Águas mais profundas

Belém do Pará, (Zenit.org) Dom Alberto Taveira Corrêa | 976 visitas

Impressionou-nos positivamente a comoção nacional em torno da tragédia ocorrida na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Ao manifestar a solidariedade da Arquidiocese de Belém ao Arcebispo daquela cidade, Dom Hélio Adelar Rubert, ouvi do pastor zeloso a confirmação de sua presença amiga e carregada de convicções cristãs junto aos que sofreram tanto, disposto a chorar com os que choravam, impulsionando-os a olharem para frente e para o alto.

Na Homilia pronunciada na missa pelos falecidos, assim se expressava: “Queremos adorar o Senhor, bendizer seu nome santíssimo, escutar sua Palavra e pedir misericórdia e força para este momento de tanta dor e imensos gestos de solidariedade de toda parte. A Palavra de Deus nos fortalece na solidariedade, nos ilumina e nos dá força e esperança nesta hora dura da provação, da angústia e sofrimento. O Senhor está conosco. Ele não abandona seu povo amado. É hora de silenciar e escutar a voz de Deus. É hora de reativar a nossa fé e dizer: Não entendemos, mas cremos no amor de Deus. É hora de não julgar e não condenar ninguém. É hora de sofrer em silêncio, na fé e no amor. É hora de dizer: Eu creio, Senhor, mas aumenta a minha fé”.

Muitas pessoas e instituições se mobilizam para o crescimento da responsabilidade social em todos os ambientes de grande concentração de público. Ao mesmo tempo, com o Cardeal de São Paulo, Dom Odilo Scherer, nós nos perguntamos: “Onde estão os nossos jovens?” Continua ele: “A tragédia de Santa Maria nos motiva a voltarmos nossas atenções com maior empenho para os jovens: que não lhes falte a presença, o estímulo e o bom exemplo dos adultos nas escolhas que devem fazer para a vida; que tenham oportunidades para se preparar bem para assumirem seu lugar na sociedade e seu rumo na vida; que não sejam abandonados, de maneira resignada, aos ideólogos do vazio e da desorientação antropológica e moral, ou aos que investem pesado neles para explorar suas energias jovens e sua vontade de viver em função de manobras ideológicas ou ganhos econômicos, conduzindo-os para os becos sem saída da droga, da corrupção moral e social. Que não recebam apenas propostas vazias e niilistas para suas vidas, mas orientações e indicações sólidas para a construção de seu futuro. No Brasil, nós temos neste ano uma chance de ouro para nos dirigirmos aos jovens. São eles que terão nas mãos a responsabilidade pela vida social, logo mais, daqui a poucos anos. E da vida da Igreja também. A Campanha da Fraternidade está às portas e a Jornada Mundial da Juventude já está mobilizando muitas energias jovens pelo Brasil todo. Como faremos para envolver a maioria absoluta dos jovens, que ainda não são alcançados pelas nossas propostas pastorais, nem nossas homilias dominicais, mas que se encontram, aos milhões, nas escolas e universidades e nas casas de diversão, sábados à noite?”

Se nos sentimos profundamente tocados pela morte trágica de mais de duzentos jovens, proponho uma reflexão, estimulada pelos fatos recentes, por dados estatísticos e, mais ainda, pela palavra do Senhor a Pedro e aos outros discípulos, depois de uma noite intensa de trabalho, quando são levados a lançar de novo as redes para a pesca em águas mais profundas (Cf. Lc 5,1-11). Trata-se de uma provocação positiva, destinada a suscitar um diálogo na sociedade e a busca de soluções.

Nosso país ostenta números preocupantes, com uma média de mortes violentas superior à de conflitos armados internacionais. Consta que nosso país teve 1,09 milhão de homicídios entre 1980 e 2010, com um índice epidêmico de 26,2 por cem mil habitantes. O Estado do Pará é o terceiro em nosso país em número de homicídios por cem mil habitantes (45,9)!  Em 2010, ocorreram centro e trinta e sete homicídios diários em nosso país. Ainda que algumas áreas do país tenham estabilizadas as taxas de homicídios, estas são muito elevadas. Outro dado importante é a vitimização juvenil. Há uma elevada concentração dos casos de homicídios na população jovem do País. Entre 15 e 19 anos de idade, essa taxa é de 43,7%, já entre 20 e 24 pula para 60,9%, enquanto de 25 anos até 29 atinge 51,6%. São taxas tão significativas que corremos o risco de não as levarmos a sério, por ficarmos acostumados com elas!

O que fazer? De um lado, a responsabilidade dos governos, em seus diversos níveis, quanto às políticas públicas a serem implementadas. De outro lado, o cultivo de valores mais altos, a partir da família, passando pela Igreja, até envolver todas as forças do bem na sociedade. Cresça nossa sensibilidade diante dos desafios, chamem-se eles violência, droga, criminalidade. Ninguém se omita, pois pequenas e criativas soluções podem estar ao nosso alcance.

Permito-me ainda perguntar, justamente em tempo de Carnaval, que referenciais estão presentes na quantidade de festas dos próximos dias, muitas delas finalizadas num vazio total de terça para quarta-feira? Daqui a alguns dias sairão estatísticas dos acidentes ou crimes! Será que vale tudo? Não é hora de rever alguma coisa e verificar se o “liberou geral” está sendo construtivo e digno? Será conservadora a posição daqueles que levantam bandeiras em nome da dignidade humana com que Deus nos criou?

É bom saber que a Quarta-feira de Cinzas da Igreja não foi inventada em função dos dias de folia, mas se volta para frente e para o alto, a Páscoa de Jesus Cristo, mostrando-nos o rumo da conversão e da fraternidade a serem experimentadas na Quaresma. 

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém