Assim compreendeu e explicou o Dogma da Imaculada o primeiro abade de Solesmes

A histórica abadia republica uma obra decisiva para a proclamação do dogma

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SOLESMES, segunda-feira, 6 de dezembro de 2004 (ZENIT.org).- Há dois séculos, a abadia beneditina de Solesmes, na França, é um foco de restauração e irradiação litúrgica, que na recuperação do Canto Gregoriano encontrou uma de suas máximas expressões, desempenhando ao mesmo tempo um papel decisivo na compreensão do dogma da Imaculada Conceição.



Na origem deste processo encontra-se a figura de dom Prosper Guéranger (1805-1875), o jovem abade que restaurou o mosteiro de Solesmes, após a Assembléia Constituinte francesa proibir os votos religiosos em 1790, dispensando os monges dessa comunidade.

Impressionado por sua contribuição à reforma litúrgica e pela publicação em 1850 do livro «Memória sobre a Imaculada Conceição» («Mémoire sur L´Imaculée Conception»), ao ano seguinte, Pio IX o encarregou de um documento no qual propunha uma definição do dogma da Imaculada Conceição. O mesmo Papa o formularia três anos depois com a bula dogmática «Innefabbilis Deus» (8 de dezembro de 1854).

Para compreender melhor a importância do livro de dom Guéranger sobre a Imaculada, reeditado este ano pela Abadia de Solesmes, Zenit entrevistou o irmão Jacques de Préville, monge da Abadia de Solesmes.

--Irmão Jacques, por que dom Guéranger escreveu seu livro em 1850?

--Irmão Jacques: A definição do dogma da Imaculada Conceição, desejada por muitos, julgada inoportuna por alguns, havia sido objeto de importantes trabalhos nos anos que a precederam. Pio IX, com a encíclica «Uli primum», de 2 de fevereiro de 1849, havia convidado os bispos do mundo a oferecer seu ponto de vista sobre a possibilidade e oportunidade desta definição. Na França, muitos bispos criaram comissões de teólogos para preparar sua resposta. Dom Guéranger, primeiro abade de Solesmes, quis contribuir ao esforço de reflexão sobre este privilégio de Maria com seu livro.

--Que importância teve a festa da Imaculada na vida de dom Guéranger, figura destacada da Igreja Católica no século XIX?

--Irmão Jacques: O privilégio da Concepção imaculada de Maria era algo que lhe resultava particularmente querido. Recordava-se, de fato, da graça de luz que recebeu em 8 de dezembro de 1823, na festa da Conceição de Nossa Senhora, quando estudava no seminário e dependia ainda de uma visão demasiada racional. Ele mesmo narrou o acontecimento: «Foi então quando a misericordiosa e compassiva rainha, Mãe de Deus, saiu em meu auxílio de uma maneira tão triunfante como inesperada. No dia 8 de dezembro de 1823, enquanto fazia minha meditação com a comunidade e abordava meu tema (o mistério do dia), com meus pontos de vista racionais, como de costume, de repente senti-me levado a crer em Maria Imaculada em sua concepção. A especulação e o sentimento se uniram sem esforço neste mistério. Senti uma alegria doce em meu consentimento; sem arrebato, com uma doce paz e com uma convicção sincera. Maria se dignou transformar-me com suas mãos benditas, sem desassossego, sem entusiasmo exacerbado: uma natureza desapareceu para deixar lugar a outra. Não disse nada a ninguém, sobretudo porque não imaginava o alcance que teria para mim esta revelação. Sem dúvida, emocionei-me; mas hoje estou ainda mais emocionado ao compreender todo o alcance do favor que a santa Virgem se dignou em conceder-me aquele dia».

--Que buscava com sua «Memória»?

--Irmão Jacques: Dom Guéranger quis mostrar em um livro por que a crença na Imaculada Conceição poderia ser objeto de uma definição dogmática. Foi publicado em abril de 1850. Com grande clareza e uma informação muito extensa, dom Guéranger estabeleceu esta possibilidade.

Para que a crença possa ser definida como dogma de fé, explicava, é necessário que a Conceição imaculada forme parte da Revelação, expressada na Escritura ou na Tradição, ou fique implicada nas crenças anteriores definidas. Necessita-se, em seguida, que seja proposta à fé dos fiéis através do ensinamento do Magistério ordinário. Por último, é necessário que seja testificado pela liturgia, os Padres e os doutores da Igreja».

Dom Guéranger mostra que estas três condições ficam reunidas e que, portanto, a definição é possível. «A Igreja --diz-- teve de esperar um tempo conveniente para recolher-se em si mesma, para constatar este acordo universal que é hoje em dia a prova de que esta é a doutrina da Igreja Católica» («Mémoire sur I´Immaculée Conception», p. 129).

--Como dom Guéranger explica o laço que se dá entre a Revelação e a definição de um «novo» dogma?

--Irmão Jacques: Dom Guéranger recorda que «não há uma nova revelação quando a Igreja define um dogma de fé» («Mémoire sur I’Immaculée Conception», p. 2). A Igreja não acrescenta nada ao dado de fé. A única coisa que faz é reconhecer que esta verdade novamente definida formava parte já implicitamente do tesouro da Revelação. O mesmo sucederá com o dogma da Assunção de Maria, definido por Pio XII, em 1950. Ante estas verdades definidas deste modo, o crente deve agora sua plena adesão de fé.

Dom Guéranger mostra no final de sua obra como era sumamente conveniente a definição da Imaculada Conceição, algo que ele mesmo desejava ardentemente. Seria honrar a Virgem Maria com o reconhecimento oficial de seu privilégio. Será «saudável para o gênero humano, pois não é possível que a terra eleve seu louvor a Maria sem que esta Mãe de misericórdia não reconheça com novos benefícios o impulso de coração de seus filhos para com ela, sobretudo quando este louvor tem por objetivo glorificar nela o dom que mais quer, a integridade de sua alma, a dispensa de toda mancha, a santidade, em uma palavra» («Mémoire sur L’Immaculée Conception», p. 131).

--Onde está a originalidade desta obra?

--Irmão Jacques: Nestas páginas, pode-se admirar o grande espírito de fé de dom Guéranger, seu profundo sentido de Igreja, seu amor fervoroso pela Virgem Maria. Nelas ressoa a voz do monge familiarizado com a Escritura, os Padres da Igreja e as orações litúrgicas. Percebe-se o contemplativo que meditou durante muito tempo no mistério de Maria Imaculada.

--Por que reeditou o livro?

--Irmão Jacques: Pio IX, após ver o livro, durante uma viagem do abade de Solesmes a Roma, em 1851, pediu-lhe para trabalhar em um projeto de texto de face à definição. Cremos que pode ser de utilidade publicar novamente a «Memória» de dom Guéranger em 2004. Pode ajudar a compreender melhor a amplitude da bula do beato Pio IX e a grande luz que nos oferece.

[É possível comprar a «Mémoire sur l’Immaculée Conception» pelo site da abadia de Solesmes http://www.solesmes.com]