Ajuda à Igreja que Sofre frente ao desafio da crise econômica

Entrevista com o secretário geral, Pierre-Marie Morel

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Por Jesús Colina

ROMA, segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- Graças aos 700 mil doadores de Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), um de cada seis seminaristas no mundo pode preparar-se para o sacerdócio. Mas a crise econômica atual também afeta duramente a AIS.

Nesta entrevista, o secretário-geral desta associação, Pierre-Marie Morel, faz um balanço de seu primeiro ano do serviço.

– Em janeiro passado, você deixou o cargo de vice-presidente do grupo EADS para responsabilizar-se de Ajuda à Igreja que Sofre como secretário-geral internacional. Quais são as grandes linhas de sua ação, depois de um ano?

– Pierre-MarieMoral: Há um ano, eu me dediquei a compreender os problemas. Comecei escutando, por meio de entrevistas sistemáticas a todos os que trabalham em nossa obra, tanto na sede da Alemanha como em nossos 17 escritórios nacionais. Este tempo passado com cada um me permitiu ter uma primeira idéia das prioridades.

Com suas 300 pessoas fixas, rodeadas de muitos voluntários, sacerdotes e leigos, a equipe é uma das grandes forças desta obra, por seu compromisso, sua fé e sua profissionalidade. Esta força é um tesouro que deve cuidado devidamente. É a razão pela qual a maioria das medidas adotadas se referem ao pessoal e aos meios à sua disposição.

Outra das grandes frentes do ano 2008, e que concluirá em 2009, é a criação de um programa informático comum para nossos escritórios nacionais, para conhecer melhor nossos doadores e responder melhor às necessidades. Nossos doadores são extraordinários. São fiéis e generosos, porque conhecem os problemas e as necessidades da Igreja Católica no mundo.

São cerca de 700 mil e apóiam a missão pastoral da Igreja com sua oração fiel. Oferecem uma missa a cada 27 segundos no mundo, com uma intenção especial, e sustentam assim a grande oração da Igreja, unida à Igreja do céu, em sua súplica por dar a conhecer a boa notícia do Evangelho, oferecer a paz e a unidade ao mundo e aliviar os sofrimentos. Graças a eles, um seminarista de cada seis no mundo pode preparar-se para o sacerdócio, os fiéis podem orar nas capelas, os sacerdotes e as religiosas podem continuar sua missão pastoral. Pode-se responder a mais de cinco mil solicitudes de ajuda graças a eles todos os anos. Agradeço a Deus por sua fidelidade.

– Como secretário-geral, você é um observador privilegiado dos sofrimentos da Igreja no mundo. Não é desmoralizador?

– Pierre-MarieMorel: Você sabe que Cristo deu sua vida por cada um de nós. A vitória já foi anunciada e está no final do caminho. Todos os sofrimentos dos quais nós somos as primeiras testemunhas são o campo adubado e a semente da Igreja. Somos convidados a orar e adorar em nome e no lugar dos que não podem fazê-lo. Nós nos encontramos no coração do mistério da comunhão dos santos, que é uma arma eficaz contra a desesperança. No âmbito social, a missa e a adoração cotidiana transmitem a cada um esta responsabilidade.

Fomos salvos na esperança, diz São Paulo aos romanos!

Deve-se ler a encíclica Spe Salvi, do nosso querido Papa Bento XVI. No capítulo 3, a propósito de Josefina Bakhita, ele diz: «O exemplo de uma santa da nossa época pode, de alguma maneira, ajudar-nos a compreender o que significa encontrar-se com Deus pela primeira vez e realmente».

Josefina nasceu em Darfur, Sudão. Seqüestrada por traficantes de escravos, golpeada até sangrar, vendida várias vezes, acabou por conhecer a um dono totalmente diferente que lhe permitiu encontrar-se com Deus.

«Neste momento, ela teve esperança – diz o Santo Padre ; não só a pequena esperança de encontrar donos menos cruéis, mas a grande esperança: ‘Eu sou definitivamente amada, aconteça o que acontecer; este grande Amor me espera. Por isso minha vida é bela’. Através do conhecimento desta esperança ela foi redimida, já não se sentia escrava, mas filha livre de Deus.»

Então, é desmoralizante? Não! Vivemos na esperança! Somos alimentados pelos testemunhos de Santa Josefina Bakhita e também pelos de todos os santos de hoje, que dão sua vida por Cristo.

Estive em Nairóbi há duas semanas, com minha esposa Anne, para participar do congresso da Federação Africana de Ação Familiar (FAAF), presidida por Daniele Sauvage. Nós nos sentimos edificados pela força e profundidade dos testemunhos dos representantes dos 17 países presentes, dispostos a trabalhar juntos para salvar os valores familiares conforme o ensinamento da Igreja.

