Aspectos prioritários da formação sacerdotal, em mudança de época

Uma reflexão a partir da experiência na América Latina

Guadalajara, (Zenit.org) Miguel Romano Gómez | 1025 visitas

Oferecemos a seguir uma reflexão de dom Miguel Romano Gómez, bispo auxiliar de Guadalajara, no México, sobre a formação dos futuros sacerdotes, com base nos dados e na experiência dos seminários da América Latina.

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1. Imaturidade psicológica

Na América Latina, a falta de estabilidade de sacerdotes e de candidatos ao sacerdócio, tanto diocesanos quanto religiosos, é um fato significativo que nos convida a refletir sobre alguns aspectos da formação sacerdotal, seja na sua etapa inicial, seja de modo permanente.

A instabilidade vocacional sempre existiu, mas tende a aumentar em decorrência das transformações culturais que esta mudança de épocas envolve. 26% dos abandonos ministeriais mundiais e 45% das deserções vocacionais nos seminários de todo o mundo acontecem na América Latina, onde o número de católicos por sacerdote tende a crescer rapidamente. Assim como é necessário promover a entrada constante e crescente de jovens aptos para o sacerdócio, também é preciso garantir que aqueles que entram em nossos seminários sejam idôneos e contem com os recursos suficientes para perseverar com fidelidade no ministério.

A maioria das deserções tem origem na formação humana deficiente. Constatamos que as novas gerações de seminaristas e sacerdotes são mais vulneráveis neste campo e apresentam maiores deficiências e condicionamentos hoje do que no passado, sem negar que também existem outras deficiências nas restantes dimensões da formação. Não devemos perder de vista que, na dimensão humana, estão enraizados os demais aspectos da formação sacerdotal, e, portanto, é ela a dimensão a ser consolidada primariamente.

Documento de Aparecida reflete essa preocupação do episcopado latino-americano ao destacar a necessidade de zelar por uma formação que responda melhor aos desafios atuais dos sacerdotes. Particularmente:

“Especial atenção deve ser prestada ao processo de formação humana voltada ao amadurecimento, de tal maneira que a vocação ao sacerdócio ministerial dos candidatos chegue a ser, em cada um deles, um projeto de vida estável e definitivo, mesmo num contexto cultural que exalta o que é descartável e provisório. Diga-se o mesmo da educação para o amadurecimento da afetividade e da sexualidade. Ela deve levar a uma compreensão melhor do significado evangélico do celibato consagrado como valor que configura Jesus Cristo; portanto, como um estado de amor, fruto do dom precioso da graça divina, conforme o exemplo da doação nupcial do Filho de Deus; a acolhê-lo como tal com firme decisão, com magnanimidade e de todo coração; e a vivê-lo com serenidade e fiel perseverança, com a devida ascese praticada num caminho pessoal e comunitário, como entrega a Deus e aos outros, de coração pleno e indiviso”.

Para formar personalidades suficientemente maduras para o ministério sacerdotal, convém revisar as principais áreas da formação na dimensão humana, não tanto em seus conteúdos quanto em suas formas.

2. Formar a inteligência para reconhecer e amar a Verdade

A exortação pós-sinodal Pastores Dabo Vobis enfatiza o amor à verdade como uma das qualidades humanas necessárias para se conseguir uma personalidade equilibrada, sólida e livre (cf. PDV 43). O amor à verdade pressupõe, primeiro, a sua apreensão, o que se obtém mediante a formação da inteligência. A inteligência é formada quando se aprende a pensar, quando ela descobre por si mesma, quando ela lê o interior das realidades, principalmente a realidade pessoal. Os conhecimentos que nascem como fruto da tarefa pessoal de pensar, descobrir, conhecer a si mesmo, entender, conectar acontecimentos, são os que realmente formam essa capacidade.

