Abraço histórico entre um cardeal e um exarca ortodoxo

“Tudo é possível para quem crê”, afirma o Metropolita Filarete

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Por Antonio Gaspari

RIMINI, quarta-feira, 25 de agosto de 2010 (ZENIT.org) - Com o título "Irmãos da Europa" e uma fotografia de página inteira que mostra o abraço entre o cardeal Péter Erdö, primaz da Hungria, e o Metropolita Filarete, exarca patriarcal de Belarus, o jornal Meeting Quotidiano registrou o encontro mais significativo do Meeting de Rimini.

Ontem, diante de um público de 11 mil pessoas, o abraço entre o cardeal Erdö, que também é presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e Filarete, que também é Metropolita de Minsk e Sluzk, representou um acontecimento que foi definido como "histórico".

De fato, não há memória, nos tempos recentes, de um encontro deste nível entre representantes da Igreja Católica e Igreja Ortodoxa Russa, as duas maiores comunidades cristãs e mais influentes da Europa.

A coincidência de visão entre católicos e ortodoxos está ficando cada vez mais estreita diante das questões sensíveis que afetam a Europa, como a presença pública do crucifixo, o reconhecimento das raízes cristãs, a defesa da vida e da família natural, o ensino da religião e a liberdade religiosa.

A partir das boas relações, abriu-se há poucas semanas a nunciatura apostólica em Moscou e se fala cada vez com mais insistência do encontro entre o Pontífice Bento XVI e o Patriarca de Moscou, Kiril I.

A propósito disso, o Metropolita Filarete afirmou que "os tempos estão ideais para um encontro entre o Papa e o Patriarca. Em 2011 poderia ser também possível, eu não vejo obstáculos, a princípio".

A respeito das relações com ortodoxos, o cardeal Erdö afirmou que "a Igreja Católica e a Ortodoxa dogmaticamente estão tão próximas que particularmente sinto até dor física pelo fato de não existir uma comunhão plena e completa".

O presidente do CCEE e o Metropolita se encontraram no Meeting de Rimini para debater sobre o tema "Um homem culto, um europeu de nossos dias, pode acreditar, crer de verdade, na divindade do Filho de Deus, Jesus Cristo?".

O tema foi tirado do romance "Os demônios", de Fiódor Dostoievski e reflete uma questão presente nas elites europeias nos anos 70 do século XIX. A pergunta retorna à atualidade com mais força que nunca.

O exarca Filarete explicou que "a Europa mudou completamente, o homem europeu mudou e está irreconhecível. Contudo, a pergunta é sempre a mesma".

O Metropolita expôs as dúvidas que os europeus têm atualmente; e para superá-las indicou o trabalho de "uma consciência viva, que não se cala, mas que faça arder a mentira que espreita o coração e desmascara o pecado que persegue a alma".

Para vencer este desafio, o Metropolita Filarete recordou a parábola na qual Jesus salva a criança surdo-muda e possuída, indicando que "tudo é possível para quem crê" e destacando a reação do pai do menino, que exclamou: "Eu creio, Senhor! Ajuda minha incredulidade".

Filarete concluiu afirmando que "devemos pedir que o Senhor ajude nossa fé, porque tudo é possível para aquele que crê".

O cardeal Erdö mostrou, por sua vez, as contradições dos intelectuais europeus contemporâneos, sobretudo no que diz respeito à existência de Deus.

Por um lado - explicou o primaz da Hungria -, já não parece atraente "uma postura simplesmente ateia", ou "o famoso materialismo histórico e dialético do marxismo tradicional" e, por outro lado, parecem na moda "tipos de atitude mais ou menos panteístas".

Contudo - continuou o purpurado -, "na identidade cultural europeia está enraizada a herança judaico-cristã, assim como a grego-romana, e o elemento em maior conexão com sua visão do mundo é o cristianismo".

"Se o homem de hoje reflete seriamente sobre a questão da existência de Deus, absoluto, transcendente e pessoal - acrescenta -, deve se indagar também sobre a possibilidade da comunicação entre Deus e o homem, acontecida em Jesus Cristo."

Remetendo-se aos estudos publicados pelo Pontífice Bento XVI e pelo Cardeal alemão Alois Grillmeier, o primaz da Hungria disse que "o Cristo da fé e o Jesus histórico são a mesma pessoa e o motivo da fé em Cristo como Filho de Deus, como verdadeiro homem e verdadeiro Deus, afinal de contas, provém da autocompreensão de Jesus Cristo".

"Deus é único, e também único é o mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo", destacou o cardeal Erdö, e por isso "devemos ser mensageiros e missionários da nova evangelização da Europa. Devemos estar unidos com nossos outros irmãos cristãos, para que a unidade possa reforçar nosso testemunho".