Albânia: um lugar onde a convivência entre as religiões não é uma miragem

Famílias de fé muçulmana ajudaram a reconstruir uma igreja católica dedicada a São Nicolau

Roma, (Zenit.org) Federico Cenci | 536 visitas

Embora esteja se recuperando de uma história conturbada e ainda marcada por muitos problemas, a Albânia é capaz de surpreender positivamente. Vêm de lá notícias recentes sobre tolerância e coexistência religiosa, como a que reproduzimos a seguir.

No povoado de Derven, em Krujua (reduto nacionalista durante as invasões otomanas), quinze famílias de fé muçulmana ajudaram com dinheiro e trabalho voluntário a reconstruir uma igreja católica dedicada a São Nicolau. De acordo com a emissora albanesa A1 Report, é a terceira reconstrução da igreja, que já foi destruída na Segunda Guerra Mundial e durante o regime comunista.

Os moradores do povoado estão assombrados com o impacto que o seu gesto despertou na mídia. Eles declararam aos repórteres, candidamente, que agiram dessa maneira porque estão habituados a viver em harmonia, sem dar peso às diferenças religiosas. Durante a cerimônia de inauguração da nova igreja, esteve presente o bispo auxiliar de Tirana, dom George Frendo, que apertou a mão de cada representante da comunidade muçulmana local e lhes agradeceu pessoalmente. “Pensei que haveria aqui umas vinte pessoas”, disse o bispo, surpreso ao ver tanta gente. “Mas estou feliz por ver tantas crianças, porque São Nicolau é o santo padroeiro delas”. O bispo também afirmou que o trabalho feito em conjunto reforça ainda mais a convivência religiosa na Albânia.

Pashk Cypi, prefeito de Derven, também afirmou: "Sem distinção de religião, muçulmanos e católicos se juntaram voluntariamente num trabalho que reconstruiu a igreja de São Nicolau. A comunidade católica é muito grata por este gesto de solidariedade e de fraternidade, um gesto que deixa orgulhosos não só os cidadãos de Derven, mas toda a Albânia, que, mais uma vez, mostra que a convivência entre as religiões não é uma miragem".

Ao longo dos séculos, de fato, a Albânia conseguiu superar muitas dificuldades suscitadas pelas diferenças religiosas, tornando-se um caleidoscópio interconfessional unido pelo patriotismo comum. Vaso Pasha, um dos poetas do Renascimento albanês, glorificou de forma nacionalista essa peculiaridade do país, escrevendo no final do século XIX: "A religião dos albaneses é a albanesidade".

Hoje, é difícil traçar um perfil religioso do país balcânico. O último censo, de 1938, pode ter sofrido mudanças muito significativas depois de mais de quatro décadas de ateísmo de Estado imposto pelo regime comunista. De acordo com aquele já obsoleto levantamento, os católicos constituiriam 10% da população e viveriam principalmente na parte norte da Albânia; outros 20% seriam ortodoxos e os restantes 70% seriam muçulmanos, divididos entre sunitas, uma minoria xiita e um grupo bektashi, ramo derivado dos sufis.

Após a queda do regime totalitário, em 1991, foi abolida a proibição das práticas religiosas, permitindo gradualmente que a religião voltasse a desempenhar um papel público na sociedade albanesa. A reconstrução de igrejas e mesquitas foi, e ainda é, o símbolo tangível desse novo caminho empreendido pela Albânia.