Abuso de menores: olhar primeiro para as vítimas

Entrevista com a antropóloga Marta Brancatisano

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Por Carmen Elena Villa

ROMA, quinta-feira, 29 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Diante da onda de notícias sobre casos de pedofilia por parte de alguns sacerdotes católicos, a antropóloga Marta Brancatisano considera que o mais importante é pensar nas raízes do problema, na dor das vítimas e nas possíveis soluções.

Brancatisano participou no congresso Church and communications. Identily and dialogue. (Igreja e comunicações. Identidade e diálogo), que foi finalizado nessa quarta-feira na Universidade da Santa Cruz em Roma.

Durante sua intervenção, denominada Abusi sui minori: ripensare il futuro, una proposta antropologica, (Abusos a menores, repensar o futuro, uma proposta antropológica) ela denunciou que na Itália existem cerca de 15 redes de pedofilia. Por isso, indicou que nesse tempo é necessário “dirigir a atenção sobre a sexualidade com uma compreensão antropológica”, segundo explica nesta entrevista concedida a ZENIT.

Marta Brancatisano é antropóloga pela Universidade La Sapienza de Roma. Dedicou-se à pedagogia e ao apoio da mulher em âmbito profissional e familiar. Escreveu vários livros sobre o tema.

–A senhora, em sua conferência, fez referência ao tema dos escândalos de pedofilia como uma “situação horrível que nunca queríamos ouvir”. Contudo, disse que se poderia superar.
–Marta Brancatisano: Sim, há algo positivo nessa tragédia que golpeou a Igreja. Porque foi posto em evidência violentamente que o problema existe. Que o problema é global. Há dois objetivos nesses fatos de escândalo e de comunicação: queremos salvar a credibilidade da Igreja Católica ou queremos salvar as crianças? Pessoalmente, não os vejo como objetivos que se opõem. Mas, enquanto o primeiro objetivo é muito parcial, o segundo, e digo precisamente, não pode ser parcial. Deve ser o objetivo de todo mundo, de todas as instituições, de todos os Estados.
–Quais são as raízes do problema da pedofilia?

–Marta Brancatisano: Acredito que, no âmbito do mal individual, da debilidade e da perversão, a pedofilia sempre existiu e não me refiro à experiência cultural do mundo grego, mas a um comportamento que pode ser rastreado ao longo da história da humanidade. Essa é a diferença com o hoje: já foi comumente visto como destrutivo enquanto que hoje há pressões culturais para que possa ser considerado como expressão livre do ser, e isso faz parte - a pedofilia é o último elo - de uma concepção de sexualidade como expressão, e não como um modo para entrar em relação com o outro, que caracteriza nossa cultura.

A senhora também apresentou em sua conferência outros fatos nos quais a cultura de morte ataca fortemente as crianças.

–Marta Brancatisano: É assustador. Temos crianças-soldado, uma realidade bem conhecida e quase oficial. Temos crianças que são assassinadas para serem usadas como doadores de órgãos. Crianças que são "programadas", pondo características estruturais desde o ponto de vista biológico. Como mãe de família, posso dizer que se uma família com pais saudáveis provoca sofrimento às crianças, imagine o que pode acontecer no âmbito da violação. O ser humano é feito do mesmo: corpo, alma, psique, sentimento, instinto, mas no meio de tudo está a liberdade, por isso não somos predeterminados. Nesse sentido, penso que o apelo de Bento XVI para a reflexão, pedir perdão e orar é verdadeiramente uma estrutura importante da solução desse problema.
–Em um escândalo midiático como esse, como não encaminhar a atenção para o escândalo em si, mas para o bem-estar das crianças?

–Marta Brancatisano: É minha proposta! A comunicação é sempre emotiva. O horrível escândalo tem causado uma emoção de medo. O convite é para todos, também aos media. Devemos provocar uma emoção de esperança, se quisermos respeitar as vítimas. Não só castigando os culpados. Temos de dar esperanças de que as coisas que se passaram não acontecerão mais, porque racionalmente foram aplicadas as soluções. O resto eu acho que é somente uma série de emoções estéreis.