A visita do papa ao Líbano vista pelos libaneses em diáspora

Entrevista com mons. Antoine Gebran, capelão dos maronitas em Roma

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Por Robert Cheaib

ROMA, sexta-feira, 14 de setembro de 2012 (ZENIT.org) – A população libanesa em diáspora pelo mundo é muito maior do que a população do próprio Líbano. A maioria dos emigrantes são católicos maronitas, que procuram manter, com muitas dificuldades, o vínculo com as suas raízes na terra dos cedros.

A diocese de Roma abriga uma igreja maronita dedicada ao santo padroeiro da única igreja oriental que não tem cismas, que é católica e orgulhosa da sua fidelidade ao Sucessor de Pedro.

Nesta entrevista, ZENIT conversa com mons. Antoine Gebran, capelão desta igreja que se tornou uma "missão pastoral de cuidado das almas" e que em breve completará dois anos.

Mons. Antoine Gebran Hasroun nasceu no Líbano em 1970. Estudou Teologia em Roma, na Pontifícia Universidade Lateranense. Fez doutorado em Ciências Eclesiásticas Orientais no Pontifício Instituto Oriental de Roma. Em 2006, tornou-se promotor da reunião de católicos libaneses maronitas no território italiano, na igreja de São Maron, em Roma. Em 2010, foi nomeado procurador-geral do Patriarcado Maronita junto à Santa Sé e reitor do Pontifício Colégio Maronita de Roma. Em 1º de novembro de 2010, o cardeal Agostino Vallini nomeou-o capelão dos migrantes maronitas residentes na diocese de Roma.

Esta é a segunda vez na história do Líbano que um papa visita especificamente o país dos Cedros. As lembranças da visita de João Paulo II ainda estão vivas na mente dos libaneses. Qual é a importância da atual visita de Bento XVI para a presença cristã no Líbano, sabendo que nas últimas décadas os cristãos perderam muito poder político e moral no país?

Mons. Antoine Gebran: Esta é a segunda visita apostólica especificamente ao Líbano, mas é a terceira vez que um papa chega ao país. Paulo VI quis fazer uma escala em Beirute, no dia 2 de dezembro de 1964, quando estava a caminho de Bombaim. E o papa Montini, nessa curta passagem, disse o seguinte: "Não poderíamos nos esquecer, em particular, de tudo o que representa para a Igreja a fé das populações cristãs do Líbano, manifestada na diversidade harmoniosa de ritos, na abundância e na variedade das comunidades religiosas e monásticas, nas muitas atividades de ordem apostólica, educacional, cultural e de caridade". A harmonia entre as diferenças, citada pelo papa, é fundamental, é o eixo de toda a sociedade libanesa. Essa harmonia é a esperança que o Santo Padre Bento XVI traz nesta visita apostólica. Esta harmonia deve permanecer, mesmo que os níveis proporcionais entre as diferenças já não sejam os mesmos de antes. O Líbano tem que ser um exemplo para todo o mundo médio-oriental, e até para o mundo inteiro, onde cada vez mais, especialmente nos países do Ocidente, está surgindo uma grande mistura de culturas e de religiões. Um equilíbrio de coexistência que garanta a paz e a estabilidade de um país.

A "primavera árabe" está mostrando sinais de desaceleração, virando quase um "inverno". Que sinais concretos de recuperação podem nascer desta visita de Bento XVI? O senhor compartilha a esperança dos bispos maronitas que afirmam que a visita é "uma verdadeira primavera para os cristãos e para a religião"?

Mons. Antoine Gebran: A primavera, como estação intermediária, tem períodos de frio e de calor. Não tem um clima estável e firme. O Santo Padre, como tradicionalmente acontece em todas as viagens apostólicas, nunca provoca gestos concretos de renascimento tangível. O Sucessor de Pedro fala, encontra, transmite o seu pensamento num código simbólico. Certamente, o Santo Padre deseja não apenas uma primavera, mas uma reforma completa para a sociedade do Oriente Médio, que terá que seguir o caminho do diálogo e do respeito mútuo.

O senhor visitou o Líbano e o patriarca maronita em Bkerké e viu pessoalmente os preparativos para a visita do papa. Quais são as atividades preliminares que a Igreja em geral, e a maronita em particular, está realizando em preparação para a visita de Bento XVI?

Mons. Antoine Gebran: O Líbano inteiro se preparou para receber o Santo Padre. Em particular, a Igreja maronita começou há meses uma campanha forte de mídia para sensibilizar o público. O ​​Líbano tem que ser informado e estar ciente de quem é que está chegando e do porquê de ele vir precisamente ao Líbano. Pavimentando o caminho para o Santo Padre, a Igreja maronita não dá só o apoio logístico, mas principalmente a preparação espiritual dos fiéis. A visita do Santo Padre é realmente uma alegria, mas deve ser vista principalmente numa perspectiva espiritual: os fiéis se preparando com uma novena de oração, para entender que o papa vem até eles como pastor, para estar com eles, para ouvi-los, conversar, defendê-los e protegê-los, seguindo o exemplo de Cristo, o Bom Pastor.

Como maronita que vive no exterior e como paróquia maronita em Roma, como você se vê envolvido na visita? E o que espera a respeito da diáspora dos cristãos libaneses? Eles não se sentem de certa forma excluídos desta visita?

Mons. Antoine Gebran: Não vamos esquecer que os maronitas na diáspora são principalmente libaneses e, apesar de distantes, eles sentem um apego visceral pela terra natal. De um certo ponto de vista, essa visita é vista, sim, com melancolia: o papa vai para a casa deles e eles não estão lá para recebê-lo. Por outro lado, eles se sentem muito orgulhosos porque o papa vai ao Líbano especificamente, e porque o papa ama esse país com um amor altruísta e sincero. Em particular, esta nossa comunidade maronita de Roma, que está estabelecida na diocese do papa, se sente como uma ponte, como uma passagem entre o Líbano e o papa. Eu acho que nenhum imigrante nunca vai se sentir “excluído” do Líbano, porque eles sempre têm no coração o amor pelo seu país. Eles ainda sentem o perfume dos cedros e pensam no horizonte do mar libanês com muita emoção. Ninguém vai se sentir excluído, porque, na alma, eles se sentem em terra estrangeira, mas libaneses em terra estrangeira.