Abordar o sofrimento de maneira humana, não acadêmica

Pedido do papa Francisco na missa desta quarta-feira

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Redacao | 580 visitas

Lamentar-se dos próprios sofrimentos diante de Deus não é pecado, mas sim uma oração do coração que chega até o Senhor: esta foi a ideia principal do papa na missa matutina desta quarta-feira, na Casa Santa Marta.

Estavam presentes alguns membros da Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, bem como funcionários da Biblioteca Apostólica Vaticana. Concelebraram, entre outros, o cardeal Antonio Cañizares Llovera, presidente do dicastério da liturgia.

A oração de quem sofre

A história de Tobias e Sara, narrada na primeira leitura do dia, foi o tema central da homilia do papa: duas pessoas justas que vivem situações dramáticas. O primeiro é cego, mas realiza boas obras mesmo correndo riscos para a própria vida; a segunda se casa com sete homens que morrem antes da sua noite de núpcias. Ambos, em sua dor profunda, oram a Deus para que Ele os deixe morrer. “Trata-se de pessoas em situações extremas”, observa o papa, “situações que são próprias do mais baixo da existência, e que procuram uma saída”. Eles se queixam, mas “não blasfemam”.

"E queixar-se diante de Deus não é pecado. Um presbítero que eu conheço disse uma vez a uma mulher que se queixava perante Deus: 'Mas, senhora, essa é uma forma de oração. Continue!'. Nosso Senhor ouve, escuta os nossos lamentos. Pensemos nos grandes, em Jó, quando, no capítulo III, ele afirma: 'Maldito seja o dia em que vim ao mundo'. E Jeremias, no capítulo XX: 'Maldito o dia ...'. Eles se queixam e até pronunciam uma maldição, não contra o Senhor, mas contra essa situação, não é? Isto é humano".

Casos humanos, não acadêmicos

Há muitas pessoas que vivem casos limites, destacou o papa: crianças desnutridas, refugiados, doentes terminais. No evangelho do dia, aparecem os saduceus que apresentam a Jesus o caso limite de uma mulher, viúva de sete homens. Eles não tratavam do assunto com o coração: "Os saduceus estavam falando daquela mulher como se ela fosse um laboratório... Era um caso de estudo de moral. Nós, quando pensamos nas pessoas que sofrem muito, pensamos como se elas fossem um caso de moral a ser discutido, puras ideias: 'mas nesse caso... ou naquele caso'...". Ou será que pensamos com o coração, com a nossa carne também? Eu não gosto quando essas situações são tratadas só de maneira acadêmica e não humana, às vezes como estatísticas... E só. Na Igreja há muitas pessoas nesta situação".

Nestes casos, insistiu o papa, temos que fazer o que Jesus nos manda: orar. "Oremos por eles. Eles têm que entrar no meu coração, têm que se tornar um vivo interesse para mim: o meu irmão está sofrendo, a minha irmã está sofrendo. Eis aqui o mistério da comunhão dos santos: orar ao Senhor: 'Mas, Senhor, olha para aquele ali: ele está chorando, está sofrendo'. Orar, permitam-me dizer, “com a carne”: que a nossa carne ore. Não com meras ideias, mas orar com o coração".

E as orações de Tobias e Sara, que, apesar de terem pedido para morrer, se dirigiram ao Senhor, nos dão esperança, já que eles são acolhidos por Deus à sua maneira. Deus não os faz morrer, mas cura Tobias e dá finalmente um marido a Sara: "A oração sempre chega até a glória de Deus, sempre, quando é uma oração do coração. Mas quando se trata de um caso de moral, como aquele que os saduceus estavam abordando, ela nunca chega, porque nunca passa de nós mesmos: não nos importa. É só um jogo intelectual".

Francisco convidou os participantes na missa a rezar por aqueles que vivem situações dramáticas e sofrem muito, por aqueles que, como Jesus na cruz, clamam: "Pai, Pai, por que me abandonaste?". “Oremos”, concluiu, “para que a nossa oração chegue até Deus e traga um pouco de esperança para todos nós”.