Aproximar-se da Escritura com confiança e respeito

Um diálogo com o estudioso bíblico Juan Miguel Díaz Rodelas

Roma, (Zenit.org) Jose Antonio Varela Vidal | 663 visitas

Dias atrás houve uma grande reunião da Comissão Pontifícia Bíblica no Vaticano. O motivo foi refletir entre todos os seus membros sobre as bases que inspiram a Bíblia.

Entre os participantes esteve o padre espanhol Juan Miguel Díaz Rodelas, professor de Sagrada Escritura e decano da Faculdade de Teologia de Valência, que também é membro da Pontifícia Comissão Bíblica desde 2008. ZENIT conversou com ele durante uma pausa do evento.

ZENIT: Como foram os trabalhos durante a reunião?

- Padre Díaz Rodelas: É uma continuação das anteriores. De alguma forma é o ponto de chegada de quatro anos. Trabalhou-se sobre um texto possível no qual estavam as possibilidades de mudança; depois houve a discussão para aceitá-los ou rejeitá-los.

ZENIT: O tema foi "A inspiração na Bíblia" ... Por que isso a torna tão especial?

- Padre Díaz Rodelas: A partir da nossa perspectiva de crentes - e aqui deve-se incluir todos os cristãos e o mundo judaico - , a Bíblia não é um livro de literatura que contém informação histórica; embora nem sequer exclusivamente religioso. De qualquer forma, Deus se comprometeu na sua composição inspirando os seus autores por meio do Espírito. Isto é algo essencial que temos que ter em conta no momento de ler e interpretar a Bíblia.

ZENIT: Por que há essa tendência de "livre interpretação" de alguns estudiosos da Bíblia?

- Padre Díaz Rodelas: Há um lado positivo nessa pluralidade de interpretações, que se fundamentam nos mesmos evangelhos – só mencionar estes livros; e é que às vezes de um mesmo fato, temos visões dificilmente concordes. Vê-se que são leituras muito diferentes de um mesmo fato. A dificuldade chega quando a conclusão à qual se chega é contrária ao sentir comum da Igreja. Nesse caso a interpretação não serve ao que deve ser o seu grande objetivo, que é ajudar a fé do povo cristão.

ZENIT: Precisamente, há outros que querem ficar apenas com a parte “histórica” dos evangelhos. Como isso é possível?

- Padre Díaz Rodelas: Metodologicamente, e a partir de um ponto de vista teórico, pode-se imaginar um trabalho que a partir dos Evangelhos estude a dimensão estritamente histórica. Mas precisamente por causa do que falava antes, e dado que os evangelhos são livros inspirados e estão impregnados pela fé da comunidade, é muito importante tê-lo em consideração. Bento XVI falava do Jesus real e esse é o que nos oferecem os evangelhos; o outro é uma parte de Jesus, mas não é “todo o Jesus” dos evangelhos e do fiel.

ZENIT: Por que o fiel, o católico, não está tão familiarizado com a Bíblia, e até mantém uma distância?

- Padre Díaz Rodelas: A história tem as suas conseqüências. Sabe-se que, devido à Reforma Protestante, com a livre interpretação das Escrituras, a Igreja Católica limitou o acesso do fiel comum à leitura da Bíblia nas línguas vernáculas. Esta decisão criou uma certa distância do católico comum com a Sagrada Escritura. Por isso está custando muito que o católico faça da Bíblia um ponto de referência essencial na sua vida religiosa; mas já se tem caminhado muito.

ZENIT: Para aqueles que trabalham com leigos, ou em grupos de paróquias, qual seria a sua sugestão para que este encontro com a Bíblia seja retomado com maior confiança?

- Padre Díaz Rodelas: Bem, começar a lê-la com um pouco de pedagogia. Não parece apropriado começar com os livros mais difíceis da Bíblia, mais técnicos em certo sentido; nem mesmo começar seguindo a ordem que aparece, como se fosse um romance ou um livro de história. É preciso fazer uma leitura pedagógica... 

ZENIT: Como é isso?

- Padre Díaz Rodelas: sugiro começar com o gênesis, o Êxodo, os livros dos profetas, os evangelhos e depois ir para os livros mais “difíceis”. Mas, isso é só uma pedagogia da leitura. Aqui o importante é confiar que a leitura está sendo levada pelo Espírito, se é que se faz desde a fé e num ambiente de fé, tanto pessoalmente como em grupo. Mas não precisa esquecer que os livros bíblicos foram escritos há milhares de anos, e é preciso fazer um esforço mínimo de leitura, servindo-se de algumas ajudas, como introduções simples, que existem.

ZENIT: Voltando ao evento, como foi a participação, de onde procedem os membros da Comissão Bíblica?

- Padre Díaz Rodelas: Os 21 membros são professores que procedem de todo o mundo, com certa predominância de europeus, ainda que há vários sul-americanos, norte-americanos, brasileiros... Também há um irmão da Nigéria, um coreano, um índio. É muito rica a composição.

ZENIT: Quais são as experiências que se desenvolvem com mais força?

- Padre Díaz Rodelas: Nas discussões foram contemplados determinados interesses, e nas Igrejas mais jovens da Ásia e da América Latina nota-se um forte interesse pela atualização da Palavra de Deus. Justamente o papa Bento XVI enfatizou que a Palavra de Deus é palavra atual para o fiel de hoje; sem esquecer isso, poder-se-ia dizer que os europeus estejamos mais preocupados pelo aspecto acadêmico, intelectual.

ZENIT: Qual a causa, na sua opinião, de que Europa não se preocupe tanto pela atualização da Palavra de Deus para os momentos atuais?

- Padre Díaz Rodelas: Acho que é mais questão de acentos. Porque, em última instância, o que a exegese europeia pretende é também entender melhor a Palavra de Deus, para que seja isso: “palavra de Deus” para o homem e a mulher de hoje. É verdade que essa preocupação está menos midiatizada no biblista latino-americano ou asiático, que, por outro lado, estão muito bem preparados tecnicamente. Repito, o objetivo de uns e outros é o mesmo. Eu falava de acento, de sublinhados, contribuições.

ZENIT: Você já leu a Bíblia inteira? ...

- Padre Díaz Rodelas: Sim, tive que ler várias vezes um livro após o outro, quando fizemos a tradução da Conferência Episcopal Espanhola ...

ZENIT: Que livros você recomendaria para uma leitura especializada a nível pessoal?

- Padre Díaz Rodelas: Por exemplo, o livro do Êxodo, o livro de Jeremias, o Evangelho de São Marcos; o primeiro facilita o reencontro com o grande acontecimento da libertação de Israel; o de Jeremias é, como no geral os livros proféticos, é chamada a uma fé e a um culto a Deus que se traduza na vida. E finalmente o encontro com Jesus que deve ser permanente, e que no evangelho de Marcos se revela de um modo muito particular.

ZENIT: E para os mais simples... como vocês os incentivaria a aproximar-se?

- Padre Díaz Rodelas: Eu lhes diria que não tenham medo da Bíblia, que é palavra de Deus para todos. Às vezes, nós especialistas, sacerdotes ou catequistas, complicamos um pouco, mesmo com a boa intenção de explicar melhor... Mas o fato é que Deus vem ao encontro da pessoa fiel quando pega a Bíblia nas suas mãos e a lê. E alimentar essa confiança é uma maneira de entrar na riqueza da Bíblia. Também recomendaria sempre pedir o Espírito Santo ao ler as Escrituras.

[Tradução do original espanhol por Thácio Siqueira]