A única missão da Igreja: o encontro pessoal com Jesus

Martín Valverde em entrevista a ZENIT - Parte II

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 526 visitas

Acompanhe a seguir a segunda parte da entrevista. A primeira pode ser lida clicando aqui

ZENIT: Martín, você é um homem que já percorreu um bom pedaço desta vida humana. Quantos anos você tem? O que é que lhe permitiu manter a fé em Deus, em Cristo, em tudo o que a Igreja prega?

Martín: Acabei de cumprir (enquanto realizamos essa entrevista) 51 anos. E como dizem no México quando vão comprar um carro: "não repare no ano, mas na quilometragem”. É, graças a Deus, muito o vivido e o caminhado, como pessoa, como esposo e como músico que leva a mensagem da Evangelização. O básico de tudo isso é a consciência real de ter tido, como dizia o Papa João Paulo II, “um encontro pessoal com Jesus Cristo”. Um encontro real leva a uma vida real na Fé. O encontro com Jesus levou-me ao meu próprio encontro e vocação; a descobrir o grande corpo de Deus chamado Igreja, e a descobrir a ação do Espírito Santo em todos os lugares. Acho que tive uma muito boa preparação catequética para isso: a minha formação de criança e adolescente foi com os salesianos, não tenho nenhuma dúvida de que aí suguei o amor pelos jovens e pelas artes para pegá-los no amor. Meu reencontro na Fé, foi no meu país de origem, Costa Rica e foi em um movimento ecumênico saudável, no qual compartilhar com os irmãos de outras igrejas, estranhamente, me ajudou a definir a minha identidade como católico. O vir ao México foi o elo final para a minha projeção para o resto do mundo e para desfrutar a Universalidade da nossa Igreja, como bem descreve o documento de Aparecida, com as suas luzes e suas sombras. A minha base é um encontro pessoal com Jesus, que como bem fala o Papa Francisco na sua encíclica, se existisse uma só missão na Igreja, então seria essa.

ZENIT: Como leigo, o que você diria ao laicato católico? O Papa Francisco, na JMJ, pediu bastante que saíssemos do clericalismo. Como você entende isso?

Martín: O que é bem conhecido e pregado é que já pelo Batismo estamos não somente autorizados mas chamados a compartilhar o Evangelho. A nomenclatura mudou. Falava-se que éramos discípulos, hoje se esclarece que somos discípulos e missionários. Mas seria muito ingênuo pensar que isso acontece de forma natural, ou por decreto, porque sem evangelização não há convertidos, e como disse o Grande Paulo VI “a Igreja vive para evangelizar”. " Isso está bastante enferrujado em muitas partes da nossa Igreja , especialmente de onde se planeja a partir do ar condicionado, porque colocamos o carro na frente dos bois: fala-se de regras, de requisitos, de estatus religioso, e não se anuncia (basicamente porque não se pode dar o que não se tem) um encontro com um Cristo Vivo, Autêntico e ressuscitado. O clericalismo se anuncia por decreto, dá a lei, mas não toca o Espírito, não é por contágio de fé, o clericalismo exige uma definição de biblioteca da Evangelização para autorizá-la ou não. Enfim, se tudo no clericalismo é Evangelização, então nada o é ao final, e não teriam necessidade de conversão ou de um encontro com Jesus os “ordenados. Nisso fica bloqueado todo esse processo, a letra mata o Espírito, mas o Espírito dá vida superando e enriquecendo a letra. Durante anos, ao falar de Vocação, esse assunto ficava estritamente para os sacerdotes, religiosos ou religiosas. A principal Vocação à qual estamos todos chamados é ser felizes, y daí decidimos qual traje nos fica melhor, no meu caso foi o matrimônio e a música, porque Deus não brinca de gato e rato para que você descubra o seu chamado. Se retomamos a missão de evangelizar (que não é proselitismo ou propaganda eclesial) voltaremos a ver frutos na família e portanto em todas as vocações que hoje estão em crise.

ZENIT: Você vai voltar para o Brasil? Aqui, muitos lhe conhecem pela sua música "Ninguém te ama como eu". Qual tem sido a sua mais recente produção musical?

Martín: O Brasil é um país que eu mimo muito, é dos poucos países que sabe que vou pelo menos uma vez por ano. No ano passado com a JMJ fui quatro vezes em menos de dois meses, foi intenso. Fui um privilegiado ao acompanhar os começos da música católica moderna nesse país há 25 anos. Hoje é todo um projeto que, muito à brasileira, não é comparável com os outros países, a prova maior foi justamente a JMJ. Graças a Deus, tenho o privilégio de que os grandes expoentes da música católica cantem as minhas músicas por lá. A produção mais recente chama-se 30 º aniversário, e é a que continuamos a promover por enquanto.

ZENIT: Uma última pergunta, Martin, como um leigo, que vive no tumulto deste mundo, pode viver uma vida de oração? É realmente possível orar hoje?

Martín: A tentação está aí... entendi que não se espera o tempo para a oração, se toma, se tira. Mais do que propósitos, trata-se de decisões e compromissos. Deus é relação, e qualquer um de nós está na possibilidade de perder a Deus pelas coisas de Deus. Dizia um homem de fé que quanto mais coisas ele tinha pra fazer, mais tempo tirava pra rezar... Vai por aí. Também se trata de sacramentalizar ou melhor de ver a Deus em todas as coisas, se limitamos Deus a puras coisas de Igreja criamos uma dualidade impossível de penetrar. Mas Deus está nas ruas, no trânsito, no trabalho, nas salas de espera dos aeroportos, no supermercado entre as verduras... etc. Deus está em mim e aonde vou, Ele, que prometeu estar comigo sempre, também vai. Mas, assim como acontece em um encontro de amor de um casal, escolhe-se um momento e um lugar íntimo onde os dois podemos ser e estar, muito além de lugares e circunstâncias. O vejo no olhar da minha esposa, e no sorriso dos meus filhos, e ao vê-lo agradeço-lhe e louvo. Não somente é possível orar hoje, é vital, mas sem casar-nos com um só método de oração, porque tudo é oração se você se propõe, e essa riqueza na variedade, que temos na Igreja, embeleza a nossa relação com Deus.

(Entrevista e tradução ao português por Thácio Siqueira)