Por outro lado, é de capital importância levar em consideração, na formação intelectual, a pertinente observação do cardeal John Henry Newman ao distinguir entre dois tipos de conhecimento, que nos levam, por sua vez, a duas maneiras de assentir: o assentimento nocional e o assentimento real. O primeiro se refere ao assentimento de um conhecimento de tipo teórico, científico e mesmo teológico, que se relaciona com a verdade dos princípios gerais; e o segundo, o assentimento real, se refere ao conhecimento do concreto, vivo e próximo. Isto quer dizer que não é a mesma coisa aceitar como verdadeiro que Jesus é o Filho de Deus na teoria e aceitar que verdadeiramente Jesus é o meu Salvador e que, por isso, eu devo agir de modo consequente. Tampouco é a mesma coisa conhecer e aceitar teoricamente os compromissos que o sacerdócio exige, como o celibato, e assumir na própria vida todas as suas consequências. No trabalho formativo, devem ser garantidos os dois tipos de conhecimento, com as suas respectivas formas de assentimento, talvez com maior ênfase no real, mas nunca se prescindindo de um ou do outro. Diante da incoerência que pode apresentar-se entre a forma de se pensar e a forma de se viver, devemos ficar atentos para corrigi-la oportunamente, já que, às vezes, não é bem percebida a relação vital que existe entre os princípios teoricamente aceitos e a própria vida pessoal, nem se consegue traduzi-los em ações concretas e congruentes com esses princípios.

3. Formar o coração: a educação afetiva e da sexualidade

Um dos pontos em que mais se vem insistindo na formação sacerdotal, seja na sua etapa inicial, seja de forma permanente, é o da educação da afetividade e da sexualidade. A maturidade afetiva é o resultado da educação no amor verdadeiro e responsável, que se caracteriza por comprometer toda a pessoa e se expressa mediante o significado “esponsal” do corpo humano (cf. PDV 44). Por sua vez, a maturidade afetiva que se espera dos sacerdotes deve se caracterizar pela prudência, pela renúncia a tudo o que possa pô-la em perigo, pela vigilância do corpo e do espírito, assim como pela estima e respeito nas relações interpessoais com homens e com mulheres (cf. Ibíd.). Trata-se, portanto, de uma tarefa que vai além das meras forças humanas, e que demanda a graça eficaz de Deus, pois é Ele, em suma, o Educador do coração humano.

A mudança de época que estamos vivendo envolve uma série de desafios que têm de ser encarados desde a formação inicial. Podemos notar que, além do incremento do permissivismo moral e do hedonismo, começou a aparecer, também entre os sacerdotes, um novo individualismo de tipo estético-emotivo, que afeta diretamente a dimensão afetiva da pessoa. Este novo individualismo se constitui pela aparência e pela emoção, e nele as coisas são relevantes na medida em que estimulam os sentidos ou engrandecem a imaginação.

Devemos alertar sobre a presença, cada vez mais frequente, do narcisismo, que, junto com a homossexualidade, são as formas típicas de imaturidade afetiva e sexual (cf. OECS 21). O narcisismo contemporâneo caminha junto com a aparição do individualismo de tipo estético-emotivo, e, talvez por isto, se difundiu mais na sociedade. Esse narcisismo tem como característica, além de um equivocado amor por si mesmo, também a ansiedade, já que procura encontrar um sentido para a vida quando se duvida até mesmo da própria identidade. Quem o vive geralmente apresenta atitudes sexuais permissivas e egocêntricas. São pessoas ferozmente competitivas na sua necessidade de aprovação ou de aclamação, que tendem a desprestigiar e desconfiar dos outros. Sua autoestima depende dos outros: não conseguem viver sem uma plateia que os admire e aprove. Apresentam condutas antissociais, em que se foge da cooperação e do trabalho em equipe, porque se trata de pessoas que vivem num lamentável e estéril individualismo. Além disso, são pessoas que tendem à cobiça, são amantes das gratificações imediatas e vivem preocupadas com fantasias de sucesso ilimitado. Sentem-se “especiais” e procuram sempre um tratamento “especial” e de protagonismo. Frequentemente, invejam os outros ou consideram que os outros as invejam, e apresentam comportamentos ou atitudes arrogantes, soberbas, carecendo de empatia para com o próximo.

O número de pessoas narcisistas ou com tendências homossexuais cresceu em nossa sociedade, como consequência da desintegração familiar e do aumento de famílias monoparentais, do permissivismo moral e da cultura hedonista, e, acima de tudo, da falta de afeto e atenção dada aos filhos. Este quadro nos apresenta um particular desafio, tanto na seleção quanto na formação dos candidatos ao sacerdócio, pois são muitos os que procedem de lares problemáticos em que não houve adequada identificação com a figura paterna, ou onde essa figura esteve simplesmente ausente.