Arte e Moral

Ainda sobre a atualidade do decreto conciliar Inter merifica

Roma, (Zenit.org) Rodolfo Papa | 1264 visitas

Nesses dias me aconteceu de ler um livrinho, pequeno e fácil, escrito por Luigi Maria Epicoco, com o título Eu vejo a tua face. Arte e Liturgia, que oferece alguns pontos e reflexões estimulantes. No quinto capítulo que trata sobre a crise da arte em relação à Liturgia, encontra-se esta afirmação: «Hoje, quando falamos de crise, falamos particularmente da crise de comunicabilidade”. A arte, ao invés de introduzir ao Mistério, atrai a atenção só sobre si mesma, deixando o homem e o crente isolado a respeito do Mistério; uma arte que celebra a si mesma, que se volta só sobre si e que não se mostra mais como uma abertura que filtra o eterno no espaço e no tempo. A palavra de ordem é funcionalidade, não comunicabilidade. Assim, nasce uma arte cômoda e estéril. Ou, pior, a arte é só um pretexto para celebrar o artista, e assim se tornar um monumento a quem a cria. Em prática, um beco sem saída»[1]

O breve trecho é interessante porque, com simplicidade, coloca em evidência como alguns elementos constitutivos de teorias artísticas contemporâneas entraram prepotentemente ao interno da elaboração de soluções artísticas em âmbito litúrgico: a funcionalidade alcançou prevalência sobre a comunicabilidade; a comodidade foi escolhida não obstante a sua esterilidade; a celebração do artista substituiu a introdução ao Mistério. Efetivamente, os assim ditos "direitos da arte e do artista(frequente e simplesmente reduzidos ao direito de celebrar a si mesmos) se tornaram proeminentes até sobre a verdade de fé e sobre a liturgia. O Decreto Conciliar Inter Merifica, como já evidenciamos no artigo precedente desta rubrica (publicado em 12/02/13), acentua sobre este ponto, avisando sobre o perigo de tal posição, afirmando o dever de guardar-se das «doutrinas falsas em matéria de ética e de estética», porque a «primazia da ordem moral objetiva deve ser respeitada absolutamente por todos»[2]. Em outras palavras, a arte que se põe a serviço da liturgia, portanto, da verdade, do bem e do belo, deve colocar-se como escrava (serva humilde) e não como senhora; não deve reivindicar tais direitos que sufocam a "comunicação" das verdades de fé ou da beleza e a profundidade do Mistério, como também Epicoco coloca em evidência.

Em contrapartida, alguém afirma que não se pode não considerar os desenvolvimentos dos novos cenários das artes visuais na contemporaneidade, e que se não se deixar tocar por tais teorias estéticas e artísticas seria como impor uma atualização falhada à Igreja. Ou ainda, visto que a Igreja foi sempre servida, no curso dos séculos, por grandes artistas, é necessário que também hoje se utilize de artistas de fama internacional para realizarem as novas igrejas. De certo modo estas são legítimas e nobres preocupações, porém, se fundam sobre uma historiografia artística insuficiente, porque a Igreja não utilizou no curso dos séculos artistas não crentes ou absolutamente antieclesiásticos, como certas reconstruções pretenderiam. A este propósito precisaria reescrever muitos capítulos dos manuais de história da arte, que geram confusão justamente sobre estas delicadíssimas questões. A estas considerações historiográficas se poderiam somar argumentações de ordem iconológica, iconográfica, filosófica e teológica, para compreender a inoportunidade ou a impossibilidade de conjugar algumas teorias estéticas e artísticas com a Liturgia. Mas também se não quisesse empreender imediatamente tal estrada de estudo e reflexão para compreender os termos das questões bastaria a observância de um documento conciliar, oInter Merifica, que diz: «Dado que, não raras vezes, as controvérsias que surgem sobre este tema têm a sua origem em falsas doutrinas sobre ética e estética, o Concílio proclama que a primazia da ordem moral objetiva deve ser repeitada absolutamente por todos»[3]. Ou bastaria ler o Catecismo da Igreja Católica, que reforça tal conceito: «Os Bispos, por si ou por delegação, devem cuidar de promover a arte sacra, antiga e nova, sob todas as formas, e afastar, com o mesmo zelo religioso, da Liturgia e dos edifícios de culto, tudo aquilo que não se harmoniza com a verdade da fé e a autêntica beleza da arte sacra»[4].

