«As melhores coisas da vida» - cardeal Eusébio Scheid

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RIO DE JANEIRO, terça-feira, 10 de julho de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos artigo escrito pelo cardeal Eusébio Oscar Scheid, arcebispo do Rio de Janeiro, intitulado «As melhores coisas da vida». O texto foi difundido esta terça-feira na seção Voz do Pastor, do site da arquidiocese do Rio.




As melhores coisas da vida

Permitam-me adentrar, nestas considerações, alguns aspectos mais profundos de nossa vida. São contextos e circunstâncias cuja dificuldade apela para uma reflexão de cunho filosófico, que não pode ser ignorada. Foi Vicente de Carvalho quem definiu a ânsia do homem pela felicidade, num poema concluído desta forma: “Essa felicidade que supomos,/ Árvore milagrosa que sonhamos,/ toda arreada de dourados pomos/ existe sim, mas nunca a encontramos,/ porque ela está sempre apenas onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos”.

A busca da plenitude, do infinito, sempre foi a meta propulsora da humanidade. A filosofia grega, há muitos séculos, demonstrava este desejo, tão característico do ser humano, como “saudade” da perfeita realidade, existente somente no “mundo das idéias”. Para os humanistas, a totalidade da pessoa humana era uma exigência fundamental. Assim, o culto das letras antigas, dando origem ao humanismo histórico, ofereceu a possibilidade de grandes pensadores se orientarem ao humanismo cristão, o mais perfeito conjunto de princípios voltados à realização humana. A busca desses valores consistia em se aperfeiçoar, cada vez mais, nas virtudes ensinadas pelo Evangelho.

O mundo, porém, não é constituído apenas de humanistas, cristãos ou não. A pluralidade dos dias de hoje leva as pessoas a encarar a vida sob prismas diversos, segundo valores próprios, conflitantes com tantos outros. Grande parte da juventude parece dominada por um neo-hedonismo, subjacente na busca do prazer como bem supremo. Tudo se faz para haurir o maior bem-estar possível, em todas as dimensões da vida.

Os objetivos vão se tornando cada vez mais imediatos, os planos são de curtíssimo prazo, exigindo menos determinação e esforço pessoal. O progresso tecnológico, acelerando as etapas do processo produtivo, tornou possível obter-se tudo em menos tempo. O critério do consumo imediato, do mais barato porque descartável, foi substituindo a escolha do mais autêntico e do melhor. Isto contaminou os valores éticos e morais, passando a se aplicar a todos os aspectos da vida e dos relacionamentos. Daí que muitos jovens desprezam valores, preservados por gerações, como sendo relativos e sem importância. E a vida se torna um carpe diem (“aproveite o dia”) sem responsabilidades pessoais e sem perspectivas de futuro.

Outros há que, contrastando com estes que acabamos de considerar, dedicam-se a conseguir aquilo que desejam, a qualquer custo. Marcada por um aparente neo-estoicismo, a severidade com que encaram a vida está bem longe da “ataraxia” proposta por Zenão de Citio. O lema “abstem-te e suporta” não encontra espaço nos seus projetos, pois a norma vigente é atingir os fins, não importa por quais meios. Para esses, a alegria da vida acaba por se esvair na antipatia com que se relacionam com os outros, sempre se baseando em julgamentos e semeando incompatibilidades.

Um outro grupo é o dos resignados e enfraquecidos em suas determinações. Aceitam com grande passividade o estado de coisas e nada fazem para oferecer ao mundo algo que possa dignificar sua presença nele. Estão de tal forma amortecidos, que a insensibilidade acabou por dominar-lhes a vontade. Encontram, até mesmo, prazer em sofrer tal privação, abandonando suas vidas a um laissez faire (“deixar estar”) inconseqüente. O próprio Sartre já preconizava isso em sua obra “O Ser e o Nada”. Toda uma geração de ateus orientou o pensamento humano segundo esta síntese: o problema não está entre Deus e o mal, mas entre Deus e o nada. Os ateus escolhem o nada, como sabemos.

Enquanto alguns encontram respaldo filosófico para seu posicionamento diante da realidade, há os que elaboram reflexões primorosas para orientar a própria vida. Sejam apenas sonhadores, ou poetas inspirados, jamais conseguimos enquadrá-los em modelos ou formas determinados, dentro de uma realidade multiforme.

Luiz Alonzo Schoekel, exegeta dos mais considerados, disse, certa vez, que “os poetas eram os que conseguiam captar a realidade com maior precisão”. Através da síntese que um poema, necessariamente, exige, estes fizeram uma leitura da realidade e chegaram a compreendê-la em sua totalidade. “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”, escreveu nossa Cecília Meireles. Em sua intuição, ela captou um elemento que explica a busca de infinito, do qual a humanidade, ainda hoje, continua sedenta: “Eu canto porque o instante existe”.

Foi esse “instante” que moveu Madre Teresa de Calcutá a abandonar uma antiga escolha e optar por algo ainda mais sublime. Em seu poema “Honestidade para com Deus”, ela pede aquele “instante de honestidade” para avaliar uma escolha com critérios que não sejam dela mesma, mas de Deus. A vida, para ser verdadeiramente vivida, requer essa atitude.

A humanidade sempre buscou razões para a felicidade e para o sentido da vida. Mas o que é, afinal, a vida? Segundo alguns filósofos, é “um conjunto de fenômenos de ordem vegetativa e sensitiva” ou, na visão psicológica, seria apenas “um movimento espontâneo e imanente”. Mas há nela algo de fascinante e intenso, que gera no homem o desejo de perpetuá-la, uma atração tão forte que supera o mero instinto de conservação. Todos querem viver. Assim, a vida é uma procura constante de aperfeiçoamento.

O princípio universal, proposto por Aristóteles como um “Motor Imóvel”, que determina o movimento de todos os seres, e deles é causa formal, material, eficiente e final, foi identificado por Santo Tomás de Aquino como o próprio Deus Criador. Sua filosofia, que a Igreja passou a chamar de Philosophia Perennis, encontrou no pensamento grego base semelhante à que São Paulo aproveitou para proclamar, no areópago de Atenas: “nEle vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).

Se procurarmos, ao longo da história, o que moveu os grandes homens a ser o que foram, encontraremos, no âmago de suas almas, um fascínio por Deus, traduzido em atitudes concretas. Suas vidas, de tão intensas, se transformaram numa grande dinâmica de busca e encontro. E foi sempre o amor que a isso os moveu. Ovídio, poeta romano contemporâneo de Cristo, dizia ter “cem razões para amar sempre” (centum sunt causae, cur ego semper amem – Amores II, IV).

Se mesmo entre os pagãos a resposta era tão simples, quanto mais num mundo como o nosso, dividido em contínua discórdia e sob constantes ameaças, o amor continuará sendo a única possibilidade de realização e de paz. Quando São João Evangelista definiu Deus como sendo amor (1Jo 4,8.16), ninguém ofereceu ao mundo, dizia Alonzo Schoekel, melhor definição de Deus nem melhor definição do amor.

Cardeal Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo do Rio de Janeiro