A visita do Papa Francisco ao Santuário de Nossa Senhora de Bonária em Cagliari na Sardenha

O Pontifice encontrou-se com os trabalhadores, com os pobres, com o mundo da cultura e com os jovens. Celebrou a Santa Missa e rezou o Angelus

Roma, (Zenit.org) | 667 visitas

Neste domingo, 22 de setembro, o Papa Francisco visitou a Diocese de Cagliari na ilha italiana da Sardenha, uma região eclesiástica com 622 paróquias e 1048 sacerdotes ao seu serviço entre clero secular e regular. Ainda prestam aí serviço 93 diáconos permanentes. Cagliari é uma diocese que remonta aos inícios do cristianismo tendo começado a receber a mensagem evangélica nos inícios do século III quando, durante as perseguições aos cristãos, estes eram enviados para o exilio naquela ilha.

O Santo Padre comunicou sua intenção de ir a Cagliari na Audiência Geral do dia 15 de Maio em que explicou a relação de fraternidade entre aquele Santuário de Bonária e a sua cidade de Buenos Aires que deste tomou o nome ao momento da fundação da cidade. Antes do Papa Francisco outros três Pontífices visitaram a Sardenha e o Santuário de Bonária: Paulo VI em 1970, João Paulo II em 1985 e Bento XVI em 2008.

Na manhã do dia 22 de setembro o Papa Francisco chegou ao aeroporto “Mario Mameli” por volta das 8.15h e encontrou-se primeiramente com os trabalhadores que o aguardavam no Largo Carlo Felice de Cagliari.

Encontro com os trabalhadores

Aos desempregados, precários, trabalhadores que vivem com o seguro-desemprego, uma das categorias que mais sofre com a crise europeia, o Papa encorajou: “não deixem roubar a esperança!”

“É uma realidade que conheço bem pela experiência que tive na Argentina”, disse o Papa, que narrou a migração de seu pai, que foi para a Argentina com a ilusão de “fazer a América” e sofreu a terrível crise dos anos 30. Conheço isso muito bem! Ma devo dizer-lhes: “Coragem!”. Para que não seja uma palavra de circunstância, Francisco pediu solidariedade e inteligência para enfrentar este “desafio histórico”.

“A falta de emprego é um sofrimento que leva – desculpem-se se sou um pouco forte, mas é a verdade – a sentir-se sem dignidade! Onde não há trabalho, não há dignidade! E este não é um problema só da Sardenha, só da Itália ou de alguns países da Europa, é a consequência de uma escolha mundial, de um sistema econômico que leva a esta tragédia; um sistema econômico que tem no centro um ídolo, que se chama dinheiro.”

Deus, explicou o Pontífice, quis que no centro no mundo não estivesse um ídolo, mas o homem e a mulher, que levam avante, com o próprio trabalho, o mundo. “Trabalho significa dignidade, trabalho significa levar o pão para casa, trabalho significa amar!”

Homilia

Após seu encontro com os trabalhadores, o Papa Francisco celebrou a Santa Missa na praça diante do Santuário de Nossa Senhora de Bonária.

Em sua homilia o Papa repetiu varias vezes: “Maria, doe-nos o seu olhar”. Diante de milhares de fiéis, o Pontífice notou que em Cagliari, como em toda a Sardenha, não faltam dificuldades, problemas e preocupações: de modo especial, o Papa citou o desemprego e a situação de precariedade de muitos trabalhadores e, portanto, a incerteza do futuro.

Diante dessas situações de pobreza que a ilha enfrenta, o Pontífice garantiu sua solidariedade e sua oração, ao mesmo tempo em que pediu o empenho das instituições – inclusive da Igreja – para garantir às pessoas e às famílias os direitos fundamentais.

“Vim em meio a vocês para colocar-me aos pés de Nossa Senhora que nos doa o seu Filho”, assim como fizeram e fazem gerações de sardos, muitos dos quais foram obrigados a emigrar em busca de um trabalho e de um futuro para si e para sua família.

“Vim em meio a vocês, ou melhor, viemos todos juntos para encontrar o olhar de Maria, porque nele está refletido o olhar do Pai, que a fez Mãe de Deus, e o olhar do Filho da cruz, que a fez nossa Mãe. E com aquele olhar hoje Maria nos olha. Precisamos do seu olhar de ternura, do seu olhar materno que nos conhece melhor do que ninguém, do seu olhar repleto de compaixão e cuidado. Maria, doe-nos o seu olhar”, repetiu várias vezes o Santo Padre, porque este olhar nos leva a Deus, que jamais nos abandona.

