AIDS no Quênia: amar os afetados e os infectados

Entrevista com o bispo do ordinariado militar, Dom Alfred Rotich

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NAIRÓBI, domingo, 27 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - A Igreja não julga os infectados pela aids. Antes, procura ser companheira, transformando-se assim em "afetada" através da "condolência".

Esta é a reflexão de Dom Alfred Kipkoech Arap Rotich, bispo castrense do Quênia, nesta entrevista em que considera as diversas faces do problema da aids no país.

Seu nome é Rotich, que lembra um nome alemão. O que ele significa?

Dom Rotich: Na minha família, Rotich significa que o meu pai nasceu na hora em que as vacas estavam prontas para ser ordenhadas, ou seja, às 3 da tarde. São as últimas seis letras do nome do meu pai. Fui batizado como Arap, o filho de Rotich - basicamente significa o pastor que conduz uma procissão, e acabou acontecendo que agora eu conduzo a procissão na Igreja.

Sua Excelência também é coronel nas forças armadas do Quênia. Como é isso?

Dom Rotich: Sim, como ministro da Igreja. Faz parte do nosso trabalho pastoral no país dar uma oportunidade às forças armadas, dar uma razão para a fé deles, e proporcionar a eles capelães nativos. Depois de dez anos como capelão, eu fui consagrado bispo.

O Quênia é um dos motores da África, mas, ao mesmo tempo, uma grande maioria da população vive abaixo da linha da pobreza. Por que existe essa disparidade entre riqueza e pobreza no Quênia?

Dom Rotich: Quando as pessoas são egoístas e é preciso compartilhar, elas querem ter o melhor para elas mesmas. Mas eu acho que isso criou a oportunidade de refletirmos e discernirmos como isto ocorre. Quando existe um nível de corrupção, quando existe um nível de egoísmo, já há uma demarcação; já existe uma linha que divide ricos e pobres. A riqueza pode ser superficial, porque a riqueza de um país é dar oportunidade às pessoas para partilharem o bem presente na sociedade. É um desafio. E eu tenho certeza de que todos os líderes estão tentando captar essa idéia.

O que a conferência episcopal está fazendo para combater a pobreza e a disparidade de riqueza?

Dom Rotich: Os bispos publicaram cartas pastorais convocando a sociedade, especialmente os líderes, mas todas as pessoas do país, para olharem para a pessoa humana - a pessoa humana tem que ser o centro do desenvolvimento, a dignidade do indivíduo. E por isso, se o meu irmão ou a minha irmã está sofrendo, todos os olhos têm que se voltar para eles; e essa preocupação então se torna um problema nosso.

Está havendo um debate e um diálogo a respeito da aids, que golpeou a África com particular dureza. É o continente mais afetado, inclusive. Morrem cerca de 300 quenianos por dia por causa da aids. Por que a doença se estendeu tanto neste país?

Dom Rotich: São muitas razões. Mas tanto o governo e a sociedade civil quanto as igrejas têm tomado medidas para encarar este assunto. Não queremos julgar a pessoa afetada, mas ser companheiros fiéis dos afetados, e, sendo companheiros fiéis dos infectados, nos tornamos afetados, porque isso atrai a nossa condolência. Temos que nos aproximar deles, em primeiro lugar, para garantir que não está tudo perdido.

Li que no Quênia muitas mulheres têm medo de ser diagnosticadas com aids porque, se o marido descobre, e o marido é o único que traz o pão para casa, ele pode abandoná-las. Esse aspecto do acompanhamento por parte da Igreja, então, eu posso imaginar que é muito importante.


Dom Rotich: Sim, existem projetos e iniciativas que foram colocados em prática pela Igreja. Se você for à cidade de Nairóbi, lá tem um programa nos bairros da zona leste, patrocinado por grupos infantis como o Maryknoll, com a supervisão de sacerdotes e de agentes de saúde, e você vê que a Igreja está lá e fala para as pessoas não terem medo e fazerem os testes. Como se trata de uma doença que é associada a relações extraconjugais, é claro que as pessoas não vão dizer abertamente que têm aids porque seriam julgadas pela sociedade. Mas pouco a pouco isso está mudando. Nós pedimos para as pessoas fazerem os testes inclusive nos cursos pré-matrimoniais. Durante toda a série de sessões, a Igreja garante para eles que esta situação não significa o fim da vida deles (...). Claro, existem situações em que o marido mandou a mulher embora, mas há serviços assistenciais quando isso acontece. Dá uma mostra de compreensão e de empatia pela outra pessoa.

Um dos grandes problemas da aids é o dos infectados que têm filhos. Muitas dessas crianças acabam virando chefes de família.

Dom Rotich: Isso para nós é um grande desafio. Mas, de novo, na sociedade africana nós somos mais ou menos uma comunidade. Se alguém foi afetado - perdeu o pai ou a mãe ou os dois - a sociedade vai acolhê-lo; mas você deve ter notado que está acontecendo uma grande migração para as cidades. Então, algumas vezes, quando acontece isto, os filhos ficam sozinhos.

Este aspecto comunitário se perde nas cidades?


Dom Rotich: Se perde. E este é um dos valores que nós gostaríamos que voltassem: insistir no fato de que somos uma família. Sempre que existem órfãos nessas comunidades, a Igreja tenta fazer o máximo que pode, usando todos os recursos. O recurso mais rápido é a empatia. Temos congregações de irmãs que vão todo dia enfrentar esta situação e pedem o esforço da comunidade para tentar ajudar as crianças.

Esta é a resposta da Igreja, mas há também a resposta do mundo, que chegou com a solução do preservativo. Vocês protestaram contra a distribuição de preservativos no Quênia.

Dom Rotich: Sim, vimos que não é a solução. Convidamos os jovens a que não escutem os que distribuem preservativos, porque vimos que tentavam educar as pessoas para fazer sexo com uma idade muito jovem. Víamos que a moralidade do país estava afundando. É necessária uma ajuda educativa, especialmente dos pastores, para falar contra isso e promover a abstinência, que é agora o programa que levamos às escolas.

Agora o governo, o ministério da educação, está escutando isso porque diz que o preservativo não é a solução. Mas um sistema baseado em valores proporcionará a força interna para sair com valentia e dizer: para isso posso esperar. Há tempo para tudo e há tempo de esperar pelo momento em que estejam na vida matrimonial.

Começamos com as crianças, dado que são as que foram afetadas. Não nos deem um mapa para suprir coisas que são alheias a nossa cultura, estranhas ao nosso senso de valores.

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Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network, (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.
Mais informação em www.aisbrasil.org.br, www.fundacao-ais.pt.