África do Sul vai às ruas para gritar que Cristo ressuscitou

Mais de quarenta anos depois dos protestos contra a condenação de Nelson Mandela em Pretória, a Igreja retorna à histórica Church Square para a Grande Missão nas Praças, organizada pelo Caminho Neocatecumenal

Roma, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 858 visitas

Ano 1964, Pretória, Church Square. No Palácio da Justiça, terminava o julgamento de Rivonia, que condenou à prisão perpétua dez líderes do ANC (Congresso Nacional Africano), entre os quais Nelson Mandela. O povo tomou as ruas e o coração histórico da cidade, do qual alçou-se o grito "Libertem Nelson Mandela!". A Igreja também foi às ruas: muitos bispos, padres e cidadãos católicos, indiferentes ao risco de ser presos, marcharam em frente à estátua de Krueger, pedindo uma solução pacífica que, infelizmente, ficou sem resposta. Entre eles, estava o jovem padre William Slattery, atual arcebispo de Pretória.

2013, Pretória, Church Square. É domingo, 5 de maio, um esplêndido dia de sol. A praça vê uma multidão ainda maior que a de quarenta anos atrás. No lugar da imagem de Mandela condenado, símbolo do regime opressivo do apartheid, há um ícone gigante com um rosto de Cristo misericordioso. Ao lado, um púlpito, um crucifixo e um microfone. A multidão, desta vez, não marcha, mas dança; não protesta, mas canta. E o grito que se levanta é outro: "Cristo ressuscitou!".

São as comunidades neocatecumenais de Pretória que começaram a Grande Missão nas Praças, projeto que está em ato desde os primeiros dias de abril ao redor de todo o mundo. A iniciativa global do Caminho Neocatecumenal transformou agora a Church Square, que, durante anos, tinha sido cenário de manifestações e de violência, numa grande festa da Igreja Católica.

Slattery voltou à praça para participar do entusiasmo dos muitos fiéis reunidos em torno ao seu bispo. Um simples missão ao ar livre se tornou, assim, o maior evento do Ano da Fé no sul do continente africano, recebendo o apoio não só do clero, mas também das autoridades políticas não católicas do país.

"A África do Sul tem 7% de católicos entre os seus 48 milhões de habitantes. Graças ao Caminho Neocatecumenal, esse 7% retoma a vida", disse a ZENIT Dino Furgione, catequista itinerante responsável pelo sul da África (África do Sul, Botswana, Lesoto e Suazilândia). "Esta missão, que está acontecendo simultaneamente em dez mil praças do mundo todo, está ajudando as pessoas afastadas, as pessoas desesperadas, as alienadas que estavam prontas para cometer suicídio, a se aproximarem todas de Cristo. Ontem, na praça, um homem estava gritando ‘Me ajudem... Eu quero me salvar... Eu não quero morrer sem salvação’. Nós estamos vendo verdadeiros milagres".

Mas a grande missão não está sendo direcionada apenas aos "afastados", e sim "a todos nós, cristãos, para permanecermos em movimento não apenas físico, mas espiritual", confirmou o catequista itinerante. Porque "o Espírito, o Batismo, move todo o ser, e a missão nos ajuda a jogar fora a nossa maca de paralíticos e a sair da paralisia dos nossos pecados, medos, preconceitos".

Os eventos nas praças estão estimulando os católicos das dioceses a tal ponto que, a pedido do arcebispo, não terminarão depois de cinco encontros, como estava planejado, mas continuarão nas favelas, nos shoppings, nos parques, nas ruas, até o final do Ano da Fé, quando uma missa solene, no dia de Cristo Rei, será presidida por dom Slattery e enriquecida por testemunhos públicos.

O centro da missão de ontem foi a pergunta "Quem é Deus para você?". Alguns dos presentes responderam e depois cederam a palavra a Gigy, uma congolesa que faz parte dos muitos imigrantes que foram estudar ou trabalhar na África do Sul e que vivem as contradições de um país extremamente religioso e, ao mesmo tempo, fortemente secularizado.

“Eu venho de um lar desfeito”, disse Gigy. “Os meus pais vivam brigando e eu queria me matar. Eu não entendia como Deus podia permitir aquilo”. Traumatizada com a família, ela decidiu não se casar: “Eu estava desesperada. Foi a palavra de uma tia, no dia do enterro da minha irmã mais nova, que me fez uma promessa em nome do Senhor: a promessa de uma vida feliz. Hoje, eu tenho um marido e uma filha linda e posso testemunhar que Deus foi e é fiel”.

Dom Slattery também subiu ao púlpito e convidou os transeuntes a se voltarem para Nosso Senhor com a mesma insistência e radicalidade do cego de Jericó: "Gritem! Senhor, tem misericórdia de mim! Peçam a graça de se apaixonar por ele!". Depois de abençoar a multidão, o bispo entrou na dança tradicional que arrastava todos os presentes.

Foi, enfim, um momento de grande comunhão, em que se viu em primeira mão o poder do Evangelho na vida das pessoas comuns. “O papa Francesco é realmente o grande inspirador desta missão”, disse a ZENIT o padre Lorenzo Ricci, do Caminho Neocatecumenal, missionário na África do Sul. “Graças ao constante convite dele para sairmos às ruas, para procurarmos novos métodos de evangelização, porque a Igreja precisa sair de si mesma e chegar até as portas de cada existência. Não podemos esperar que as pessoas que sofrem lá fora porque nunca ouviram falar de Cristo venham até nós. Nós é que temos que ir até elas e levar o Cristo ressuscitado a elas".