A suprema humildade de Jesus

Reflexão de Dom Orani João Tempesta, O. Cist.

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RIO DE JANEIRO, domingo, 9 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a reflexão de Dom Orani João Tempesta, O. Cist., arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, sobre a celebração da festa do Batismo de Jesus.

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O tempo do Natal, que de algum modo inclui os trinta anos da vida oculta de Jesus em Nazaré, acaba com a festa do Batismo do Senhor, que celebramos no próximo final de semana. A partir de agora a Igreja irá considerando os mistérios da vida pública de Jesus. Depois de João Batista ter preparado as almas, cumprindo a sua missão de Precursor, Jesus vai manifestar-se como Deus e Salvador. A vida pública do Senhor tem início, propriamente, quando Jesus se submete ao rito de penitência que João ministrava no Rio Jordão.

O Batismo de Jesus no Jordão é um dos episódios da vida de Cristo narrado por todos os quatro evangelistas. O rito de penitência que João realizava, nas margens do Jordão, era uma ajuda para criar nas pessoas que o recebiam disposições de arrependimento para esperar o Messias. Nosso Senhor, sendo Ele o Messias e a própria Santidade, sujeitou-se voluntariamente ao batismo de João. Esse ato de suprema humildade de Jesus merecerá mais uma Epifania: Deus Pai o proclamará como o seu Filho muito amado. Deus Pai, portanto, corresponde a esse ato de humildade, glorificando Jesus como Filho Unigênito. Na teofania do Jordão, de modo semelhante a como a suprema humilhação da Paixão, merecerá a plena glorificação de Cristo, que ascendeu à direita do Pai.

Os textos propostos na liturgia de hoje convidam-nos a mergulharmos mais profundamente no mistério de Cristo. É um mistério de “abaixamento” que nos toca de perto. Jesus, no seu Batismo, inicia, junto com a sua manifestação ao Mundo, a instituição do seu Reino e do sacramento cristão, que será a porta para a Ele nos incorporarmos: o batismo.

Em Cristo, a humanidade inteira desceu às águas para realizar o verdadeiro êxodo da morte para a vida; n´Ele, todos nós fomos chamados a renovar, cada dia, a opção pelo nosso batismo, que recebemos na água e no Espírito, o novo nascimento, para nos conformarmos cada vez mais com a Sua imagem. Isso comporta o constante reconhecimento do nosso pecado, a humildade de nos dispormos a pedir sinceramente perdão, para recebermos o dom do Espírito Santo que nos torna capazes de caminhar em novidade de vida, segundo o mandamento do amor. Saboreando, desse modo, a alegria que o mundo não conhece nem pode dar: a alegria de sermos também nós, em Cristo, filhos do único Pai. É essa a maior dignidade, a que nos torna para sempre preciosos aos seus olhos. A igualdade da condição batismal faz de nós todos, sacerdotes, profetas e reis:

“Os fiéis leigos são chamados a exercer a sua missão profética, que deriva diretamente do batismo, e testemunhar o Evangelho na vida diária, onde quer que se encontrem. A este respeito, os Padres sinodais exprimiram “a mais viva estima e gratidão, bem como encorajamento pelo serviço à evangelização que muitos leigos, e particularmente as mulheres, prestam com generosidade e diligência nas comunidades espalhadas pelo mundo, a exemplo de Maria de Magdala, primeira testemunha da alegria pascal”. Além disso, o Sínodo reconhece, com gratidão, que os movimentos eclesiais e as novas comunidades constituem, na Igreja, uma grande força para a evangelização neste tempo, impelindo a desenvolver novas formas de anúncio do Evangelho” (Verbum Domini 94).

Com a Iniciação Cristã ficou muito claro para a missão pastoral da Igreja a importância de redescobrir o Batismo e levar as pessoas a vivê-lo. O grande Plano de Pastoral deveria ser, após o Querigma, o aprofundamento da fé daq uele que foi batizado para ser testemunha de Cristo Ressuscitado.

Com a Festa do Batismo de Jesus continua o ciclo das manifestações do Senhor, que teve início no Natal, com o nascimento em Belém do Verbo encarnado e uma etapa importante na Epifania, quando o Messias se manifestou aos povos. No dia do Batismo Jesus se revela, às margens do Jordão, a João e ao povo de Israel. É a primeira ocasião em que Ele, como homem adulto, entra na vida pública após ter deixado Nazaré.

No Jordão, Jesus se manifesta com uma extraordinária humildade, que evoca a pobreza e a simplicidade do Menino Deus colocado na manjedoura, e antecipa os sentimentos com os quais, ao término de seus dias terrenos, chegará a lavar os pés dos discípulos e sofrerá a humilhação terrível da cruz. O Filho de Deus, Aquele que não tem pecado, coloca-se entre os pecadores, mostra a proximidade de Deus no caminho de conversão do homem. Jesus assume sobre si o peso da culpa de toda a humanidade, inicia a sua missão colocando-se no lugar dos pecadores, na perspectiva da cruz. O Evangelista Lucas narra que quando Jesus foi batizado o "céu se abriu e desceu sobre ele o Espírito Santo (3, 21-22)" e uma voz disse: "Tu és o meu filho, eu, hoje, te gerei". "Naquele momento, o Pai, o Filho e o Espírito Santo descem entre os homens e nos revelam o seu amor que salva. Se são os anjos a levar aos pastores o anúncio do nascimento do Salvador, e a estrela aos Reis Magos do Oriente, agora é a voz de Deus que indica aos homens a presença no mundo de seu Filho e convida-os a olhar para a ressurreição, para a vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte.

Que a festa do Batismo do Senhor nos ajude a reanimar o nosso próprio Batismo, como pertença à comunidade dos fiéis, não apenas uma participação numérica ou censitária, mas uma presença efetiva, de discípulos-missionários, colocando na vida diária a ação do Espírito Santo que é derramado sobre nós, e assim, nos tornamos herdeiros da vida divina, com Cristo, que nos chama a ser no mundo suas testemunhas e participantes da grande assembleia dos fieis, a Mãe Igreja.

† Orani João Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