Arquitetura sagrada: beleza conduz a Cristo

Entrevista com o prof. Gabriel Frade

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Por Alexandre Ribeiro

SÃO PAULO, domingo, 22 de junho de 2008 (ZENIT.org).- «Apresentar uma bela arquitetura, em termos de igreja, é dar um passo seguro na direção do coração do homem. É apresentar-lhe diretamente o evangelho através do belo», afirma um estudioso brasileiro.

Nesta entrevista a Zenit, o prof. Gabriel Frade fala sobre arquitetura sagrada, tema sobre o qual ministrará um curso no dia 12 de julho, no Páteo do Collegio, em São Paulo.

Gabriel Frade é natural de Itaquaquecetuba (São Paulo). É leigo, casado, pai de três filhos, estudou filosofia e teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma) e na Faculdade de Teologia de Lugano (Suíça). Em 2006 obteve o título de mestre em liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (São Paulo). É autor do livro “Arquitetura Sagrada no Brasil” (Ed. Loyola) e atualmente ensina liturgia no Instituto Filosófico e Teológico Santa Teresinha de São José dos Campos (São Paulo).

--O Brasil tem uma rica arquitetura sagrada, não? Poderia dar alguns exemplos?

--Gabriel Frade: Sem dúvida alguma. Temos belos exemplares espalhados por boa parte do Brasil. No período colonial, por exemplo, temos várias igrejas produzidas pela arquitetura jesuítica e pela arquitetura franciscana que, em geral, são belíssimas, marcadas normalmente por uma arquitetura despojada e simples, e, por isso mesmo muito bela. 

É claro também, que ao falar de arquitetura religiosa no Brasil o pensamento vai quase que obrigatoriamente para a arquitetura barroca das Minas Gerais, para o mestre Aleijadinho e suas obras como, por exemplo, os profetas do santuário de Congonhas do Campo ou a majestosa igreja de São Francisco. Obras conhecidas e apreciadas mundialmente. E por falar em São Francisco, ainda em Minas, temos uma outra igrejinha dedicada a esse grande santo e que marcou uma época na arquitetura brasileira: a igrejinha da Pampulha do Oscar Niemeyer. Ainda hoje essa igrejinha chama a atenção de turistas e de vários estudiosos brasileiros e estrangeiros. Enfim, temos numerosos exemplos na história brasileira de boa e bela arquitetura sagrada.

--Que é a beleza da arquitetura sagrada? Como ela ecoa no coração humano?

--Gabriel Frade: Veja, falar de beleza é falar de Deus. E Deus, assim como a beleza, normalmente se manifesta nas coisas simples, puras. Apresentar uma bela arquitetura, em termos de igreja, é dar um passo seguro na direção do coração do homem. É apresentar-lhe diretamente o evangelho através do belo. De fato, já o salmista dizia “Amo a beleza de tua Casa”, quase como se dissesse que a beleza ao se revelar, vai direto ao coração. Nesse sentido, tinha razão Dostoievsky, ao intuir que o caminho da beleza verdadeira é efetivamente o caminho que conduz à salvação do mundo; de modo que todo aquele que trilhar esse caminho haverá de encontrar-se com o Cristo, “o mais belo dentre os filhos de Adão”. 

A Igreja no Brasil precisa usar mais e melhor desse instrumento, apropriar-se da beleza na arquitetura de suas igrejas como uma forma de evangelização. Embora haja grandes e inegáveis avanços, infelizmente, devido a uma série de fatores, nem sempre isso tem sido possível. Creio que mais do que nunca temos que incorporar a intuição do grande Papa Paulo VI, o qual, há quase quarenta e cinco anos atrás, disse que era preciso pedir perdão aos artistas, pois a Igreja por vezes havia colocado uma capa de chumbo sobre os artistas e os havia abandonado, sem “explicar as nossas coisas”, sem introduzir os artistas “na cela secreta, onde os mistérios de Deus fazem pular o coração do homem de alegria, de esperança, de júbilo, de entusiasmo”. 

