A substituição da sacralidade pela utilidade da vida

Entrevista com a médica Elizabeth Kipman e a educadora e logoterapeuta Eloisa Marques

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Por Alexandre Ribeiro

JACAREÍ (São Paulo), domingo, 17 de fevereiro de 2008 (ZENIT.org).- Para falar sobre os porquês de se assumir a luta em defesa da vida, Zenit entrevistou duas mulheres que atuaram diretamente da redação do Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2008 da Igreja no Brasil, que discute o tema «Fraternidade e Defesa da Vida».

Dra. Elizabeth Kipman Cerqueira é médica, casada, consagrada na Comunidade Senhor da Vida, diretora do CIEB (Centro Interdisciplinar de Estudos em Bioética) no Hospital São Francisco (Jacareí, São Paulo) e membro da Comissão de Bioética da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Eloisa Marques Miguez é leiga consagrada na Comunidade Senhor da Vida, formada em Letras e Pedagogia, especialista em Logoterapia aplicada à Educação e diretora do Centro de Educação Nossa Senhora das Graças (Jacareí).

Por que cada pessoa em particular é chamada a participar da luta em defesa da vida?

–Dra. Elizabeth Kipman Cerqueira: Porque é uma questão que atinge diretamente toda pessoa, nossos filhos e netos. A discussão sobre o aborto é questão extremamente importante em sua própria essência: aceitar que apenas os filhos desejados teriam direito à vida ou que existem vidas que não valem a pena serem vividas como, por exemplo, das crianças “menos perfeitas”. Além da seriedade inconteste dessa discussão, ela apresenta um alcance ainda maior que amplia suas conseqüências para uma guinada radical da filosofia que norteia a nossa sociedade. Mais: inicia uma guinada radical no valor de referência que norteia as próprias relações humanas: o valor de uma pessoa humana passa a depender do valor que outros lhe atribuem. Em outros países, a liberação do aborto tem sido a ponta de lança para substituir a sacralidade da vida pela utilidade da vida desenvolvendo conceitos que corroem a estrutura social tornando todos os valores relativos. Tudo dependeria da opinião da maioria ou de manobras políticas.

–A senhora acredita que os grupos de defendem o aborto e outras medidas que atentam contra a dignidade e a inviolabilidade da vida humana travam uma luta particular contra a Igreja Católica? Como isso se dá?

–Dra. Elizabeth Kipman Cerqueira: A Igreja Católica foi eleita como o grande obstáculo seja porque sua doutrina é clara em relação à defesa da vida humana, seja para desviar a opinião pública da essência do problema, reduzindo o debate como “simples resistência” de uma instituição.

A partir de 1930, cresceu a divulgação da ética pragmática que afirma: “qualquer medida que resolva um problema no plano prático deve ser considerada ética e moralmente justificável”. Quando desejáveis, os fins justificariam os meios, quaisquer que fossem. Assim, na gestação indesejada, elimina-se o bebê; para eliminar a dor, acaba-se com a vida; para evitar gastos com doentes incuráveis, matam-se os doentes; para evitar excesso de população que ameaçam a hegemonia dos países mais ricos, acaba-se com a família e reduz-se a sexualidade à prática sem compromisso inter-pessoal.

A proposta agrega diferentes posições desde aqueles que ainda erradamente consideram o excesso de população como a causa básica da destruição do meio ambiente até aqueles que defendem o liberalismo absoluto onde cada um deveria escolher a própria morte pelo suicídio ou escolher pelo aborto mesmo que isso signifique matar o seu filho. Agrega, também, os grandes donos do capital que financiam todas essas correntes por motivação econômica e política a partir de um plano bem elaborado. Toda guerra precisa de um inimigo e a Igreja tornou-se o alvo, apontada como se a defesa dos valores humanos básicos fosse o grande obstáculo ao progresso da ciência e à felicidade das pessoas.

A senhora afirmou em sua conferência no 1º Congresso Internacional em Defesa da Vida que a pessoa é chamada a ser habitação da Trindade. Poderia nos explicar isso, por favor?