A questão, porém, não é tão simples assim, porque muitas doutrinas falsas penetraram no pensamento católico e moldaram muitas pessoas de boa vontade. O erro teorético tem a característica de ser difuso e, portanto, pouco depois (uma ou duas gerações), pode ser confundido como bom, como verdadeiro, ou absolutamente constitutivo, legitimado na práxis, adquirido uma vez para sempre. Portanto, para algumas pessoas de boa fé pode se tornar muito difícil distinguir tudo aquilo que não se harmoniza com a verdade da fé e a autêntica beleza da arte sacra.

O dever desta rubrica "Reflexões sobre Arte" é particularmente refletir e fazer refletir sobre as questões da arte em geral e sobre as da arte cristã, para evitar que tudo seja tido como correto e, portanto, mediante o estudo de cada elemento, detectar quais são as doutrinas falsas e as historiografias ideológicas que valorizam tais doutrinas.

Se for verdade que há sempre um percurso de desenvolvimento nas coisas do homem, e, portanto também na arte, não se pode deixar de discernir as várias mudanças, pondo tudo sobre uma idêntica linha de continuidade[5]. De fato, quanto intercorrem no tempo uma ou mais revoluções, como o próprio termo diz, tudo se revolta, é devastado, invertido, de fato acontece voluntariamente uma descontinuidade, uma ruptura na transmissão da tradição; antes, em geral é particularmente a vontade de não estar em continuidade com o passado a caracterizar uma revolução. Porém, às vezes este instrumento conceitual é usado de modo ambíguo; tanto é que, curiosamente, certas passagens epocais na história da arte são definidas como revolucionárias e, no entanto, são fundadas sobre voluntária continuidade, sobre inovações sem rupturas (por exemplo, a passagem do Gótico ao Renascimento ou do Maneirismo ao Protobarroco); e frequentemente buscam nas verdadeiras revoluções, precursores ou antecedentes ilustres cometendo, simplesmente, erros banais de anacronismo, sobre base de transitórias assonâncias formais.

Tanto que o Renascimento é considerado um movimento neopagão de ruptura (enquanto é um vértice maduro do percurso precedente) e, paralelamente, se apresenta como um movimento de continuidade à introdução de tribalismos anticristãos nas estéticas entre 1800 e 1900, e acima de tudo está a fascinação do progresso tecnológico e econômico que faz aceitar como iniludível e insuperável a condição pós moderna de fragmentação e apofaticidade do homem contemporâneo.

Mas o nosso dever é o de estudar e aprofundar todos os aspectos históricos, teoréticos, antropológicos e filosóficos da arte para compreender que há realmente uma arte verdadeira e bela como o Catecismo da Igreja Católica indica: «a arte sacra é verdadeira e bela, quando, na sua forma, corresponde à vocação que lhe é própria: evocar e glorificar, na fé e na adoração, o mistério transcendente de Deus»[6]

O artista que quer servir a Igreja não deve colocar-se a no centro da ação artística, mas deve fazer-se instrumento humilde, capaz de servir a verdade e a beleza, sem fazer-se instruir por aquilo que o mundo contemporâneo diz às nossas costas, porque somente colocando Cristo no centro, poderemos superar esta época de crise.

Rodolfo Papa é Especialista no XIII Sínodo do Obiscopos, professor de História das teorias estéticas na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma, Artista, Acadêmico Pontifício. Website: www.rodolfopapa.it Blog: http://rodolfopapa.blogspot.com e-mail:rodolfo_papa@infinito.it.

[1] EPICOCO, L.M. Io vedo il tuo volto. Arte e Liturgia. Ed TAU, Todi, 2011, pg 40-41.

[2] Inter Merficia, 6

[3] IM, 6

[4] CIC, 2503

[5] Sobre tais questões Cfr. PAPA, R. Discorsi sull'arte sacra,  Cantagalli, 2012.

[6] CIC, 2502.