A solidariedade não é esmola social, e sim um valor

O papa Francisco se dirigiu na audiência do último sábado, 25 de maio, aos participantes da conferência internacional organizada pela Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) | 930 visitas

O papa Francisco se dirigiu na audiência do último sábado, 25 de maio, aos participantes da conferência internacional organizada pela Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice. Reproduzimos a seguir seu discurso, publicado por L’Osservatore Romano.

Senhores cardeais,
Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Ilustres e caros amigos, bom dia a todos!

Estou muito feliz de encontrá-los por ocasião da conferência internacional da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, cujo tema foi "Repensando a solidariedade em prol do emprego: os desafios do século XXI". Saúdo cordialmente cada um de vocês e agradeço, em particular, ao seu presidente, o dr. Domingo Sugranyes, pelas suas amáveis ​​palavras.

A Fundação Centesimus Annus foi fundada pelo beato João Paulo II, há vinte anos, e traz o nome da encíclica que ele assinou no centenário da Rerum Novarum. Sua esfera de reflexão e ação é, portanto, a da Doutrina Social da Igreja, com a qual contribuíram em muitos aspectos os papas do século passado e Bento XVI, em particular com a encíclica Caritas in Veritate, mas também com discursos memoráveis.

Eu gostaria de começar agradecendo a vocês pelos seus esforços em aprofundar e difundir o conhecimento da doutrina social, com os seus cursos e publicações. Acho que é muito bonito e importante este seu serviço ao magistério social, como leigos que vivem na sociedade, no mundo da economia e do trabalho.

É justamente a tratar do trabalho que se orienta esta sua convenção, na perspectiva da solidariedade, que é um valor fundamental da doutrina social, conforme fomos lembrados pelo beato João Paulo II.

Ele, em 1981, dez anos antes da Centesimus Annus, escreveu a encíclica Laborem Exercens, inteiramente dedicada ao trabalho humano.

O que significa “repensar a solidariedade?”. Certamente, não significa pôr em discussão o magistério recente, que, aliás, demonstra cada vez mais a sua visão profunda e a sua atualidade. "Repensar" me parece, antes, que significa duas coisas: em primeiro lugar, combinar o magistério com o desenvolvimento sócio-econômico, que, por ser constante e rápido, apresenta sempre novos aspectos; em segundo lugar, "repensar" significa aprofundar, refletir mais, para fazer emergir toda a fecundidade de um valor –que é a solidariedade, neste caso–enraizado no Evangelho, ou seja, em Jesus Cristo, e que, como tal, contém potencialidades inesgotáveis.

A atual crise econômica e social aumenta a urgência desse "repensar" e sublinha ainda mais a verdade e a atualidade de afirmações do magistério social como a que lemos na Laborem Exercens: "Ao voltarmos o olhar para toda a família humana [...] não pode deixar de atingir-nos um fato desconcertante e de proporções imensas: enquanto, por um lado, conspícuos recursos da natureza permanecem inutilizados, há, por outro, legiões de desempregados e subempregados e multidões sem fim de famintos, fato este que, sem dúvida, testemunha que [...]algo não está funcionando" (nº 18).

É um fenômeno, o do desemprego, o da falta e da perda de trabalho, que vem se espalhando veloz por vastas áreas do ocidente e que estende de forma alarmante os limites da pobreza. E não há pior pobreza material, urge salientá-lo, que aquela que não permite ganhar o pão e que priva da dignidade do trabalho.

Esse "algo que não está funcionando" já não diz respeito apenas ao sul do mundo, mas ao planeta inteiro. Daí a necessidade de se "repensar a solidariedade" não mais como simples assistência aos mais pobres, mas como uma revisão global de todo o sistema, como busca de caminhos para reformá-lo e corrigi-lo de modo coerente com os direitos fundamentais do homem, de todos os homens.

Essa palavra, "solidariedade", que, como se fosse má palavra, não é bem vista pelo mundo econômico, precisa ter restaurada a sua bem merecida cidadania social. A solidariedade não é só mais uma atitude, não é uma esmola social, mas um valor social. E nos pede cidadania.

A atual crise não é apenas econômica e financeira. Ela está enraizada em uma crise ética e antropológica. Seguir os ídolos do poder, do lucro, do dinheiro, com prioridade sobre o valor da pessoa humana, tornou-se regra básica de funcionamento e critério decisivo de organização. Foi esquecido, e ainda se esquece, que, acima dos negócios, da lógica e dos parâmetros do mercado, está o ser humano e existe algo que é devido ao homem como homem, em virtude da sua dignidade profunda: oferecer-lhe a possibilidade de viver com dignidade e de participar ativamente do bem comum.

Bento XVI nos lembrou que toda atividade humana, inclusive a econômica, precisamente porque é humana, deve ser estruturada e institucionalizada de forma ética (cf. carta encíclica Caritas in veritate, 36). Nós devemos retornar à centralidade do homem, a uma visão mais ética das atividades e das relações humanas, sem medo de perder alguma coisa.

Queridos amigos, obrigado mais uma vez por este encontro e pelo trabalho que vocês desenvolvem. Asseguro a cada um, à fundação, a todos os seus entes queridos, um lugar na minha oração, e, de coração, os abençoo. Obrigado.