–Dra. Elizabeth Kipman Cerqueira: A primeira convocação que recebemos como cidadãos do mundo é a defesa de toda pessoa humana pelo valor e dignidade que lhe são próprios. Cada um traz uma mensagem específica, uma contribuição para “a humanidade ser mais humana” que ninguém realizará em seu lugar. A vida de cada pessoa é sagrada porque sempre pode realizar valores e incentivar outros para a realização de valores até o seu último momento. Ninguém tem o direito de dizer: não quero ouvir a sua mensagem.

Para nós, cristãos, há uma segunda convocação que pede a resposta sincera na Fé. Cremos que cada pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus e, por isso, Ele envia a Sua mensagem particular, irrepetível através de cada pessoa individualmente. Cada pessoa é um tesouro do amor divino.

Além disso, toda pessoa ouve o convite para se tornar a morada de Deus e pode vivê-lo: “Viremos e nele faremos a nossa morada!” Cada pessoa é um sacrário da presença divina, do Deus Uno e Trino.

Ninguém tem o direito de destruir uma criatura que traz em si o seu próprio sentido e que, por isso, não pode ser meio para nada, nem para possíveis benefícios científicos ou sociais.

–O Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2008 da Igreja no Brasil discute justamente o tema «Fraternidade e Defesa da Vida». Como se deu a redação e como o texto está estruturado?

–Eloisa Marques Miguez: Campanhas anteriores já utilizaram o termo “vida” em seus temas. Aliás, Campanha da fraternidade é sempre “defesa da vida”, em suas diversas manifestações, pois condena tudo quanto a ela se opõe. A CF 2008, contudo, prioriza em sua discussão e reflexão a defesa da vida enquanto valor primário, isto é, o dom da existência que tem seu início na fecundação e vai caminhando para sua plenitude, até, no sentido cristão, a sua ressurreição em Cristo. A perda da percepção do valor da vida humana é conseqüência de um obscurecimento da consciência, de uma indiferença quanto à verdade, fatores estes presentes na chamada “cultura de morte”.

O texto se estrutura a partir de um olhar para a “realidade da pessoa humana” inserida neste contexto da cultura de morte, o que não lhe permite viver suas reais aspirações e dificulta-lhe encontrar o sentido da própria vida, que inclui o sentido do relacionamento interpessoal e o sentido do gerar uma vida, bem como o sentido do sofrimento e do morrer dignamente.

Na segunda parte, propõe, sobretudo à luz da Palavra de Deus, da qual a Igreja é porta-voz, o exercício do “discernimento” - capacidade especificamente humana - diante dos caminhos que conduzem à vida ou à morte. Finalmente, traz um conjunto de sugestões para a conscientização e o agir pela causa da promoção e defesa da vida humana.

Que pontos a senhora destacaria do Texto-Base da CF 2008?

–Eloisa Marques Miguez: Sem dúvida, o fundamento de toda sociedade e cultura é a “visão de pessoa”. Urge resgatar uma antropologia integral que contemple a pessoa em sua “unidade múltipla”, isto é, uma unidade antropológica com diferentes dimensões: biológica, psicológica, social e espiritual. Um ser, portanto, capaz de autotranscender; um ser ético, que decide em função de valores para dar respostas pessoais diante das circunstâncias de sua vida.

Somente uma “antropologia adequada”, no dizer de João Paulo II, nos faz “imunes” a diferentes tipos de totalitarismos e reducionismos presentes em posicionamentos ideologizados diante das questões que ameaçam a vida humana; presentes nos relacionamentos interpessoais, na forma de considerar o outro e de perceber o sentido do gerar, do sofrer, inclusive do morrer.

Uma “antropologia adequada” nos faz refletir sobre o sentido da vida e de todas as questões que ameaçam a vida humana, que ultrapassam os aspectos emocionais que são apresentados na mídia. Permite-nos discernir, por exemplo, que o aborto não é uma solução para os problemas da mãe; o aborto faz duas vítimas - o bebê e a mãe, para quem são muitas as conseqüências negativas.

Finalmente, destacaria que a Campanha da Fraternidade 2008 nos convoca a todos diante da situação tão dramática que estamos vivendo - a eliminação de tantas vidas humanas nascentes ou no seu ocaso, e o ofuscamento da consciência diante do bem e do mal. A responsabilidade passa, evidentemente, pelas instâncias governamentais; mas é de cada pessoa a responsabilidade para refletir, averiguar, discernir e se integrar no trabalho e na luta pela “cultura de vida”.