As estruturas políticas e económicas precisam de ser mobilizadas por essa mística da paz

Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo na solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, Dia Mundial da Paz

Lisboa, (Zenit.org) | 896 visitas

Apresentamos a seguir a homilia do cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo na missa da solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, Dia Mundial da Paz, realizada na Paróquia de Rio de Mouro.

“A Mística da Paz”

1. Neste Dia Mundial da Paz o Santo Padre Bento XVI dirigiu à Igreja uma Mensagem, forte e profunda, que ilumina com o dinamismo cristão da paz as diversas situações concretas da sociedade atual e, de modo especial, as sociedades europeias, a atravessarem uma profunda crise de civilização. Seria importante que todos os cristãos e todos os homens que procuram a Paz, pudessem ler essa Mensagem. Neste contexto o papel de uma Homilia só pode ser o de apontar as principais linhas de força dessa Mensagem, lançando luz sobre os problemas e situações que também a nossa sociedade está a atravessar. Num ano em que a União Europeia foi distinguida com o Prémio Nobel da Paz, sublinhando o seu papel positivo na manutenção e construção da paz, depois do drama da Segunda Guerra Mundial, o Santo Padre desafia a Europa a interrogar-se se a paz que conseguiu manter é a paz perfeita ou se não há um longo caminho, nunca completamente percorrido, para a edificação de uma paz verdadeira, em que os Povos, como membros de uma grande família, sintam a grandeza da dignidade da pessoa, onde a experiência comunitária levará à experiência do amor e da comunhão.

Bento XVI intitulou a sua Mensagem com uma das bem-aventuranças da Montanha: “Bem-aventurados os obreiros da Paz”. O texto evangélico acrescenta: “porque serão chamados filhos de Deus” (Mt. 5,9). E lembra que, na mensagem bíblica, as bem-aventuranças são promessas. Não são meras recomendações morais, “mas consistem sobretudo no cumprimento de uma promessa feita a quantos se deixam guiar pelas exigências da verdade, da justiça e do amor” (1).

Esta promessa, que feita no contexto do anúncio do Reino de Deus, toca profundamente o coração de todos os homens, mostra a paz como um caminho a fazer, que só atingirá a sua plenitude no Reino dos Céus. “Em cada pessoa – diz o Papa – o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anseio por uma vida humana plena, feliz e bem sucedida. Por outras palavras, o desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, que faz parte dos desígnios de Deus para o homem” (2). A busca da paz coincide, assim, com a luta pela realização da plenitude humana, é um caminho que supõe uma verdadeira mística da paz, enraizada na cultura e concretizada nas opções práticas para a vida das comunidades humanas. A generosidade pessoal, a organização da sociedade, as estruturas políticas e económicas precisam de ser mobilizadas por essa mística da paz.

Uma conceção imperfeita de paz pode enfraquecer a exigência desta mística da paz, como ideal de humanidade. Há 50 anos o Concílio Vaticano II lembrava: “A paz não é só a ausência de guerra e não se limita a procurar o equilíbrio entre forças contrárias… ela é «obra de justiça», lembrando que “a paz não é realidade adquirida uma vez por todas, mas algo a construir sem cessar»” (3). É um ideal de humanidade, que os cristãos partilham com todos os homens e que exige o empenhamento de todos.

O Santo Padre recorda as principais concretizações desta construção da paz como “obra de justiça”.

2. A paz é uma experiência de comunhão.

Citando João XXIII, o atual Papa recorda: “A paz implica principalmente a construção de uma convivência humana baseada na verdade, na liberdade, no amor e na justiça” (4). Faz parte da verdade profunda do homem, encontrar a sua realização na comunhão com os outros homens. A paz é, assim, vitória sobre o individualismo e os egoísmos, busca, antes de mais, o bem-comum de toda a comunidade. Bento XVI é claro: “A ética da paz é uma ética de comunhão e de partilha. Por isso é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e éticas fundadas sobre motivos teórico-práticos meramente subjetivistas e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins e vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na eficiência” (5).

Sem este objetivo de construção da comunhão, em comunidade, perde-se o sentido da prioridade do bem-comum, da comunidade em todos os seus níveis: mundial, europeia, nacional, local, familiar. É preciso denunciar, com lucidez e coragem, os erros sociais e políticos em sociedades que não dão prioridade ao bem-comum. O Papa afirma: causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado” (6).

