Ave-maria inspirada por Nossa Senhora

Entrevista com o compositor espanhol Sergio Moreno

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ROMA, quinta-feira, 6 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) – Neste 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, Bento XVI fará uma oferta floral aos pés da coluna da Imaculada na Piazza di Spagna, em Roma. Logo a seguir, a embaixada da Espanha junto à Santa Sé apresenta um concerto de música sacra.

O repertório inclui a Ave Maria de De Vitoria, o cânon de Pachelbel e três obras de Mozart: Regina CoeliTu Virginum Corona e Alleluia. Seguem-se a Ave Maria de Sergio Moreno e, para encerrar, De Villaviciosa Vienen, do também espanhol Balius y Villa.

Ave Maria para coral e orquestra, do compositor espanhol Sergio Moreno, é interpretada pela Schola Cantorum di Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, regida pelo maestro Osvaldo Guidotti.

ZENIT entrevistou o jovem compositor espanhol, de 38 anos, alto e muito simpático. Desde a infância, Sergio Moreno se dedicou à música, o que lhe permitiu compor importantes peças no conservatório. Graduado em filologia anglo-germânica pela Universidade de Cádiz, ele prossegue os estudos na Universidade Gregoriana. É diácono e será ordenado sacerdote em 22 de dezembro, na Espanha.

Como nasceu esta composição da ave-maria?

Sergio Moreno: Ela nasceu, num certo dia, depois dos ensaios do coral da basílica menor de Santa Maria de Arcos de la Frontera. Eu me sentei no meu quarto e começou a passar pela minha mente uma melodia que foi me agradando. Fui ao piano e comecei.

Nada foi planejado, então?

Sergio Moreno: Eu digo que foi inspiração. E no dia seguinte me veio mais um trecho, que é mais importante ainda, que eu chamo de parte sublime. E esta ave-maria termina com um amém bem alto. Foi escrita em ré menor, o que lembra muitas obras; é uma tonalidade cativante. E termina em ré maior, que transmite o sentido da vida. Quer dizer, ela começa num tom melancólico e termina com a alegria da glória da ressurreição.

E depois que você compôs a melodia, o que aconteceu?

Sergio Moreno: Eu trabalhei dois anos com o maestro Ángel Hortas, diretor da capela musical da catedral de Jerez de la Frontera, para harmonizá-la com vozes e instrumentos.

Uma ave-maria é sempre exigente?

Sergio Moreno: A ave-maria ou vem inspirada por Nossa Senhora ou não vem. Elas têm sempre alguma coisa especial. Eu achei inspiração no terço. Essa música não começa como todas as ave-marias. Ela diz “Ave Maria, ora pro nobis”. E os violinos têm um papel importante.

Como aconteceu a proposta para você interpretá-la neste dia 8 de dezembro?

Sergio Moreno: O embaixador da Espanha na Santa Sé me ouviu cantar a proclamação do evangelho. Foi lá que começou a ideia. Nós enviamos o áudio desta ave-maria para o papa no ano passado e ele respondeu agradecendo com uma carta.

Você estudou piano e composição. O que você acha fundamental na música sacra?

Sergio Moreno: Você pode compor sem crer, mas, para transmitir, para chegar até as pessoas, você precisa da experiência da oração e do terço. Existem muitos compositores com boas intenções, mas isso não basta. Para ter sacralidade, é necessária a vivência da pessoa. Esse é o segredo. Existem grandes compositores que escreveram belas melodias sacras, mas eles não conseguiram chegar a nada.

Isso pode depender também dos instrumentos?

Sergio Moreno: Não necessariamente dos instrumentos. A melodia é fundamental. Se a melodia não é cativante, o resto é vazio, por mais recursos que sejam usados.

Mas e os instrumentos?

Sergio Moreno: O órgão é o instrumento fundamental para a liturgia. E a música tem que estar a serviço dela, da liturgia. O papa defendeu isso muito bem com um motu proprio. Mas eu sei que hoje temos poucos organistas.

E o violão?

Sergio Moreno: É acidental. Eu adoto a postura de dois grandes nomes: Ennio Morricone e Ricardo Muti, que disseram que os violões acabaram com o órgão. O violão também pode ser tocado se o canto estiver a serviço da liturgia, e quando quem toca vive a liturgia e a transmite. Você tem que viver aquilo que você celebra. Mas o violão é circunstancial.

Como incentivar a boa música?

Sergio Moreno: A música é muito importante, e não só nas paróquias. Não é fácil manter um coral. É complexo, você precisa de constância, é uma coisa que exige sacrifício e você depende da disponibilidade das pessoas. Um organista que toque, que não seja crente, pode servir para amenizar, mas não vai transmitir se não viver a liturgia.

O que pode ser feito neste sentido?

Sergio Moreno: É muito importante que o pároco promova, que ele apoie. Porque se o pároco não acompanha, e eu sei disso por experiência própria, a coisa não funciona. Tem que se preocupar para fazer o coral vingar, mostrar que não é só um adorno. E não basta harmonizar: as músicas têm que coincidir com a liturgia. No seminário, nós aprendemos muito sobre a importância da música a serviço da liturgia.

(Trad.ZENIT)