A Síria precisa de evolução, não de revolução!

O irmão Firas Lutfi, jovem franciscano sírio, fala da mudança de que o país realmente precisa e da dificuldade de reconstruir a alma ferida dos seus compatriotas

Roma, (Zenit.org) Naman Tarcha | 576 visitas

Olhar fixo, presença calma, diálogo franco: uma vida dedicada a servir aos últimos, seguindo as pegadas de São Francisco. É uma figura comovente a do jovem franciscano Firas Lutfi, filho de Hama, cidade que viveu na década de 1980 a destruição por causa de um golpe de estado fracassado. O frade trabalhou desde 2004 na principal paróquia católica local, enquanto a sua família se dividia entre Hama e Homs. Depois, veio a crise que tem devastado o seu amado país.

ZENIT o entrevistou.

ZENIT: As eleições sírias tiveram uma participação significativa, apesar das ameaças e do terrorismo. Existe muita vontade de mudança?

Frei Firas Lutfi: A Síria, como todos os países do mundo, precisava de mudança, mas para modernizar o país não era necessária uma revolução, e sim uma evolução. A Europa atravessou guerras mundiais devastadoras antes de atingir um nível democrático e colocar o ser humano no centro. O meu país sempre esteve no meio de conflitos e de guerras que abalaram a nossa região, desde o início dos séculos. Foi objeto de conflitos entre as forças regionais e, ao mesmo tempo, uma das regiões por onde passaram mais civilizações, com consequências negativas e também positivas, oferecendo muita riqueza e diversidade e merecendo ser considerada como o berço de muitas civilizações. Durante 400 anos, a Síria permaneceu sob a ocupação otomana e, depois, sob a ocupação francesa, conseguindo a independência há apenas 30 anos. Como é que se pode pedir que um país tão jovem seja livre, independente, estável, 100% democrático?

ZENIT: Por que o ocidente impediu que os sírios votassem no exterior e chamou as eleições de farsa?

Frei Firas Lufti: O ocidente não consegue entender duas questões: a primeira é que os países em vias de desenvolvimento precisam de tempo para as mudanças. Não se pode pedir que uma criança corra uma maratona com os adultos ou atravesse o mar antes de crescer, de ter autonomia. A segunda questão é a independência: hoje, todos os sírios lutam contra a violação da soberania síria e contra a ingerência, porque acreditam que esta terra abençoada é a terra deles, a terra dos seus antepassados, e que eles têm o direito de viver com dignidade. O modelo democrático nos países árabes é diferente do ocidental. A diferença é precisamente a forma de pensar. O ocidente se concentra na pessoa, no individualismo, enquanto as sociedades do Oriente Médio vivem ainda com o conceito do pater familias, da comunidade, das tribos. A democracia de que falamos é a eleição do líder em torno do qual se entra em concordância, pelo bem comum e pelo melhor para o país. Por isso, temos que respeitar as características e as particularidades dos povos sem querer aplicar a eles o sistema de outros países.

ZENIT: Todos falam em nome dos sírios, mas o que os sírios querem?

Frei Firas Lufti: Sempre houve obstáculos que impediam a mudança e a modernização do nosso país. Em primeiro lugar, a questão da libertação dos nossos territórios das Colinas do Golã, que estão ocupados. Até hoje nós estamos em estado de guerra para defender o nosso país de outro vizinho que ocupa os nossos territórios, apesar das dezenas de resoluções da ONU que afirmam os nossos direitos territoriais. O cidadão sírio pedia desenvolvimento do país em todos os níveis e via no presidente e no atual governo uma verdadeira esperança, num país rico em recursos, mas afetado pela crise econômica mundial e pela corrupção. Todos nós estamos de acordo com a necessidade da mudança. Mas que mudança? Para a oposição síria externa, representada pela coalizão nacional e pela oposição armada, esta mudança vem através da violência, com o apoio e com a intervenção militar externa do ocidente; mas para o cidadão sírio este fato é inaceitável.

ZENIT: O ocidente ainda fala de uma revolução no seio do povo sírio.

Frei Firas Lufti: Os sírios, particularmente os cristãos, depois de todos estes eventos, estão convencidos de que o que está acontecendo é uma destruição do estado, não uma mudança ou uma melhora, e que estamos avançando rumo à transformação de um sistema político considerado pelo ocidente como uma ditadura laica para uma ditadura religiosa. No início, quem sabe, alguns sírios estavam animados, mas, hoje, tudo está mais claro, como revelam os relatórios internacionais das Nações Unidas. A mudança deveria ser para melhorar, não para piorar. Os cristãos querem uma verdadeira mudança radical partindo de uma reforma constitucional, que foi feita e aprovada com um referendo, e depois, com uma visão moderna do futuro do país onde a religião é para Deus e o país é de Deus.

ZENIT: Qual é a situação dos cristãos sírios? 

Frei Firas Lutfi: Os cristãos sírios sempre tiveram liberdade religiosa, podiam praticar e realizar o culto livremente dentro e fora da igreja, inclusive em numerosas procissões pelas ruas durante o mês mariano ou na semana santa.  É óbvio que em alguns casos precisamos de permissão, como em qualquer parte do mundo, avisando as autoridades. E isso é importante porque a fé se expressa no respeito pelas outras confissões. Essa liberdade religiosa é garantida porque a Síria é um estado laico, não é um estado teocrático. Se fosse, o sírio cristão seria cidadão de classe B, como em outros países árabes. E isto, num estado civil, é uma questão inaceitável, numa sociedade que acredita na cidadania, em que você e eu somos iguais, e, apesar das nossas diferentes etnias ou religiões, temos os mesmos direitos e deveres. Nunca sofremos perseguições nem ameaças. Hoje as coisas mudaram e o exemplo evidente é a cidade de Al Raqaa, onde os cristãos têm que pagar um imposto para continuar vivos!

ZENIT: Alguns dizem que os cristãos sírios têm uma posição ambígua. O que eles realmente querem?

Frei Firas Lutfi: Antes da crise, os cristãos sírios tinham demandas diferentes, como a questão da constituição síria, que diz que o presidente da República deve ser exclusivamente de fé muçulmana.  Mas se nós queremos um estado com igualdade dos cidadãos, a fé não deveria ser um problema. Os cristãos defendem o estado partindo do princípio da cidadania. Se a cidadania não fosse a medida da convivência, qualquer medida seria desequilibrada. Eu sou uma pessoa e não um número, nem uma porcentagem. Eu nasci nesta terra e gostaria de continuar vivendo aqui. E o outro deveria me reconhecer assim, e não como um hóspede que tem alguns direitos.

ZENIT: Há perseguição contra os cristãos?

Frei Firas Lutfi: Quem está contra os cristãos não são os sírios, porque um sírio muçulmano que viveu junto com seu irmão cristão não pode fazer isso. Ele sabe como ele vive, no que ele acredita e como ele se comporta. Quem vem de fora, os extremistas, tem um ódio profundo contra o que é diferente, e nunca conheceu um cristão.