"A verdadeira onipotência se expressa no amor

Durante a Audiência Geral, Bento XVI refletiu na paternidade de Deus

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio | 1327 visitas

"Ele é o Pai" esta verdade fundamental da fé cristã foi considerada pelo Papa Bento XVI durante a Audiência Geral desta manhã. Continuando a série de catequeses dedicadas ao Ano da Fé, o Papa retomou o tema da audiência da última quarta-feira, dedicada ao Credo.

Hoje em dia, disse o Papa, é difícil até mesmo falar da paternidade humana, especialmente no Ocidente, onde "famílias desestruturadas, compromissos de trabalho mais absorventes, preocupações e muitas vezes o esforço para equilibrar o orçamento familiar, distraindo a invasão dos meios de comunicação na vida diária são alguns dos muitos fatores que podem impedir uma relação pacífica e construtiva entre pais e filhos".

Com mais razão torna-se “problemático” imaginar Deus como um pai, especialmente para quem não tem “modelos adequados de referência". Quem, por exemplo, tem experimentado um pai "muito autoritário e inflexível, ou indiferente e carente de afeto, ou mesmo ausente," encontrará dificuldade ao “pensar com serenidade em Deus como Pai e abandonar-se à Ele com confiança”.

Contudo, a Bíblia, especialmente o Novo Testamento, nos fala de um Deus que é verdadeiramente Pai, em quanto que “ama até o dono do próprio Filho para a salvação da humanidade”. A paternidade de Deus, portanto, ajuda a compreender a natureza do seu amor que “permanece infinitamente maior, mais fiel, mais total do que o de qualquer homem".

Então, Deus como Pai, “acompanha com amor a nossa existência, dando-nos a sua Palavra, o seu ensinamento, a sua graça, o seu Espírito”, afirmou o Papa.

É aquele Pai que "alimenta as aves do céu sem que elas tenham que plantar e colher, e veste de cores maravilhosas as flores dos campos, com roupas mais bonitas do que as do rei Salomão (cf. Mt 6,26-32, Lc 12, 24 -28); e nós - acrescenta Jesus – valemos muito mais do que as flores e os pássaros do céu!". É aquele Pai bom que “ acolhe e abraça o filho perdido e arrependido (cf. Lc 15,11 ss), dá gratuitamente aos que o pedem (cf. Mt 18,19, Mc 11,24, Jo 16, 23) e oferece o pão do céu e a água viva que dá a vida para sempre (cf. Jo 6,32.51.58)".

Deus Pai nunca abandona os seus filhos, e nunca se cansa deles. A sua fidelidade “supera imensamente aquela dos homens, para abrir-se a dimensões de eternidade”. Por sua vez, em Jesus Cristo é revelado em toda a sua plenitude "o rosto benevolente do Pai que está nos céus": somente conhecendo a Ele - "imagem do Deus invisível" (Col 1, 15) - que podemos conhecer o Pai.

"A fé em Deus Pai pede para crer no Filho, sob a ação do Espírito, reconhecendo na Cruz que salva a revelação final do amor divino", continuou o Papa. Além do mais, Deus é Pai, “dando-nos o seu Filho", enquanto que "é dando-nos o Espírito que nos faz filhos".

Nós somos seus filhos porque "fracos" e "necessitados de tudo”. É "a nossa pequenez, a nossa natureza humana fraca, a nossa fragilidade que se torna atraente para a misericórdia do Senhor para que manifeste a sua grandeza e a ternura de um Pai, ajudando-nos, perdoando-nos e salvando-nos."

No entanto, existe um aparente paradoxo: “como é possível pensar num Deus onipotente olhando para a Cruz de Cristo?". De acordo com alguns teólogos Deus "não pode ser onipotente senão não poderia existir tanto sofrimento, tanta maldade no mundo."

A onipotência de Deus, no entanto, assim como o seu pensamento, percorre caminhos “diferentes dos nossos”: ela “não se expressa como força automática ou arbitrária, mas é marcada por uma liberdade amorosa e paterna". Em outras palavras, Deus, ao criar os homens livres, “renunciou a uma parte do seu poder, deixando o poder da nossa liberdade”, explicou Bento XVI.

A sua onipotência, portanto, "não se expressa na violência, não se expressa na destruição de todo o poder contrário como nós desejamos, mas se expressa no amor, na misericórdia, no perdão, no aceitar a nossa liberdade e no incansável apelo à conversão do coração”.

"Só quem é realmente poderoso pode suportar o mal e mostrar-se compassivo – acrescentou o Papa – . Só quem é realmente poderoso pode exercitar plenamente a força do amor”.

A onipotência de Deus é aquela do amor, não aquela do “poder do mundo”, mas do “dom total” do Filho, sacrificado para dar a vida a “nós pecadores”.

A “verdadeira, autêntica e perfeita potência divina” significa portanto “responder ao mal não com o mal, mas com o bem, aos insultos com o perdão, ao ódio homicida com o amor que faz viver”. Só assim “o mal é realmente vencido, porque lavado pelo amor de Deus; então a morte é definitivamente derrotada, porque transformada em dom da vida”.

A expressão "Eu creio em Deus Pai Todo-Poderoso", que introduz o nosso Credo, é portanto um confiar-se ao “poder do amor de Deus, que no seu Filho morto e ressuscitado derrota o ódio, o mal, o pecado e nos abre para a vida eterna”, bem como “um ato de fé, de conversão, de transformação do nosso pensamento, de todo o nosso afeto, de todo o nosso modo de viver".