Após 55 anos, ainda apaixonado pelo sacerdócio

Ex-anglicano descreve a alegria de celebrar a missa

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Por Pe. John Jay Hughes

SAN LUIS, terça-feira, 22 de dezembro de 2009 (ZENIT.org).- “Os padres que gostam de ser padres estão entre os homens mais felizes do mundo”. Estas palavras do sacerdote e sociólogo de Chicago Andrew Greeley me fizeram levantar da cadeira quando eu as li, há alguns anos atrás. “Andy, você está certo", eu lhe escrevi. "Posso confirmar por minha própria experiência”.

Filho e neto de pastores da Igreja Episcopaliana, cresci em um mundo onde o culto público e a oração privada faziam parte da vida diária como comer ou dormir. Desde os 9 anos de idade era um menino participante do coro da catedral de St. John the Divine, em Nova York, naquele tempo uma espécie de versão da catedral de Canterbury ou de Nova York na Inglaterra. Cantávamos os salmos diariamente e aos domingos hinos e partes musicais da liturgia eucarística. Eu adorava.

Aos 12 anos, eu sabia que queria ser pastor. Quando fui para um colégio interno me pediram para escrever um ensaio sobre “O que espero fazer dentro de 20 anos”. Escrevi sobre ser missionário na África. Esta ideia a qual havia dedicado previamente não um pensamento passageiro, tinha vindo para mim desde o capelão da escola, um pastor da Ordem Anglicana da Santa Cruz que realizou uma missão na Libéria.

Cada vez que ajudava na missa eu pensava: “Um dia eu estarei ali. Vestirei essas roupas. E vou dizer essas palavras”. A ideia de uma vocação missionária logo foi frustrada. Mas o sacerdócio nunca. Fui atraído por esse objetivo como uma agulha de ferro em um imã, até que doze anos depois consegui. Celebrando minha primeira missa em 4 de abril de 1954 era tão feliz que recitei todo o “Te Deun” em voz alta na sacristia.

Durante seis felizes anos de ministério paroquial, no sacerdócio encontrei mais do que eu esperava. Minha religião pessoal era “catolicismo sem o Papa”. Meus estudos me ensinaram que as afirmações papais de jurisdição universal e infalibilidade eram anexos ilegítimos para a fé da antiga Igreja Católica. Os panfletos populares católicos que afirmavam que o Papa era uma espécie de oráculo (uma caricatura da autêntica crença católica) confirmaram minha rejeição da infalibilidade papal, assim definida. Durante aqueles seis anos, visitei inúmeras igrejas católicas em ambos lados do Atlântico. Encontrei as missas silenciosas e apressadas, o latim (quando eu conseguia ouvir) tão apressado e desfigurado que poderia ser chinês, um descenso nada atraente perto da reverente liturgia anglicana que eu amava, com plena participação da congregação, incluindo o canto fervente de hinos de que sinto saudades até hoje.

Eu sempre soube que o anglicanismo era uma castelo de naipes teológicos. Mas era “minha” casa. Foi onde Deus me colocou. Você não precisa sair do lugar que Deus te atribuiu sem muitas razões sérias. Fazê-lo tornou-se uma única possibilidade quando descobri, durante uma grande viagem à Europa em 1959, que a Igreja Católica tinha um rosto diferente do único que conheci, nos Estados Unidos. Isso me lançou a um período atormentado de estudo e reflexão, acompanhado de grandes orações diárias. Durante cerca de um ano, as perguntas sobre a Igreja, e meu dever de consciência, não estiveram fora da minha mente mais de duas horas enquanto estava acordado.

Minha decisão final, na Páscoa de 1960, de deixar a Igreja Anglicana, a qual amava, e entrar em um mundo alheio, que tinha pouco atrativo para mim, foi a coisa mais difícil que tinha feito. Olhando para trás anos mais tarde, reconheci que era o melhor que tinha feito.

Me tornei um pastor por uma simples razão: para que eu pudesse celebrar a missa. Fazê-lo foi maravilhoso pela primeira vez, isso faz quase 56 anos. É, além de tudo, ainda mais maravilhoso hoje. Celebrar a Missa e alimentar o santo povo de Deus com o pão de sua vida é um privilégio que supera os méritos de qualquer homem. Para me preparar, a minha prática há anos tem sido usada em silêncio por meia hora meditando sobre o que Deus disse a Moisés na sarça ardente “descalça-te porque o lugar que pisas é santo” (Exôdo 3, 5).

O sacerdócio tem outras gratificações também, como a alegria de pregar o Evangelho, alimentar ao povo de Deus na mesa de sua Palavra. Um hino evangélico define a tarefa do sacerdote, como segue: “Conte-me a antiga história / de Jesus e seu amor”. O Evangelho de João coloca mais brevemente: “Senhor, queremos ver Jesus” (Jo 12, 21). Sua história, e as palavras de Jesus, nos levantam quando estamos deprimidos, advertem-nos quando extraviamos e enchem nossas bocas de risos e nossas línguas de alegria (usando as palavras do salmista) à noite, quando o amor de Deus nos cobre.

É também a alegria do ministério pastoral. Como tantos sacerdotes, tenho testemunhado os milagres da graça de Deus nas pessoas às quais me dedico. Faz menos de 10 anos, um homem veio ao meu confessionário ferido por um casamento fracassado. Ele era católico só no Natal e na Páscoa, hoje comunga todos os dias e se confessa com frequência. Cada sacerdote tem histórias como esta, muitas delas mais dramáticas.

Foi feliz cada um dos meus quase 56 anos de sacerdócio? Claro que não. Isso não acontece em nenhuma vida. Uma viúva falava das pessoas casadas quando me disse “padre, quando um casal sobe no altar no dia de seu casamento, não vê a Via Crucis”.

O sacerdócio me trouxe sofrimento e alegria. Durante 7 anos, estive sem atribuição e literalmente desempregado. Sujeito a um bispo alemão, residente em San Luis, era como um oficial do Exército que foi separado de seu regimento. O sistema clerical não sabia o que fazer comigo. A Igreja pela qual havia sacrificado tudo, parecia não me querer. Sobrevivi somente com a oração. A todos que me perguntam se eu nunca lamentei minha escolha do sacerdócio, eu imediatamente respondo honestamente: “Nunca, nem um único dia”.

Escrevendo em abril de 2005 a meu ex-professor Joseph Ratzinger, durante meus estudos de doutorado em Münster, Alemanha, para expressar minha alegria por sua eleição como Papa, e lhe assegurar minhas orações, acabei a carta assim “Na alegria de nosso comum sacerdócio”. O que mais se pode dizer? Desde os 12 anos, o sacerdócio tem sido tudo o que sempre quis. Se eu tivesse de morrer amanhã, morreria como um homem feliz.

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Sacerdote da arquidiocese de San Luis e historiador da Igreja, padre Jay Hughes é autor de 12 livros e centenas de artigos. Este artigo é um extrato de suas memórias "No Ordinary Fool: a Testimony to Grace" (Editorial Tate): a história de sua difícil viagem para a Igreja Católica, e a história de um homem que, quase 56 anos depois da ordenação, está ainda apaixonado pelo sacerdócio. É possível contatá-lo pelo e-mail: jaystl@sbcglobal.net.