Arcebispo turco pede “verdade sobre martírio de Dom Padovese”

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PARMA, segunda-feira, 14 de junho de 2010 (ZENIT.org) – A versão do motorista desequilibrado “é uma mentira piedosa”; a Igreja turca quer “saber a verdade” sobre o assassinato de Dom Padovese: estas são declarações do arcebispo de Esmirna, Dom Ruggero Franceschini, à agência Asianews.

O prelado se encontra na Itália para o funeral de Dom Lugi Padovese, assassinado na Turquia dia 3 de junho, na véspera da viagem do Papa a Chipre.

Em uma entrevista feita pelo diretor da Asianews, Bernardo Cervellera, Dom Franceschini confirma a hipótese, lançada desde o primeiro momento por essa agência, que colocava em questão a primeira versão dada pelas autoridades sobre a insanidade como motivação do crime.

Dom Ruggero Franceschini pede que o governo turco investigue e, sobretudo, pede apoio da Igreja universal para os cristãos na Turquia. Também afirma que o crime poderia ser devido a questões políticas. Por seu indubitável interesse, oferecemos o conteúdo da entrevista.

Excelência, após o martírio de Dom Luigi Padovese, como está a Igreja na Turquia?

Dom Franceschini: Com certeza está frustrada, triste, porém unida. No funeral de Dom Padovese, celebrado na catedral de Alexandreta (Iskenderun, em turco), dia 7 de junho, estavam presentes vários bispos. Próximo de mim estava o bispo auxiliar dos armênios. Não conseguimos que dissesse sequer uma palavra: estava arrasado. É uma reação do choque pela morte. O vigário dos caldeus não veio, ainda assim havia muitos sacerdotes caldeus. Estava também um bispo dos sírio-ortodoxos. Todos estavam frustrados e arrasados. No rosto deste armênio era possível ler: “a história continua”, talvez pensando no que aconteceu aos armênios com o genocídio do século XX.

Nem os latinos estavam conformados. Contudo, vivemos um bonito momento de unidade. E não nos rendemos, tentamos manter em sua rota este barco da Igreja. Ao funeral vieram também todas as autoridades civis da província.

Como é visto pelo senhor o assassinato do vigário de Anatólia?

Dom Franceschini: Sobre o assassinato de Dom Padovese, o que nós buscamos antes de tudo é a verdade. No dia anterior ao funeral, chegaram a Alexandreta o ministro da Justiça e o juiz delegado do processo do assassinato. O juiz não disse uma palavra. Pediram para falar comigo em uma sala reservada, e lá lhes disse: “queremos toda a verdade, mas não só a verdade. Não queremos outras mentiras: que eram muitos, que eram poucos, que foi passional. Não devemos esconder nada”.

Eu acredito, a respeito desse assassinato, que tem um elemento tão explicitamente religioso, islâmico, que estamos frente a algo que vai além do governo; vai muito além, havia grupos nostálgicos, talvez anarquistas, que queriam desestabilizar o governo.

A própria modalidade com a qual aconteceu a morte serve para manipular a opinião pública. Após ter matado o bispo, o jovem Murat Altun gritou: “Matei o grande satanás. Allah Akbar”. Mas isso é verdadeiramente estranho. Murat nunca disse essas frases violentas. Eu o conhecia desde pelo menos 10 anos. Fui eu quem o trouxe para trabalhar para a Igreja. E nunca havia se expressado desta forma. Não era um muçulmano praticamente. Era um jovem que tinha uma cultura cristã, sem ser cristão. Nem ele nem seu pai eram pessoas hostis conosco. Na minha opinião foram instrumentos nas mãos de outros.

O uso do ritual islâmico serve para desviar as interpretações: é como sugerir que a pista é religiosa e não política. Além disso, forçando a interpretação religiosa, de um conflito entre o islã e os cristãos, foi possível inflamar a opinião pública no âmbito que nós pouco acreditados e não temos força nenhuma. Entretando, até o primeiro-ministro Erdogan tem seus apoios mais fortes não no islã radical, mas no moderado. E tenho temor de que já não tenha nem sequer este.

Murat Altun falou também da homossexualidade do bispo e disse estar “deprimido e instável”...

Dom Franceschini: O assassino “confessou” também a pista sexual, dizendo que Dom Padovese lhe pagava por “serviços”. Mas também está é uma pista que serve para confundir. E também não acreditamos na típica ligeira mentira de que Murat estava mentalmente doente e era um fanático. Não era nem uma coisa nem outra. Dias antes tentou se fazer passar por louco, mas os médicos lhe disseram que não retornaria às consultas porque estava mentalmente sadio. Imagino que tiveram bons advogados como conselheiros para preparar estes álibis e fazer que se fosse condenado e que pudesse “escapar” só com uma indicação de condenação de alguns anos.

