Argélia - Não são os números que fazem uma Igreja

Entrevista com o Arcebispo da Argélia, monsenhor Ghaleb Moussa Abdalah Bader

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ROMA, sábado, 19 de novembro de 2011 (ZENIT.org) - Em colaboração com a Ajuda à Igreja que Sofre, Mark Riedemann entrevistou para a Where God Weeps, o arcebispo da Argélia, monsenhor Ghaleb Moussa Abdalah Bader, natural da Jordânia.

O senhor é o primeiro arcebispo árabe a chegar à Argélia, após uma geração de hierarquia francesa. As pessoas perceberam que o senhor entenderia melhor a cultura?

Bader: Era a intenção da Igreja, um sinal de respeito para com este país árabe. A nomeação de um árabe após um período de franceses foi uma resposta às mudanças já em curso nesta igreja. Sim, a Igreja estava, durante um período, submetida aos franceses, mas os franceses são agora uma minoria, dos quais 40% são africanos, estudantes ou imigrantes e os outros são cristãos da Europa, América Latina e da América do Norte.

Qual foi a reação do governo local?

Bader: Fui bem recebido na minha chegada na Argélia e inclusive o presidente enviou um representante. Foi a primeira vez que o presidente ou seu representante esteve presente para saudar o novo arcebispo. Eu particularmente senti um grande amor e um sentimento de bem-vindo a um árabe pelo povo. Tenho sido chamado de "nosso arcebispo" e até mesmo os muçulmanos me chamam de arcebispo deles.

O ex-arcebispo da Argélia, Dom Henri Tessier, foi citado em um artigo no The New York Timesdizendo que ele tinha testemunhado a "morte lenta de uma Igreja." Esta é a situação da Igreja na Argélia hoje? 

Bader: Precisamos entender de onde vem o Mons. Tessier. Ele passou de70 a75 anos na Argélia. Ele era um seminarista e foi ordenado na Argélia. Foi um cidadão argelino, e tinha um passaporte argelino. Ele conhecia a história da Igreja da Argélia. Quando ele era um seminarista havia dois milhões de cristãos na Argélia, e este número caiu agora para alguns milhares de cristãos. Este é o contexto de sua declaração e posso entender quando ele falou da morte desta Igreja. No entanto, a Igreja será sempre a Igreja. E não depende de números. É a mesma Igreja, a mesma missão e estamos fazendo o mesmo trabalho. Quando cheguei essa era a realidade da Igreja. Eu aceito isso. Eu faço o meu trabalho e não falo de uma morte. A Igreja é viva, é presente e está fazendo o melhor para o bem-estar de seus fiéis e do país.

Na Argélia, cerca de 20 igrejas ainda estão ativas. Muitas foram convertidas em mesquitas ou centros culturais. O que o senhor acha?

Bader: Esta foi uma consequência do retorno dos cristãos na França depois da guerra. Existiam igrejas sem nenhum cristão. A Igreja não tinha a intenção de manter estas igrejas simplesmente porque elas eram igrejas. Foi uma ação da Igreja, aquilo de dar essas igrejas e edifícios para serem utilizados pela população. Cerca de duas ou três foram transformadasem mesquitas. Areação das autoridades foi de respeito: eles não permitiriam a conversão destas igrejas em mesquitas e é por isso que muitas destas que foram dadas às autoridades pela Igreja, se transformaram em centros culturais e bibliotecas, ou naquilo que era necessário. Li em algum lugar que cerca de 700 igrejas e outros edifícios foram devolvidos às autoridades argelinas e colocados à disposição deles em benefício da população.

A Argélia mudou de uma sociedade francesa - ou européia - para uma sociedade árabe, com foco no Oriente Médio. Este distanciamento da Europa é positivo ou negativo?

Bader: Isto está ligado com a relação histórica entre Argélia e França. Todas as decisões tomadas pela Argélia após a independência foram uma reação ao passado. Eles queriam ser livres do passado e se voltaram para uma cultura e para a língua árabe. No entanto, isso não é aceito por 100% da população e é por isso que 90% dos argelinos falam francês. Eu sou árabe, mas 99% das vezes eu falo com as pessoas em francês, então as mudanças mencionadas por você não aconteceram, pelo menos para a maioria dos argelinos. É verdade que as autoridades querem que a Argélia seja um país árabe e islâmico e por isso impuseram a língua árabe na educação.

Muitos conflitos do mundo árabe são vistos através do filtro do conflito israelense-palestino. Este é também o caso da Argélia?

Bader: É verdade, o conflito Israel-Palestina contamina as relações entre árabes e ocidentais, e entre cristãos e muçulmanos. Até que haja uma solução para este conflito, a desconfiança continuará. A solução pacífica para o conflito israelense-palestino iria ajudar muito a afastar a desconfiança entre os países árabes e ocidentais, e entre cristãos e muçulmanos. Portanto, apelo para uma solução justa para o conflito israelense-palestino. Será um benefício para toda a humanidade e não apenas para a região.

O ministro argelino dos Assuntos Religiosos, Ghulamallah, convidou o senhor para uma conferência para discutir sobre a liberdade religiosa. Durante seu discurso, o senhor falou da abolição de leis que restringem os cristãos...

Bader: O ministro dos Assuntos Religiosos, Ghulamallah, não só me convidou, mas organizamos a conferência juntos. Ambos decidimos a quem convidaríamos e como organizaríamos o programa

Quer dizer que o seu relacionamento com o ministro dos Assuntos Religiosos é amigável...

Bader: Nós nos reunimos pelo menos uma vez por mês. Trocamos cumprimentos nos feriados religiosos cristãos e muçulmanos. Desde que cheguei, sempre tivemos boas relações. O problema agora é a lei de 2006 que restringe as práticas religiosas, as atividades ou o culto acontecem apenas dentro das igrejas. Para nós católicos não é um problema porque temos igrejas suficientes. O problema surge, porém, para os evangélicos e protestantes, que não têm locais de culto. E para nós católicos, quando queremos organizar atividades religiosas fora.

Como isso afeta a evangelização?

Bader: É a segunda parte desta lei de 2006, que estabelece que todas as nossas atividades - culto e oração - deverão acontecer somente dentro da Igreja. A evangelização e a conversão são proibidas. Quem violar esta lei é preso ou recebe uma multa de aproximadamente 2.000 euros. Durante a conferência, eu disse que a lei não poderia regulamentar o culto. Este não era o caso antes de 2006.

Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para Where God Weeps, um semanal de televisão e rádio produzido pelo Catholic Radio and Television Network, em parceria com a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

www.WhereGodWeeps.org

www.acn-intl.org


Tradução: Maria Emília Marega