As falsas seguranças do "bunker" e a verdadeira liberdade de Deus

Conferência do jornalista e ex-roqueiro irlandês John Waters no Meeting de Rímini

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio | 647 visitas

Queremos ficar abertos à maravilha ou ficar trancados em nosso bunker? O tema da 34ª edição do Meeting de Rímini, “Emergência Humana”, nos coloca diante da nossa liberdade como alternativa à escravidão dos desejos, facilmente confundida, por muitos, com a verdadeira liberdade.

Esta reflexão foi proposta ontem à tarde pelo jornalista e escritor John Waters, ex-roqueiro e hoje vice-diretor do jornal Irish Times. Waters é conhecido pelo público do encontro de Rimini desde 2006, quando foi relator. Na última edição, ele foi o curador da exposição Três acordes e o desejo da Verdade: o rock e a busca do infinito.

Meia hora antes do início da conferência, a sala D3 do parque de exposições Riminifiera já está lotada. Acompanhado pela presidente do Meeting, Emilia Guarnieri, John Waters sobe ao palco. Sua aparência denuncia o passado roqueiro: barba e cabelos compridos, como um veterano de Woodstock. Waters viveu e aproveitou ao máximo a juventude nos anos 1970, e, na maturidade, sem renegar do passado, quis ampliar seus horizontes pessoais, espirituais e culturais.

Tocou em temas existenciais, tanto gerais como pessoais. Filho de uma Irlanda ainda fervorosamente católica, o jornalista explicou que, quando criança, nutria um profundo amor por Jesus Cristo, que se desgarrou por volta dos seus quinze anos de idade quando irrompeu nele um novo amor pela cultura e pela música do seu tempo.

Waters falou do seu alcoolismo, que marcou uma parte significativa da sua vida. "O vício no álcool e a luta para sair dele me fez tomar consciência de que eu fui criado, de que eu era viciado, de que eu não tinha criado a mim mesmo. Eu era mortal, mas era infinito nos meus anseios. E eu conheci pessoas que tinham feito uma viagem semelhante e que me disseram: a resposta para a tua pergunta é Deus".

A redescoberta de Deus consistiu para John Waters na tomada de consciência de ser amado por Ele: "Eu tinha uma compreensão do amor de Deus como alguma coisa abstrata e distante. Sem esse sentido do amor, de que eu falo, a vida seria insuportável e nada no bunker seria capaz de me proteger".

Waters citou Flannery O'Connor, que afirmava que "não nos esquecemos de Cristo, mas somos atormentados por ele". E declarou: "Eu me sinto amado por Cristo. Sem esse amor, a vida seria insuportável".

Toda a conferência de Waters foi articulada na reflexão sobre a vida com ou sem Deus. Ele mencionou em primeiro lugar a metáfora do bunker, usada por Bento XVI durante a sua visita ao Bundestag, em Berlim. Nesse bunker, "sem janelas", de acordo com a lógica do positivismo, tudo é tido como certo, não há espaço para o mistério e tudo deve ser demonstrável e verificável.

"O bunker elimina a surpresa, deixando do lado de fora os mistérios incômodos da existência. Temos certeza de que somos os mestres da nossa vida e do nosso destino. No bunker, o homem finge não ser uma criatura, mas sim o dono de si mesmo".

Esta maneira de pensar, explicou Waters, só cria falsas esperanças destinadas a se dissolver. É a tirania dos desejos que nos impulsiona a buscar satisfação nas coisas materiais, inclusive nas supérfluas: o homem é feito para o infinito, mas se obstina em procurar o que, por sua própria natureza, não pode satisfazê-lo.

Vivemos numa era, observou o jornalista irlandês, em que aparentemente é exaltada a individualidade, e no qual, porém, o eu acaba sendo esvaziado com os ídolos, com o efêmero, com a cultura da posse e da imagem.

A destruição do sagrado é muito mais grave do que a destruição da estrutura moral ou da identidade cultural, porque envolve a perda da capacidade de olhar para o mundo com estupor, mas, “acima de tudo, de manter a visão que permite que a pessoa humana viva plenamente, tenha esperança e deseje ardentemente o destino humano total".

E, no entanto, como explicou Dom Giussani em O sentido religioso, se saíssemos agora do ventre das nossas mães tais como somos, não poderíamos deixar de ficar estupefatos com o que somos e com o que existe.

É o mesmo estupor que nunca se acaba, nem mesmo em face das grandes descobertas geográficas e científicas da história. Neil Armstrong, o primeiro homem a pousar na Lua, não pôde menos que se perguntar, no dia seguinte à sua experiência que marcou época: "Quem sou eu? Quem me deu a vida? Por que eu estou aqui?".