Esta paz edificada com generosidade, centrada no amor fraterno, é “dom messiânico e obra humana”, isto é, é esforço da liberdade apoiada pela fé e pela força de Deus. O Santo Padre recorda-o: “Para nos tornarmos autênticos obreiros da paz, são fundamentais a atenção à dimensão transcendente e o diálogo constante com Deus, Pai misericordioso, pelo Qual se implora a redenção que nos foi conquistada pelo seu Filho Unigénito. Assim o homem pode vencer aquele gérmen de obscurecimento e negação da paz que é o pecado em todas as suas formas: egoísmo e violência, avidez e desejo de poder e domínio, intolerância, ódio e estruturas injustas” (7).

3. Obra de liberdade, a paz é um dom de Deus.

É esta certeza que nos permite acreditar, em todas as circunstâncias, que a paz é possível. Ela é a aventura do amor que nos foi comunicado pelo Espírito de Jesus. A paz … na novidade humana enraizada na Páscoa de Jesus: “A Paz é uma ordem vivificada e integrada pelo amor”, Cristo é a nossa paz. É preciso, é urgente, anunciar de novo e por caminhos novos, a importância de Jesus Cristo para o futuro da humanidade (8). Esta dimensão transcendente da paz está no centro da revelação bíblica, como escutámos na Primeira Leitura desta celebração: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te seja favorável. O Senhor dirija sobre ti o Seu olhar e te conceda a paz” (Num. 24-26). “O Senhor dá força ao seu Povo; o Senhor abençoará o seu Povo na paz”, reza o Salmo 29). Nas nossas sociedades europeias é urgente voltar a valorizar a sabedoria contida na religião, constitutiva de um quadro cultural que favorece e exige uma mística da paz.

4. Se não tivermos medo de Deus e da sua intervenção na história a favor dos homens, se não nos deixarmos embriagar pela total autonomia do homem e do seu poder na construção da paz, poderemos encontrar em conjunto os verdadeiros pilares da construção da justiça e da paz.

* A promoção e defesa intransigente da dignidade da pessoa humana, a promoção da vida em todas as suas etapas e vicissitudes, a defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana para que possa construir a sua dignidade, entre os quais está o direito ao trabalho (9).

* Os próprios modelos económicos e políticos de organização da sociedade têm de visar esta construção da paz como obra de justiça (10).

* Fortalecer a Família. O Santo Padre afirma: “A família é um dos sujeitos sociais indispensáveis para a realização de uma cultura de paz” (11). Somos um País a lutar corajosamente para vencer um período difícil da nossa história. Mas olhemos corajosamente para o que está a acontecer às famílias: leis permissivas que não valorizam o aprofundamento dos seus valores constitutivos; leis fiscais que penalizam a família; a incapacidade de evitar que o drama do desemprego se abata sobre as famílias; a diminuição da natalidade, que põe em causa o futuro da comunidade humana que pretendemos salvar. Para quando uma política de proteção à família?

5. Uma pedagogia para a paz.

O Santo Padre, na sua Mensagem, alerta-nos para a urgência de uma pedagogia da paz. A sua primeira expressão é cultural. Todos os agentes culturais, as universidades e as escolas, os “média”, a Igreja, devem contribuir para uma transformação cultural que promova a verdadeira paz; que supõe um novo pensamento e uma conversão ideológica. Diz ele: “o mundo atual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem-comum” (12). O Santo Padre alerta a Igreja: “nesta tarefa imensa de educar para a paz, estão envolvidas, de modo particular, as comunidades crentes. A Igreja toma parte nesta grande responsabilidade através da nova evangelização, que tem como pontos de apoio a conversão à verdade e ao amor de Cristo e, consequentemente, o renascimento espiritual e moral das pessoas e das sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os obreiros da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação das injustiças”. É uma pedagogia da bondade e do perdão. “É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa (…) a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem, perseverança” (13). É marcada pelo ideal de uma humanidade nova, que anuncia o Reino dos Céus.

Paróquia de Rio de Mouro,1 de janeiro de 2013

D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa

NOTAS:

1 Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2013, nº 2

2 Ibidem, nº 1

3 Gaudium et Spes, nº 28

4 cf. Pacem in Terrus; Mensagem para o dia Mundial da Paz 2013, nº 3

5 Mensagem para o dia Mundial da Paz 2013, nº 2

6 Ibidem, nº 1

7 Ibidem, nº 3

8 cf. Ibidem, nº 3

9 cf. Ibidem, nº 4

10 cf. Ibidem, nº 5

11 Ibidem, nº 6

12 Ibidem, nº 6

13 Ibidem, nº 7

                                                (FONTE: Agência Ecclesia)