Na Palestina, encontramos cristãos que suscitam admiração, pedindo para poder continuar vivendo e rezando em sua terra para converter-se em sinal de paz entre todas as comunidades. Esperança de paz.

Em outubro passado, estive com Anne em Lisieux para participar da beatificação de Louis e Zelie Martin, pais de Santa Teresa do Menino Jesus. Que exemplo para todos os pais do mundo que escolhem a vida e acolhem a vontade do Senhor cada dia! Esperança na família.

Na catedral de Westminster, conatatei, em meu encontro com Dom Jean Benjamin Sleiman, arcebispo de Bagdá, uma grande esperança, apesar da precariedade da situação dos cristãos no Iraque. Esperança contra toda esperança.

Vi muita riqueza na recente reunião que tivemos com a conferência episcopal e o núncio apostólico da Rússia, que precisam de nossa ajuda para continuar desenvolvendo seus projetos pastorais. É a esperança que tem confiança.

Após o Getsêmani, depois da sexta-feira santa, vem a ressurreição!

– Há alguns meses, uma grave crise financeira e econômica se abateu sobre o mundo. Que conseqüências você vê para a Ajuda à Igreja que Sofre?

– Pierre-MariaMorel: Diante de tais acontecimentos, temos duas soluções. A do pessimismo, voltar sobre si mesmos e abandonar. Ou a daqueles que sabem que de todo mal Deus pode extrair um bem. Esta é minha opção. Lancei no mês passado o programa «Objetivo 2012» (em inglês Cape 2012) para mobilizar a toda nossa obra diante desta crise. Este programa foi apresentado ao comitê dos diretores, assim como ao Conselho Geral da obra, reunido em Roma há duas semanas. Pois quando a crise econômica afeta os grandes países industrializados, sabemos bem que os países pobres são as primeiras vítimas da mesma.

Estimamos que, em 2012, precisaremos de 100 milhões de euros para enfrentar todas as solicitudes. Ou seja, faltam 20 milhões de euros este ano. O aumento dos donativos virá dos escritórios existentes, mas também de novos escritórios, onde os cristãos podem participar deste extraordinário impulso de solidariedade.

Diante desta urgência, no número de janeiro de 2009 do Boletim, peço a todos os doadores que rezem. Peço-lhes dar desde 2009 um euro a mais por mês e encontrar, cada um, um novo doador, explicando o porquê desta urgência.

Paralelamente, iniciaremos um programa de redução de custos para orientar o máximo de fundos para os projetos. Assim, com a graça de Deus, que não nos abandonou nunca, confiamos no futuro; e com esta mobilização sem precedentes esperamos responder à demanda.

– Você fala de novos escritórios; em que países pensa?

– Pierre-MarieMorel: Os critérios a ter em conta para abrir novos escritórios são numerosos e complexos. Em princípio, os escritórios nacionais existentes têm projetos para desenvolver. Logo, novos países poderão converter-se em países doadores nos próximos anos. Alguns países potenciais estão em estudo.

– Diz-se que, após a morte dos fundadores, as organizações passam sempre por períodos difíceis. O que aconteceu na Ajuda à Igreja que Sofre, após a morte do Pe. Werenfried?

– Pierre- MarieMorel: É verdade. Como todas as organizações no mundo, a perda de seu fundador é uma etapa dolorosa e, para remontaá-la, é necessário humildade, compromisso e oração.

Ajuda à Igreja que Sofre tem a sorte de ter sido erigida pelo Papa João Paulo II como associação pública de fiéis ligada à Congregação para o Clero.

Sob o impulso de nosso querido novo presidente, o Pe. Joaquín Alliende Luco, este laço estreito com a Igreja foi e continuará sendo determinante para a fidelidade desta obra ao carisma de seu fundador e para a unidade de seus membros no seio da Igreja Católica.

Por último, a independência financeira faz que esta organização seja totalmente livre ao serviço da Igreja universal.

– Dom Morel, chegamos ao final desta entrevista. O que deseja dizer-nos para este novo ano?

– Pierre-MarieMorel: Este é o ano de São Paulo! Para nossa obra, é interessante saber que a comunidade à qual Paulo ficou mais ligado é a dos filipenses. Ainda que preso e logo depois posto em liberdade, Paulo guardou numerosos contatos com aqueles que organizavam a ajuda financeira para sustentar as atividades de evangelização. Nossos doadores são os filipenses de hoje! Escutemos São Paulo dirigir-se aos filipenses no capítulo 4.

«Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos! Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos preocupeis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças. E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus.»

Que esta carta de Paulo aos filipenses possa ser nosso programa em 2009, para que cheguemos a ser os mensageiros da esperança que o mundo precisa.

Boas festas de Natal e bom e santo Ano 2009!

Se você deseja ajudar a AIS (http://www.acn-intl.org), pode-se fazê-lo enviando uma mensagem a aisbr@ais-br.org (Brasil) ou apoio@fundacao-ais.pt  (Portugal).