moss, declarou-se a favor de um cartão inteligente que dê limites diários ou semanais para os jogadores nas máquinas de pôquer (Associated Press Austrália, fevereiro).

Em Hobart, capital da Tasmânia, o comitê recebeu a sugestão de que o governo federal crie um banco de dados de jogadores problemáticos (ABC News, 18 de fevereiro). Matt Rowell, da Relationship Australia, afirma que também seria preciso que os sistemas de limites para as apostas fixassem um período de tempo durante o qual não fosse permitido alterar os limites já estabelecidos.

As máquinas de pôquer representam 62% das apostas na Austrália e 80% dos jogadores problemáticos (ABC News, 17 de dezembro).

A matéria a respeito descreve experiências de pessoas que se viciaram em máquinas de pôquer. Uma delas, Kate Roberts, criticou o fato de as máquinas disfarçarem as perdas quando dizem que alguém ganhou, já que ficam com um dólar de cada dois que foram gastos.

Embora os limites possam servir para as máquinas de pôquer, pouco podem ajudar para conter o crescimento do jogo online. Por lei, sites não podem oferecer jogo online para os australianos, mas a indústria internacional dos cassinos e do pôquer online lucra mesmo assim centenas de milhões de dólares com o país (ABC News, 14 de dezembro).

A Lei do Jogo Interativo de 2001 impediu os sites da Austrália, mas não pode impedir que as pessoas acessem as milhares de páginas estrangeiras. O perito Jamie Nettleton declarou à ABC que seria muito difícil pôr em prática leis contra os operadores de outros países onde o jogo é legal.

Um estudo citado pela ABC afirma que quase um terço dos australianos com mais de 16 anos já jogou online.

Vitória dos governos

Um dos problemas da regulação do jogo, para os governos, é que o aumento nas restrições leva à queda da arrecadação. No Canadá, por exemplo, as várias instâncias do governo receberam em 2009 o montante de 14,7 milhões de dólares canadenses da indústria do jogo, segundo o Globe and Mail de 27 de agosto passado.

Um artigo de 27 de julho no New York Times informou que, na Europa, os governos vêem o jogo como forma de reduzir os déficits orçamentários exacerbados pela atual crise econômica.

Um mês antes desse artigo, a França mudou a lei para permitir o jogo online. No mesmo mês, a Dinamarca tomou a mesma decisão. Segundo o New York Times, a Suíça, a Espanha e a Alemanha também estão considerando a medida.

O artigo citava um estudo que mostra que a Europa é atualmente o maior mercado de jogo online do mundo, somando 12.500 milhões dos 29.300 milhões, a estimativa mundial de lucros em 2010.

Do outro lado talvez esteja só a pressão popular. Um exemplo recente aconteceu em Berlim. A cidade tem mais de 300 salas de jogos e cassinos, e cerca de 37 mil viciados no jogo, informava no dia 19 de fevereiro o Irish Times.

As empresas que estão detrás dos estabelecimentos de jogo são conhecidas por suas generosas doações aos partidos políticos, e o artigo dizia que alguns críticos do jogo veem uma conexão entre as doações e a decisão de liberar o jogo em Berlim em 2006.

Os últimos protestos públicos estavam encaminhados a inverter algumas dessas mudanças. O governo respondeu que limitará as horas de abertura e aumentará os impostos. O dinheiro fácil do jogo pode tentar os governos, mas eles não são totalmente imunes à pressão dos eleitores.