A violência na Bíblia volta à moda entre os ateus

Deus como monstro e o Antigo Testamento como obscurantismo

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Por padre John Flynn, L.C. 

ROMA, domingo, 6 de março de 2011 (ZENIT.org) - Voltam à cena as manifestações de ateus que afirmam que a religião promove a violência e a injustiça, baseando-se em passagens do Antigo Testamento que contrastam bastante com os valores contemporâneos.

Paul Copan responde a estas acusações num livro de recente publicação, Is God a Moral Monster? Making Sense of the Old Testament God (Deus é um monstro moral? O sentido do Deus do Antigo Testamento), da Baker Books.

O título do livro vem de um ataque do ateu militante Richard Dawkins, que chama Deus de "monstro moral". Dawkins acusa Deus de ser ciumento, mesquinho, injusto e vingativo, observa Copan.

O também ateu Christopher Hitchens afirma que o Antigo Testamento fornece justificativas para o tráfico de seres humanos, para a escravidão e para os massacres. Daniel Dennet, por sua vez, apresenta Deus como insaciável de louvores, por dizer que criou os seres humanos à sua imagem e com isto revelar a sua vaidade.

Copan responde que, ao criar os seres humanos, Deus exprime a sua amabilidade e os deixa livres para se relacionarem com Ele, além de dotá-los de pensamento racional e de criatividade. "Isto é um privilegio, não escravidão", exclama.

Longe de manifestar egoísmo, o desejo divino da nossa adoração reflete que Deus gostaria que o homem não se afastasse da realidade suprema, explica Copan. Adorando a Deus, mostramos que sabemos qual é o nosso verdadeiro lugar.

A nossa adoração flui naturalmente quando desfrutamos de Deus. Adorar a Deus provém da nossa alegria pela sua presença e da consciência do que é mais valioso na nossa vida.

Copan observa também que podemos ver a humildade de Deus na encarnação de Cristo, que assumiu a nossa natureza humana e morreu na cruz por nós.

Passagens "estranhas"

Vários capítulos do livro de Copan examinam o que os ateus chamam de “caráter estranho" da Bíblia: passagens que tratam de leis sobre a alimentação, a escravidão, o tratamento às mulheres e outros temas polêmicos.

Copan cita Mateus 19, 8, onde Jesus explica que Moisés permitiu o divórcio por causa da dureza do coração das pessoas. Uma sociedade patriarcal, a escravidão, a primogenitura e outros costumes eram a norma da época.

A lei mosaica foi pensada para ser temporal. Se ela é estranha ou cruel aos nossos olhos, ainda assim significou uma melhora nos costumes e nas estruturas sociais do Oriente Médio da época.

O Antigo Testamento, para dar um exemplo, limitava os castigos infligidos aos escravos, ao contrário do que ocorria nos países circundantes, onde os escravos estavam totalmente à mercê dos seus amos. Em Israel, também, os escravos estrangeiros fugitivos deviam ser acolhidos.

Outros códigos, como o de Hamurábi, tinham muito menos respeito pela vida humana do que o código mosaico. Muitas das leis, além disso, sofriam restrições de outras leis. O Antigo Testamento prescrevia a pena de morte para dezesseis crimes, mas em quinze deles o juiz podia sentenciar uma pena menor. A lei mosaica, portanto, é menos estrita do que os códigos orientais próximos, afirma Copan.

Outra diferença entre os códigos, identificada por Copan, era a do valor da vida não nascida. Algumas passagens do Antigo Testamento afirmam o valor intrínseco da criança ainda no ventre materno.

Violência

Copan observa que alguns ateus afirmam que a religião é violenta por natureza; com isto, eles pregam a necessidade de mais valores do Iluminismo e menos valores da religião. Copan retruca que precisamos de mais religião, e não menos.