No final da comunhão, Francisco pronunciou o ato de consagração diante da imagem de Nossa Senhora, depositando uma coroa de flores.

E antes da oração do Angelus, agradeceu a todos os que colaboraram para organizar esta visita, confiando-os à proteção de Nossa Senhora de Bonária.

Angelus

No final da Eucaristia o Papa Francisco recitou a tradicional oração do Angelus aproveitando a ocasião para agradecer o acolhimento de todos, nomeadamente dos bispos, sacerdotes e religiosos. Na sua mensagem, para este momento mariano, o Santo Padre confiou todos a Nossa Senhora de Bonária e teve presente todos os outros santuários marianos da Sardenha:

“Sobretudo quero confiar-vos a Maria, Nossa Senhora de Bonária. Mas, neste momento penso em todos os numerosos santuários marianos da Sardenha: a vossa terra tem uma ligação forte com Maria, uma ligação que exprimis na vossa devoção e na vossa cultura. Sede sempre verdadeiros filhos de Maria e da Igreja e demonstrai-o com a vossa vida seguindo o exemplo dos santos!”

O Papa Francisco terminou a sua mensagem no Angelus deste domingo recordando Tomé Acerbis de Olera, frade capuchino proclamado ontem Beato em Bergamo na Itália e que viveu entre os séculos XVI e XVII e que deu testemunho da humildade e da caridade de Jesus Cristo.

Após a celebração eucarística o Santo Padre almoçou com os bispos da Sardenha no Seminário Pontifício Regional de Cagliari.

Encontro com os pobres e com os presidiários

Após o almoço o Papa Francisco esteve com cerca de 120 pobres e 37 presidiários na Catedral de Cagliari. O Santo Padre notou a fadiga e a esperança nos seus rostos. “Todos nós temos misérias e fragilidades. Ninguém é melhor do que outro. Todos somos iguais diante de Deus. E olhando Jesus, vemos que ele escolheu o caminho da humildade e do serviço” – considerou o Papa.

O Santo Padre advertiu ainda para o facto da palavra solidariedade correr o risco de desaparecer dos dicionários. Mas este é o único caminho:

“A caridade não é assistencialismo, nem sequer um assistencialismo para tranquilizar as consciências. Não, aquilo não é amor: aquilo é negócio, eh? O amor é gratuito. A caridade, o amor é uma escolha de vida, é um modo de ser, de viver; é o caminho da humildade e da solidariedade. Não há outro caminho para este amor.”

Encontro com o mundo da cultura

Na Aula Magna da Faculdade de Teologia da Sardenha o Papa destacou que “toda crise, mesmo a atual, é uma passagem, um trabalho de parto que traz cansaço, dificuldades, sofrimento mas que traz em si o horizonte da vida e da renovação, que traz a força da esperança”.

O Santo Padre fez uma releitura daexperiência dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35), que, após a morte de Jesus, caminham tristes afastando-se de Jerusalém e destacou três palavras-chave: desilusão, resignação e esperança.

Ele explicou ainda que “acrise pode tornar-se momento de purificação e revisão dos nossos modelos económico-sociais e de uma certa concepção do progresso que tem alimentado ilusões, para recuperar o humano em todas as suas dimensões” .

“Omomento histórico que vivemos nos impele a buscar e encontrar maneiras de esperança, que irá abrir novos horizontes para a nossa sociedade”- afirmou.

Francisco falou ainda que a Universidade deve ser “o local do discernimento, em que se elabore a cultura da proximidade e de formação à solidariedade”.

Encontro com os jovens

Na Praça Carlo Felici de Cagliari o Santo Padre recordou a Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro dizendo: “Talvez alguns de vós estavam lá, mas muitos certamente acompanharam na televisão e na internet. Foi uma experiência muito bela, uma festa da fé e da fraternidade que nos encheu de alegria. A mesma alegria que hoje sentimos”.

Num clima de festa e sempre bem humorado, o Papa Francisco convocou os jovens para a missão dizendo-lhes que abrirmo-nos a Deus, abre-nos aos outros. "Também os jovens são chamados a se tornarem ‘pescador de homens’. “Tenham a coragem de ir contra a corrente, sem se deixarem levar pelas correntes. Encontrar Jesus Cristo, experimentar o seu amor e a sua misericórdia é a maior aventura e a mais bela, que pode acontecer a uma pessoa!” – concluiu o Papa Francisco.

O Papa Francisco regressou a Roma pelas 19.30h.

(Rádio Vaticano/ZENIT)