Ameaça à família é ameaça à humanidade

Entrevista com o Prof. Dr. Daniel Serrão, membro da Pontifícia Academia para a Vida

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PORTO, sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008 (ZENIT.org).- «A Vida é um dom de Deus» e «a vida humana é uma responsabilidade dos homens, face a Deus. São os homens, nos seus atos concretos de todos os dias, que devem salvar a vida uns dos outros», afirma um renomado militante pró-vida.

Zenit entrevistou o Prof. Dr. Daniel Serrão, médico português, membro da Pontifícia Academia para a Vida, no contexto dos preparativos do I Congresso Internacional em Defesa da vida, que acontece de 6 a 10 de fevereiro, no Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (São Paulo, Brasil).

–A família, a primeira de todas as instituições (que antecede a todas e é a principal de todas elas, base e suporte para o pleno desenvolvimento da pessoa humana), encontra-se hoje seriamente ameaçada, por inúmeros ataques, medidas legislativas que querem impor novos modelos, que contrariam, em tudo, a lei natural. Como o Sr. vê essa problemática?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: Como um desafio, talvez o maior desafio colocado à humanidade, porque ameaça mesmo a sua sobrevivência. Pior que o das armas nucleares. Se os homens e mulheres, no seu conjunto, não arrepiarem caminho, estarão a cavar a sepultura da vida. Esta tomada de consciência de todos e de cada um de nós é mais importante que as leis dos governos, porque estas dependem da vontade das pessoas, nos regimes democráticos. A mesma energia, com a qual tantos combatem, também no Brasil, a degradação da vida natural de animais e plantas, deverá ser canalizada para a defesa da vida humana.

A família irá resistir a todos esses ataques? Como? Quais as iniciativas que devem ser tomadas para isso?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: Como católico, acredito que a “vontade” de Deus é que a família se salve de todas as ameaças. Mas Deus atua, no mundo que Ele criou, por meio dos homens aos quais entregou esta tarefa. Quando no Gênesis está escrito que “concluída, no sétimo dia, toda a obra que havia feito, Deus repousou, no sétimo dia, do trabalho por Ele realizado”, a mensagem a receber é a de que o repouso de Deus são os homens que Ele criou à Sua imagem e semelhança. Portanto é aos homens que está entregue a guarda do mundo e a salvação da vida. Sem família a humanidade não terá futuro. O Congresso irá, seguramente, dar oportunidade a que sejam sugeridas muitas iniciativas para a salvação da vida. O próprio Congresso é já uma iniciativa de grande efeito. A seguir, há que mobilizar em permanência, unir com rigor e segurança e motivar a fundo, todos os movimentos e iniciativas que estão no terreno a defender e louvar a família.

Em sua exposição, no I Congresso Internacional em Defesa da Vida, a realizar-se no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, de 6 a 10 de fevereiro, o Sr. irá falar sobre o tema: “Família: futuro da humanidade”. Poderia nos apontar, em linhas gerais, os pontos mais importantes de sua apresentação?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: Certamente. Falarei, primeiro da família como uma estrutura biológica e natural que assegurou, nos tempos primitivos, a sobrevivência da nossa espécie. Depois direi como a família se tornou uma estrutura que permitiu aos seres humanos cobrirem toda a Terra. Esta história de sucesso teve a sua base na família. A família passou, assim, a ser uma estrutura cultural, garantia da sobrevivência e fortemente implantada nos diversos grupos humanos, em todo o mundo. Por estas características, progressivamente adquiridas, a família foi assumida, por todas as religiões ao longo de milênios, como a verdadeira via de salvação. A tradição hebraica deu-lhe um lugar central entre todas as outras estruturas sociais. Mas foi Cristo quem a elevou à dignidade suprema de ser um sacramento. Celebrado pelo par biológico: homem e mulher. Analiso depois as dificuldades de celebrar este Sacramento e todas as manobras para o tornar numa banalidade nos tempos pós-modernos que nos estão a querer impor. Termino com um apelo a todos nós para que transformemos em realidade as palavras do Papa Bento XVI lançadas a mais de dois milhões de pessoas que se reuniram nas praças e ruas de Madrid: “Vale a pena trabalhar em favor da Família e do Matrimônio, porque vale a pena trabalhar pelo ser humano, o ser mais precioso criado por Deus.”

Que políticas públicas o Sr. considera imprescindíveis serem implementadas para proteger a família e dar à pessoa humana as condições adequadas ao seu verdadeiro desenvolvimento?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: A primeira política pública é a que reconheça que a Nação, que o poder político governa, é constituída por famílias. Boas ou más, ricas ou pobres, são as famílias que formam a Nação e justificam a existência de Estado e de Governo. Daqui que o primeiro dever da política é reconhecer esta realidade e o segundo é o de que todas as medidas políticas - na educação, na saúde, na economia e impostos, nos transportes, na habitação, etc, etc - sejam sempre a favor das famílias e nunca contra elas. O Governo governa, de fato, famílias, não governa indivíduos isolados.