A nossa fé bíblica apoia a tolerância e, apesar dos nossos desacordos, afirmamos que todos os seres humanos são feitos à imagem de Deus. São Paulo, por isso, proclama que Cristo eliminou as divisões de raças, classes e gêneros (Gálatas 3, 28; Efésios 2, 11-22) e que somos chamados a vencer o mal com o bem (Romanos 12, 21).

Devemos levar em consideração, porém, que nem todas as religiões são iguais, acrescenta Copan. Os politeístas, que adoravam os imperadores romanos, perseguiam os cristãos porque eles se recusavam a adorar outros deuses.

Ao tratar da violência cometida por nações cristãs, Copan afirma que é simplista reduzir a sua causa a um fator puramente religioso. É preciso considerar as influências políticas e sociais junto com os abusos políticos da religião. Embora a guerra possa ser empreendida em nome da religião, ela também pode ser uma forma de justificar conflitos cujas causas são outras.

É verdade que no Antigo Testamento encontramos práticas que não se aproximam do ideal apresentado nos dois primeiros capítulos do Gênesis, que afirma o princípio da igualdade e da dignidade humana, admite Copan. Não podemos defender essas práticas; antes, devemos apresentar o Novo Testamento, onde encontramos testemunhos contrários a elas.

Deus não impôs leis a Israel para as quais o povo não estava preparado. Em vez disso, fez o povo de Israel avançar gradualmente ao longo do caminho do progresso moral, continua Copan. Quando lemos sobre os massacres dos inimigos de Israel, por exemplo, não devemos justificar aquelas ações. Elas aconteceram em circunstâncias culturais de menor “refinamento moral”. E mostram, ainda, que Deus pode guiar o homem para a sua meta redentora apesar dessas limitações.

Antigo e Novo Testamento

A Igreja Católica encarou as assim chamadas “passagens obscuras” da bíblia na "Verbum Domini", a exortação apostólica pós-sinodal sobre a "Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja", de 30 de setembro do ano passado (números 41-42).

O Novo Testamento reconhece o Antigo como palavra de Deus, explica Bento XVI; por isso é que o cita com frequência e o emprega como prova das suas afirmações.

As raízes do cristianismo estão no Antigo Testamento e devemos nutrir-nos delas, afirma a exortação. A doutrina cristã sempre resistiu às tentativas de contrapor o Antigo Testamento ao Novo, continua o Papa.

Por outro lado, é na vida e nos ensinamentos de Cristo que as escrituras do povo judeu acharam a plenitude. A exortação observa que este conceito de plenitude se compõe de três dimensões: a continuidade, a descontinuidade e a transcendência.

"O mistério pascal de Cristo é plenamente conforme com as profecias e com o caráter prefigurativo das Escrituras, de um modo que não era previsível; apesar disso, ele apresenta evidentes aspectos de descontinuidade em relação às instituições do Antigo Testamento", observa o Papa.

"O Novo Testamento está escondido no Antigo e o Antigo se manifesta no Novo", afirma ainda o pontífice, citando Santo Agostinho.

Revelação de Deus e cultura

Ao chegar às passagens do Antigo Testamento que mostram sua dificuldade devido ao fato de apresentarem violência ou imoralidade, a exortação explica que é necessário recordar que a revelação tem suas raízes na história.

“O plano de Deus manifesta-se progressivamente nela e se realiza lentamente por etapas sucessivas, não obstante a resistência dos homens”, observa a exortação.

Deus se revela assim dentro de um particular nível cultural e moral e há uma descrição de fatos e costumes daquela época. Esta é a razão pela qual ao mundo de hoje podem causar rechaço os atos “obscuros” descritos.

Ainda assim, a exortação assinala que os profetas do Antigo Testamento enfrentavam constantemente todo tipo de injustiça e esta era a forma em que Deus preparava seu povo para receber o Evangelho.

“Por isso, exorto os estudiosos e os pastores a que ajudem todos os fiéis a se aproximar também destas páginas mediante uma leitura que os faça descobrir seu significado à luz do mistério de Cristo”, conclui o Papa. Algo a se levar em conta quando houver um ataque superficial de um ateu.