Atualidade dos mártires

Entrevista com o arcebispo de Tarragona sobre o 1750º Ano Jubilar

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Por Miriam Díez i Bosch

 

TARRAGONA, terça-feira, 15 de janeiro de 2008 (ZENIT.org).- O arcebispo de Tarragona convida os fiéis do mundo inteiro a peregrinar à sua diocese, na qual, há 1750 anos, três mártires foram queimados vivos.

Dom Jaume Pujol Balcells, arcebispo metropolitano de Tarragona e primaz, explica o sentido do Ano Jubilar que o Papa Bento XVI concedeu para Tarragona desde 21 de janeiro de 2008 até 21 de janeiro de 2009, por ocasião da comemoração do 1750º aniversário do martírio do bispo Frutuoso e de seus diáconos Augúrio e Eulógio, queimados vivos em 21 de janeiro sob a perseguição dos imperadores Valeriano e Galieno.

Falar de mártires na Espanha gera sempre um pouco de polêmica, ainda que vocês recordam mártires muito distantes. Estamos em uma época de recuperação do martírio como sinal?

–Dom Pujol: A Igreja sempre acreditou que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos. Os mártires unem seu sangue ao de Cristo e deste modo participam de forma particular na obra de Cristo: a Redenção, que traz um futuro divino, verdadeiramente melhor, para cada pessoa e para toda a humanidade.

Em todo tempo e lugar, os mártires foram homens e mulheres cristãos como nós, e nos deram um maravilhoso exemplo de caridade cristã, porque o martírio é um ato perfeito de caridade, e também um dom que precisa de uma particular graça de Deus. São um exemplo atualíssimo de como se deve levar a caridade até o final.

Os mártires morreram queimados vivos no anfiteatro de Tarragona há 1750 anos. Como são ainda vigentes estes mártires desconhecidos?

–Dom Pujol: A Igreja de Tarragona manteve sempre viva sua memória. Conservam-se as Atas do Martírio, um documento contemporâneo aos fatos que relatam, que são também as mais antigas atas de martírio que se conservam na península ibérica. Trata-se de um documento muito rico, que constitui um referente hagiográfico capital para o estudo do cristianismo primitivo hispânico.

Como os mártires de todos os tempos, eles morreram por Jesus Cristo, por não querer negar sua fé cristã.

Por isso, o Jubileu é um momento de graça e de reflexão, que nos leva a considerar de onde viemos e para onde temos de ir.

Desejo de coração que com este Jubileu todos os fiéis conheçam e se familiarizem com estes santos mártires de Tarragona, e que não haja ninguém da arquidiocese a quem não tenha chegado o exemplo e a mensagem admiráveis de Frutuoso e seus diáconos.

Gostaria também que estes exemplos tão atraentes fossem conhecidos no resto das dioceses espanholas e da Igreja universal.

O ano Jubilar tem como objetivo a conversão pessoal. Como os mártires inspiram esta conversão?

–Dom Pujol: A figura destes mártires e as atas de seu martírio nos aproximam de Jesus e de sua boa nova, que para os cristãos deve ser a fonte de onde devemos beber constantemente.

Por isso, seu exemplo e suas palavras, que se recolhem nas atas, podem ajudar as pessoas de nosso tempo a uma profunda conversão do coração, e a anunciar Jesus com novo ardor.

Sua memória também nos lembra o profundo de nossas raízes cristãs, ajuda-nos a valorizar mais o ministério dos pastores, a aprofundar mais nele e a pedir pelas novas vocações de pastores e, finalmente, a renovar o desejo de dar testemunho de Cristo em nosso mundo com alegria e fortaleza.

Por outro lado, só um coração convertido é capaz de entregar-se verdadeiramente aos demais; a todos, e naturalmente primeiro aos mais necessitados: às crianças, aos doentes, aos mais pobres, aos marginalizados...

Haverá milhares de pessoas nas celebrações jubilares. Como fazer para que estas também se aproximem da vida sacramental?

–Dom Pujol: O Ano Jubilar deve nos servir para perceber o que significa ser cristão e para, depois, dar a conhecer nossa fé, com nosso exemplo e nossa palavra.

Temos que dar vida hoje às Atas de martírio de Frutuoso. Agora somos nós que temos em nossas mãos aquela grande tradição eclesial, que está viva e é hoje uma realidade comprometida.

O Jubileu deve ser, pois, um novo encontro pessoal com Jesus, que sempre nos pede uma nova conversão: uma mudança de atitude, de critérios, de mentalidade; uma mudança de vida. Ante nós está a oportunidade de viver este tempo de graça – pois este é o sentido mais profundo de um ano jubilar – para revitalizar nossa fé pessoal, a de nossas comunidades e de muitas outras pessoas que, esperamos, peregrinem a Tarragona.

E tudo isso não se pode conseguir sem ter acesso ao sacramento da reconciliação ou penitência, e à Eucaristia.

Para o senhor como arcebispo: o que mais impressiona desses mártires e diáconos que morreram por sua fé?

–Dom Pujol: Nas atas, o hagiógrafo escreve que, quando Frutuoso escutou a sentença, este santo pastor «dirigiu seu olhar para o Senhor e começou a rezar em seu coração».

Isso é o que eu peço durante este ano de graça: dirigir nosso olhar ao Senhor e rezar em nosso interior.

Outro aspecto que me emociona é a menção que se faz, tão cedo na história, da universalidade e catolicidade que a Igreja diocesana está chamada a viver.

São Frutuoso, antes de ser levado à fogueira, disse que tinha de rezar «pela Igreja Católica, estendida desde o Oriente até o Ocidente». E a seguir, anunciou profeticamente: «Nunca vos faltará um pastor, e não poderão desfalecer o amor e a promessa do Senhor nem neste mundo nem no outro».

Deste modo, suas últimas palavras foram uma promessa que cruza toda a nossa história eclesial e que agora se cumpre também em mim, como sucessor seu. Se você me permite, eu gostaria de terminar esta entrevista convidando todos a fazerem frutificar a graça que nos é concedida com este ano jubilar. Vocês estão convidados a vir a Terragona e a peregrinar aos lugares onde os santos mártires confessaram sua fé e sofreram o martírio. Serão todos bem-vindos.

Pode-se ver o convite que o arcebispo Jaume Pujol Balcells lançou em vídeo em www.h2onews.org.