Argélia: papel das escolas católicas no diálogo com Islã

Entrevista com Dom Henri Teissier, arcebispo emérito de Argel

| 1296 visitas

Por Mirko Testa e Roland Tannoury

JOUNIEH (Líbano), terça-feira, 22 de junho de 2010 (ZENIT.org) - Há países em que a amizade entre cristãos e muçulmanos pode nascer já nas carteiras das escolas. Este é o caso da Argélia, narrado por Dom Henri Teissier, que exerceu o cargo de arcebispo de Argel de 1998 a 2008.

Apóstolo da amizade em terras muçulmanas, Dom Teissier é testemunha por excelência da história deste Estado do Magreb. Ordenado pela diocese de Argel em 1955, o prelado, originário de Lion, na França, viveu na própria pele o capítulo obscuro da Guerra de Independência Argelina bem como os de seus primeiros anos de república, transpassada por intrigas político-militares que levaram muitos a abraçar a causa fundamentalista, precipitando o jovem país em uma brutal guerra civil.

Presente no encontro anual do comitê científico da Fundação Oasis - criada em 2004 pelo Patriarca de Veneza, cardeal Angelo Scola -, que se desenvolveu nos dias 21 e 22 de junho, em Jounieh, próximo à capital libanesa, o prelado concedeu uma breve entrevista a ZENIT, na qual dedicou algumas reflexões sobre o tema dos trabalhos desenvolvidos nestes dois dias: "A Educação entre fé e cultura. Experiências cristãs e muçulmanas em diálogo".

ZENIT: Quais as reflexões suscitadas pelo tema deste encontro?

Dom Henri Teissier: Tivemos a oportunidade de visitar a escola mantida pelas irmãs de Baalbek, que conta com mil alunos, dos quais 100 são cristãos e 900, muçulmanos. Contam ainda com 70 professores, 5 deles cristãos e os demais muçulmanos. Este é um claro exemplo do nosso comprometimento, no âmbito educacional, na colaboração que envolve diferenças de fé e de cultura, pois há, entre estes estudantes, crianças cristãs, sunitas e xiitas. Cada um destes grupos tem suas próprias referências religiosas e tradições.

ZENIT: Qual é a situação das escolas católicas na Argélia?

Dom Henri Teissier: Tivemos escolas que desempenharam um papel importante nas relações entre cristãos e muçulmanos, especialmente as escolas dos Padres Brancos e das Irmãs Brancas. A partir da independência do país, em 1962, todas as nossas escolas foram nacionalizadas. Ao final dos anos 70, contávamos com 45 mil alunos, e muitos pais ainda se lembram com emoção do que ocorreu com nossas instituições de ensino; estas foram, de fato, nacionalizadas, mas hoje temos outros tipos de colaborações no âmbito educacional.

ZENIT: Há hoje na Argélia uma divisão entre muçulmanos abertos ao diálogo e aqueles que o rejeitam?

Dom Henri Teissier: Naturalmente, há diferentes correntes, mas, no que se refere à educação, darei um exemplo: temos um revista, dedicada ao público feminino, já com 22 anos de existência, criada em conjunto por mulheres cristãs e muçulmanas que trabalham juntas na redação, distribuída pela Cruz Vermelha da Argélia. Um fato como este demonstra que, nesta terra, há confiança suficiente para que seja possível articular ações de formação de meninas e mulheres em nível nacional.

ZENIT: Quais são suas reflexões a respeito do Instrumentum laboris para o próximo Sínodo especial para o Oriente Médio?

Dom Henri Teissier: No norte da África, acolhemos com grande alegria a notícia de que o Santo Padre havia decidido nos reunir. Já havíamos participado do Sínodo africano, em outubro passado. Tratava-se do segundo Sínodo para a África, e conhecíamos todos os temas comuns com as Igrejas da África Subsaariana. Pareceu-me apropriado que a Igreja buscasse também avaliar os problemas específicos vividos pelos cristãos no mundo árabe, a começar pelo Oriente Médio. E também nós, cristãos do Magreb, fomos convidados a participar.