A vida imita a arte

| 1292 visitas

Por Edson Sampel

SÃO PAULO, quinta-feira, 11 de outubro de 2012 (ZENIT.org) - A mídia divulgou a notícia de que no mês de agosto de 2012 foi lavrada em Tupã, no interior de São Paulo, uma escritura pública que atesta a união civil de um homem com duas mulheres. Parece ser o primeiro caso desse tipo oficializado em cartório. É lógico que não se pode falar em “casamento”, pois, à luz do direito natural e do direito civil ainda em vigor neste país, “casamento” ou “matrimônio” é o enlace  entre um homem e uma mulher, que formam um casal. Para o direito canônico, o casamento é o pacto pelo qual um homem e uma mulher constituem entre si o consórcio de toda a vida, ordenado para o bem dos cônjuges e para a geração e a educação dos filhos (cânon 1055).

Em certa novela televisiva, há uma personagem, um homem, “casado” com três mulheres. Não resta a menor dúvida de que os meios de comunicação de um modo geral, sobretudo a televisão, querem mesmo derribar os valores cristãos da família. Pergunto: quantas famílias “normais” (pais casados, filhos etc.) existem na supramencionada novela? Não me lembro de nenhuma! De fato, os algozes da família tradicional laboram subliminarmente. Devagar vão inculcando as ideologias chamadas “homo-afetividade” e, agora também, a “poliafetividade”, a qual perfila a união de um varão com várias mulheres, de uma mulher com vários varões ou de diversos varões com diversas mulheres. Diante deste quadro, Cícero decerto voltaria a exclamar: “O tempora, o mores”! Que tempos, que costumes!  

A pseudo-arte da “dramaturgia televisiva”, ao que tudo indica, não imita a vida, porquanto, graças a Deus, inda subsistem na sociedade bastantes casamentos bem constituídos, à moda católica, ou seja, um homem e uma mulher com os filhos. Por outro lado, desafortunadamente, alguns incautos se deixam levar pela “arte” exibida na telinha e tocam a vida com base em paradigmas falsos e frágeis, uma vez que a vocação do ser humano está votada à monogamia, conforme observamos nos próprios países islâmicos, onde a poligamia é legalizada, porém raramente posta em prática.

Se procurarmos as razões recônditas desse panorama hostil ao cristianismo, deparar-se-nos-ão, entre outros fatores, os interesses dos grandes conglomerados capitalistas, que lucram muito mais à medida que as pessoas se divorciam, constituem novas famílias e, então, compram outros móveis, automóveis e imóveis. No entanto, para saciar a sanha desses grupos mercantis, não é suficiente a instituição jurídica do divórcio. É mister estimular ao máximo a fantasia dos indivíduos e instigar outras sortes de relacionamento afetivo entre os seres humanos.

Costumo dizer aos meus alunos quartanistas de teologia, quase todos diáconos transitórios: “vocês vão ser ordenados padres dentro em breve. Num futuro bem próximo, caríssimos jovens, ser padre não implicará apenas uma missão religiosa, mas traduzirá um divisor de águas, pois as pessoas estão perdendo os referenciais.” Com efeito, a Igreja católica jamais abrirá mão de anunciar que a heterossexualidade vivenciada no matrimônio é a única forma sadia e moral de viver a sexualidade genital.  Diante das alegadas “opções sexuais”, a hierarquia eclesiástica, máxime o papa, sucessor de são Pedro, vociferará um retumbante “non possumus!”. Vale dizer, a Igreja não pode compactuar com o erro e com o pecado, todavia, através de seus membros, clérigos e leigos, ela constantemente acolhe os pecadores e os ama em profundidade, convidando-os à conversão sacramental.  

Edson Luiz Sampel é Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, do Vaticano. Professor do Instituto Teológico Pio XI (Unisal) e da Escola Dominicana de Teologia (EDT). Autor do livro “Introdução ao Direito Canônico” (LTR, 2001).  Blog do articulista: http://www.canonistica.blogspot.com.br/