Alguns pensam que com estes atos de violência a Turquia não deveria entrar na Europa...

Dom Franceschini: Certamente na motivação desse crime, tão bem estruturado, está o desejo de certo setor da sociedade turca que não quer entrar para formar parte da Europa, e não quer nenhuma novidade. Esperamos que esta morte, no lugar de afastar-nos, que nos aproxime ainda mais da Europa. Em contrapartida, esperamos que nossa amizade se estenda a outros países europeus, para colaborar em nosso bem-estar, dado que atualmente a Turquia foi convertida em um grande país.

Como vive a pequena Igreja na Turquia?

Dom Franceschini: A Igreja na Turquia não é pequena, mas é muito variada em suas diversas confissões, ainda que nestes últimos tempos aprendemos a nos querer bem. Nos funerais de Dom Padovese estavam todos:  latinos, armênios, católicos, ortodoxos, sírios-ortodoxos, caldeus. Cada confissão fez uma oração diante do caixão.

Necessitaríamos sentir-nos ainda mais unidos a Roma. Isso é afirmado também pelos ortodoxos, que cada vez mais olham para Roma. Nos sentimos um pouco abandonados. É verdade que agora será celebrado o Sínodo para as Igrejas do Oriente Médio, que deveria servir também para fazer amadurecer a solidariedade entre nós e a Igreja universal. Esperamos que seja assim: que o documento do Sínodo não seja só um documento cultural, que deixe as coisas como as encontra. Algo deve mudar.

Se na Turquia não estivéssemos nós, os capuchinhos, algum dominicano e alguma outra ordem religiosa, não haveria sacerdotes. Em Esmirna há só um sacerdote local, que eu ordenei. Os demais preferem ir para o estrangeiro, onde são mais livres. Eles não têm uma mentalidade de serviço e de missão.

O que pede à Igreja italiana e universal?

Dom Franceschini: Antes de tudo a oração, mas uma oração consciente do que está em jogo, ao que não queremos renunciar apesar das dificuldades: aqui nasceu a comunidade cristã e aqui aconteceram os primeiros concílios, e não podemos abandonar estes lugares. É necessária uma solidariedade não só proclamada, mas ativa. Cada ano necessitamos de ajudas para recuperar alguma igreja, e não sabemos como fazer. Depois, é necessário comprar uma moradia para que o sacerdote possa residir, uma para que vivam as monjas, e logo é necessário que tenham leigos e sacerdotes que venham para viver conosco.

Infelizmente, todos os institutos femininos, quando percebem que, vindo para a Turquia, não podem abrir uma casa para acolher vocações, decidem deixar de vir. Mas ainda que haja dificuldades para a liberdade religiosa, o trabalho é muito. Na Turquia não há liberdade para proclamar o Evangelho nas praças, não há liberdade para abrir seminários, ou para construir novas igrejas, mas podemos trabalhar em nossas paróquias já fundadas, encontrar as pessoas, transformar nossos salões em igrejas...

Quais são as necessidades mais urgentes?

Dom Franceschini: Sustentar nossas escolas. Na Turquia, temos algumas escolas ainda abertas, graças a licenças antigas, da época anterior a Ataturk. No passado estas escolas eram as melhores da Turquia, agora sobrevivem dificilmente. Mas tentamos valorizá-las para salvar nossos jovens, que nas escolas estatais são muito mal tratados.

Infelizmente, os Irmãos das Escolas Cristãs se retiraram. No campo educativo ficaram somente as Irmãs de Ivrea, mas são muito idosas. São necessários professores, voluntários durante dois ou três anos. Deveriam vir ainda que não pudessem abrir uma casa para acolher vocações. É importante ir à Turquia para doar, não para acumular. Temos de aprender a dar algo para Jesus, sem pedir sempre algo em troca.

Entretanto, é difícil, mas não impossível, fazer que nasçam vocações, sobretudo masculinas. Até agora conseguimos ordenar dois sacerdotes. Mas estas vocações vieram do estrangeiro, pelo motivo de aprender a língua turca, que não é fácil, são necessárias vocações locais.

Para melhorar nossa comunicação com a Igreja, estamos preparando um site na internet vinculado a uma ONG que estará pronto dentro de um ano.