--A evolução teológico-litúrgica também imprime uma evolução da arquitetura sagrada?

--Gabriel Frade: Certamente. Esse é o cerne, o núcleo que queremos modestamente desenvolver em nossa palestra no Páteo do Collegio, em pleno centro histórico de São Paulo. Desconhecer a evolução teológico-litúrgica implica simplesmente em não se conseguir desenvolver plenamente todas as possibilidades disponíveis em arquitetura sagrada. Ainda hoje, corremos muito o risco de não “explicar nossas coisas” para os arquitetos, estes profissionais da arte de desenhar, projetar e construir igrejas. Ou pior: queremos substituí-los em nome de uma pretensa economia ou de idéias de gosto duvidoso.

--Há um empobrecimento da arquitetura sagrada hoje? Como você avalia isso?

--Gabriel Frade: Pois é, um dos resultados desse desconhecimento teológico-litúrgico (e do desconhecimento de nossa própria história enquanto Igreja) faz com que grande parte de nossas igrejas apresentem arquiteturas insípidas ou espalhafatosas, com seus espaços litúrgicos voltados quase que exclusivamente para o presbitério, esquecendo da existência da assembléia e não deixando visível o princípio postulado pelo Vaticano II que vê a Igreja, essencialmente, como Povo de Deus. Felizmente hoje há arquitetos e artistas que tentam reverter esse problema. Penso aqui aos meus amigos Cláudio Pastro, Irmã Laíde Sonda, Marco Aurélio Funchal, dentre outros.

--A beleza da arquitetura sagrada do passado pode inspirar os espaços litúrgicos atuais? Como resgatar e primar pela beleza nos espaços litúrgicos hoje?

--Gabriel Frade: Quando falamos de Igreja, não podemos esquecer que todo esse edifício espiritual se apóia em três pilares fundamentais: a Escritura, a Tradição e o Magistério. Assim sendo, esses três pontos não podem ser esquecidos ao se criar em arte e arquitetura cristãs, ao se construir o edifício material. Mais do que perceber uma limitação nesses pontos, os artistas e arquitetos de índole cristã deveriam perceber aí um estímulo à criatividade. Consta que Michelangelo, um dos maiores arquitetos e artistas da humanidade, conhecia muito bem as Sagradas Escrituras, tendo lido a bíblia inteira não poucas vezes. Sua obra magistral na Capela Sistina é um verdadeiro tratado teológico. Vê-se logo que para uma boa arquitetura sagrada não basta apenas boa vontade: há que se estudar, se informar, aprender com os antigos e, fundamentalmente, cultivar uma boa espiritualidade. 

Nesse sentido, lembro-me de uma igreja antiga que conheci em Stafarda, uma região da Itália setentrional. Ao pôr os pés na igreja, imediatamente fui colhido pela sua estranha beleza. Ao olhar atentamente para os detalhes descobri que não havia uma coluna ou um arco igual ao outro. Posteriormente, ao conversar com as pessoas do lugar, descobri que a igreja inteira fora projetada propositadamente pelos monges para que não apresentasse formas iguais, porém proporcionais. Pois para eles, assim como em um jardim, onde não se encontra um arbusto igual ao outro, todos louvam, à sua maneira e de forma harmônica, o seu Criador, também na arquitetura daquela igreja seria possível incorporar essa mesma harmonia. Através dessa intuição, os monges escreveram nas pedras da arquitetura de sua igreja as palavras de São Paulo, para quem a Igreja é um corpo e possui muitos membros; diversos entre si, mas sempre pertencentes ao mesmo e único corpo.

São essas intuições, aliadas à criatividade e à beleza, que poderão transformar o espaço de nossas igrejas em espaço diferente, em espaço redentor, onde o homem possa ter um encontro pessoal com seu Deus.