A tentação de fugir de Deus

Na missa de Santa Marta, o Papa Francisco convida a seguir o exemplo do Bom Samaritano do Evangelho e "deixar que Deus escreva a própria vida"

Roma, (Zenit.org) Junno Arocho | 795 visitas

Às vezes, "pode acontecer que mesmo um cristão, um católico fuja de Deus, enquanto que um pecador, considerado distante de Deus, escute a voz do Senhor”. É a reflexão que o Papa Francisco fez durante a homilia da Missa matutina na Casa Santa Marta. O Papa, que no dia 13 de Outubro consagrará o mundo ao Coração Imaculado de Maria, vestia uma casula branca em honra à Beata Virgem do Rosário que se celebra hoje.

A homilia do Pontífice foi inspirada na primeira leitura da liturgia de hoje, que recorda a história de Jonas, que "foge" depois de ter recebido o chamado de Deus para pregar contra Nínive. Jonas reza, louva e serve a Deus, faz o bem, destacou o Santo Padre, ainda quando o Senhor o chama, “pega um navio para a Espanha. Fugia do Senhor”, porque “não queria ser incomodado”.

Este ato de "fugir de Deus", é uma tentação que todos nós, cristãos ou não, enfrentamos todos os dias, disse o Papa. “É possível fugir de Deus, ainda sendo cristão, sendo católico, sendo da Ação Católica, sendo sacerdote, bispo, Papa... Todos podemos fugir de Deus! É uma tentação diária”, frisou.

Com tal de “não escutar a Deus, não escutar a sua voz, não sentir no coração a sua proposta, o seu convite” estamos dispostos a distanciar-nos Dele, e as modalidades são infinitas. “Pode-se fugir diretamente” ou encontram-se outros modos “um pouco mais educados, um pouco mais sofisticados”.

Um exemplo é o Evangelho de hoje, em que Cristo, contando a parábola do Bom Samaritano, fala de um sacerdote que vê um homem espancado e ferido na rua e passa adiante. “Foge” portanto de Deus, observou Bergoglio: “Aí está esse homem meio morto, jogado no chão da estrada, e por acaso um sacerdote descia por aquela mesma estrada – um digno sacerdote, de batina, bom, muito bom! – Viu e olhou: ‘Chego tarde à Missa’, e foi embora. Não tinha ouvido a voz de Deus, ali”.

Do mesmo modo um levita, passando - continuou o Papa – vê o homem e pensa: “Se eu o pegar ou se me aproximar, talvez amanhã estarei morto, e amanhã terei que ir ao juiz para dar testemunho...”. Portanto, segue adiante e também ele “foge desta voz de Deus”.

Finalmente – disse Francisco – passa um Samaritano, “alguém que normalmente fugia de Deus, um pecador”, e talvez por isso o único que “tem a capacidade de compreender a voz de Deus”. O samaritano, de fato, “não estava acostumado às práticas religiosas, à vida moral, até teologicamente estava errado” – explicou – porque os samaritanos “acreditavam que Deus deveria ser adorado em outro lugar e não onde queria o Senhor”. " No entanto, ele "percebeu que Deus o chamava, e não fugiu", mas "aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas colocando óleo e vinho, depois o colocou sobre a própria montaria”. Como se não fosse suficiente “levou-o a uma estalagem e tomou conta dele”. “Perdeu toda a tarde”, afirmou Bergoglio. 

Mas como explica tudo isso? "Por que Jonas fugiu de Deus? Por que o sacerdote fugiu de Deus? Por que o levita fugiu de Deus?" perguntou-se o Santo Padre. “Porque tinha o coração fechado – respondeu – e quando a pessoa tem o coração fechado, não pode escutar a voz de Deus”. Pelo contrário, o samaritano “tinha o coração aberto, era humano, e a humanidade o aproximou”.

O problema, além do mais – acrescentou o Pontífice – é que Jonas, assim como o sacerdote e o levita, “tinha um projeto para a sua vida: ele queria escrever a própria história”, tinha “um projeto de trabalho”. Pelo contrário, o samaritano pecador “deixou que Deus escrevesse a sua vida: mudou tudo, aquela tarde, porque o Senhor aproximou dele a pessoa desse pobre homem, ferido, gravemente enfermo, jogado no caminho”.

A pergunta que o Papa Francisco dirigiu a todos os presentes, incluindo ele próprio, foi: “Deixamos Deus escrever a nossa vida, ou queremos escrevê-la nós?". E ainda: "Somos dóceis à Palavra de Deus? Você tem a capacidade de escutá-la, de senti-la? Você tem a capacidade de encontrar a Palavra de Deus na história de cada dia, ou as suas ideias são as que lhe guiam, e você não deixa que a surpresa do Senhor lhe fale?” .

Concluindo a homilia, o Santo Padre disse: "Tenho certeza de que todos nós vemos que o samaritano, o pecador, não fugiu de Deus". A sua esperança é portanto que o Senhor “nos conceda sentir a Sua voz, que nos diz: Vai e também você faça a mesma coisa".

No final da celebração, o Papa cumprimentou todos os presentes na função. Entre eles, um grupo de funcionários do Vaticano e de jornalistas credenciados junto à Santa Sé, entre os quais uma representação de ZENIT.

Trad.TS