Como enfrentar o equívoco da educação sexual hedonista, que leva os jovens em direção contrária ao auto-domínio, à responsabilidade e à solidariedade, para estilos de vida individualistas e, portanto, anti-sociais? Que alternativas e que argumentos oferecer para convencê-los da coerência e da sabedoria da moral cristã, que visa acima de tudo a felicidade da pessoa humana?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: A educação para a sexualidade saudável só pode ser feita na família e pela família, porque a família é uma estrutura sexuada, é construída sobre a união sexual de homem e mulher. Uma família que realiza, no seu viver quotidiano, uma sexualidade tendencialmente perfeita, é o melhor educador da sexualidade dos seus membros. O exemplo simples da vida real é mais valioso do que mil palavras. Mas porque a família tem este subtil poder de ensinar pelo exemplo, uma família disfuncional na sua expressão da sexualidade, vai provocar, nos seus membros mais jovens, uma sexualidade também disfuncional e, muitas vezes, perversa. É então que outras estruturas podem e devem intervir na formação dos jovens para uma sexualidade saudável. Os professores, fora do espaço pedagógico, que não é adequado, e os cristãos, em tempo e lugar apropriados, podem atuar nestas situações individuais, sabendo bem que estão a intervir e a entrar num espaço pessoal de intimidade que tem de ser respeitado. Não há educação sexual “coletiva”. A educação para o amor, que a moral cristã propõe aos jovens, é o mais sedutor de todos os ensinamentos e deve ser apresentada assim, como uma sedução, e não numa perspectiva de proibições, culpas e castigos.

Na sua opinião, por que não foi possível evitar a legalização do aborto em Portugal? Que fatores contribuíram para isso? E quais têm sido as conseqüências disso?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: Estive envolvido, até aos ossos, no debate sobre a transformação do abortamento num ato banal e “pronto-a-vestir”. Perdemos este referendo, depois de termos ganho o anterior, basicamente por não termos sabido explicar bem às pessoas que, os que defendiam o sim ao aborto livre, gritavam contra o aborto clandestino, de “vão de escada”, com mulheres a sofrer e a morrer, etc., não por serem contra o aborto mas por ele ser clandestino. O desenvolvimento da aplicação da lei veio mostrar que tudo está a ser feito para que haja muitos abortamentos nos hospitais e nas clínicas privadas com acordos com o Serviço Nacional de Saúde. Os números dos primeiros meses já conhecidos são aterradores e desmentem esses propagandistas do sim que diziam que, com a legalização, os atos de abortamento iriam diminuir. E tudo indica que continuam os abortamentos clandestinos, em privados, muitos certamente para além do prazo legal que é de dez semanas. A lógica é: se pode ser feito até às dez semanas e este prazo não tem qualquer fundamento, porque não se há-de fazer-se depois desse tempo?

Por que o continente europeu tem se voltado às costas para sua rica tradição cristã?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: A Europa “sofre de fartura”, como comentou Eça de Queiroz a propósito dos queixumes de um homem rico. Foi a evolução, no século XX, para um grande projeto de enriquecimento, como benefício da paz entre as nações européias, que levou ao desaparecimento do que chamo a “classe média das virtudes”. Este desaparecimento, ou a sua corrupção, levou ao desprezo dos valores sociais como a honestidade, a solidariedade, o respeito pela verdade, a procura de uma felicidade tranquila. Como a religião, em especial o cristianismo, ensinavam estes valores como forma de amar a Deus, da rejeição dos valores resultou a rejeição da religião que os ensinava. Contudo o apelo à transcendência permanece e justifica o aparecimento de seitas do mais diverso modelo. Algumas orientam este apelo profundo para roubarem dinheiro aos crentes ingênuos, que pagam a felicidade ilusória que lhes prometem.

Que esperanças o Sr. têm dos resultados do encontro internacional de especialistas em bioética e lideranças pró-vida a realizar-se em Aparecida?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: A minha grande esperança, que vai ser uma certeza, é que o I Congresso Internacional em Defesa da Vida seja o motor poderoso de um grande e ativo movimento da autoconsciência dos homens, no Brasil e lá fora, porque este Congresso irá ter significativa repercussão mundial. Desse movimento das consciências a favor da família e da vida, nascerá em todos nós e nos que nos ouvirem, virem e lerem, um novo impulso para a alegria da ação junto das pessoas e, por estas, nos governos. A mensagem é simples: Defendam e apóiem a Família, porque estarão a defender e a apoiar a Vida. Acabar com a Vida é acabar com o futuro da humanidade.

O que o Sr. poderia destacar como relevante conter na “Declaração de Aparecida em Defesa da Vida”?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: Que a Declaração afirme, claramente, que a Vida é um dom de Deus e que a vida humana é uma responsabilidade dos homens, face a Deus. São os homens, nos seus atos concretos de todos os dias, que devem salvar a vida uns dos outros, para salvarem a Vida. Matar um ser humano vivo, seja um embrião que já é vida, seja um doente terminal que ainda é vida, é o mais abominável ato contra a Vida.

O que o Sr. poderia destacar como relevante conter na “Declaração de Aparecida em Defesa da Vida”?

–Prof. Dr. Daniel Serrão: Praticando a “cultura da vida”, sempre e em todos os tempos, lugares e situações. Dizer e praticar um não absoluto e coerente à morte do homem pelo homem, à guerra e à sua indústria criminosa de armamentos, à pena de morte, ao assassinato insidioso de idosos dependentes e de doentes terminais, à hecatombe de milhões de crianças, em todo o mundo, mortas antes de nascerem, porque são abortadas, ou mortas depois de nascerem, pela violência, por doenças evitáveis ou pela fome. Quando estas situações que estão à nossa volta, desaparecerem desta Terra que Deus criou para os homens nela viverem felizes, então triunfará a “cultura da Vida”.

[Por Hermes Rodrigues Nery]