Beato Pio IX

O papa da cruz, defensor de Maria e José

Roma, (Zenit.org) Isabel Orellana Vilches | 1361 visitas

Giovanni Maria Mastai-Ferretti, o nono filho dos condes Girolamo Mastai e Caterina Solazzi, nasceu em 13 de maio de 1792 em Senigallia, Marca de Ancona, Itália. A epilepsia interrompeu seus estudos durante alguns anos, até que, em 1815, depois de uma peregrinação a Loreto, a doença desapareceu. Antes disso, já que o pai sonhava em vê-lo na Guarda Nobre do papa, Giovanni tinha apresentado o pedido de aceitação, que foi negado precisamente por causa da doença. Ele não se importou. Afinal, o que realmente queria era ser sacerdote, e, livre da epilepsia, pôde seguir a carreira eclesiástica e ser ordenado em 1819.

Oficiou a primeira missa na igreja de Santa Ana, perto de um centro para jovens sem lar, onde realizaria um fecundo trabalho apostólico até 1823. O papa Pio VII o enviou depois para uma delicada missão: ser auditor do delegado apostólico no Chile e no Peru. Sua ação apostólica se polarizava na caridade para com os pobres e nas sucessivas tarefas pastorais que foi recebendo. Foi cônego de Santa Maria em Via Lata, dirigiu o grande hospital San Michele, foi arcebispo de Spoleto, cardeal presbítero titular da igreja dos Santos Pedro e Marcelino, entre outras responsabilidades. Grande diplomata e estrategista, fez com que milhares de desertores do exército australiano depusessem as armas e, ao se entregarem, obtivessem indulto.

Foi eleito pontífice em 16 de junho de 1846. Era o sucessor de Gregório XVI. Foi chamado de papa da cruz, e não à toa: seu longo pontificado de 32 anos transcorreu por uma época histórica muito difícil. Lutas entre facções políticas desencadearam ataques e saques às igrejas italianas. A República Romana, proclamada por Giuseppe Mazzini, Carlo Armellini e Aurelio Saffi, foi a pique com a intervenção das tropas francesas. E o papa, que teve que se refugiar em Gaeta, pôde voltar enfim para a cidade de Roma. Tinha sido acolhido com esperança, graças ao seu caráter aberto, mas se negou a claudicar perante as exigências do poder laico. Em paralelo, também se opôs frontalmente à maçonaria.

Em 1845, proclamou o dogma da Imaculada Conceição, fato histórico eclesial de grande relevância. Em 1864, promulgou a encíclica Quanta Cura. O anexo Sillabus, que faz parte dela, é uma listagem de ensinamentos proibidos, com que a Igreja condenava os erros do momento, assim como conceitos liberais e iluministas. Entre as causas dos males que afligiam a Igreja e a sociedade da época, o clarividente pontífice apontou o ateísmo e o cientificismo do século XVII, postulados pela maçonaria e exaltados pela Revolução Francesa. Atacado pelos maçons, permaneceu incólume na defensa da verdade proclamada por Cristo e continuou impulsionando a unidade da Igreja.

Designou São José como padroeiro de toda a Igreja, deu grande importância à espiritualidade popular, reconheceu as aparições de Maria em Salette e em Lourdes, convocou o Concílio Vaticano I (1869-70), e, dentro dele, promulgou o dogma da infalibilidade papal.

Em 1870, quando Roma foi tomada por facções piemontesas, recluiu-se no Vaticano. Mas nada podia acabar com a Igreja, e foi isto o que ele gritou aos quatro ventos: “Nada é mais forte do que a Igreja. A Igreja é mais forte que o próprio céu, pois tem a palavra de Jesus: o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.

Seu amor sem reservas pela Igreja, a prática da caridade, a fidelidade ao sacerdócio e a proteção dos missionários foram as paixões deste grande pontífice. De quebra, tinha um senso de humor extraordinário. Quando a anestesia de uma operação não foi suficientemente efetiva, por exemplo, ele não se queixou. Mas, no final, enquanto agradecia ao médico, não deixou de lhe dizer: “Você é um astrônomo formidável. Me fez ver mais estrelas do que o diretor do observatório com o telescópio”. Simples e aberto, recebeu grande carinho das pessoas. Morreu em 7 de fevereiro de 1878.

O beato José Baldo sintetizou sua vida asseverando: “A história dirá que todo o mundo manteve os olhos cravados em Pio IX. Dirá que ele teve a força do leão e a doçura, a ternura e a suavidade de uma mãe”.

Sua causa de beatificação foi longa e complexa, desde que Pio X a iniciou em 11 de fevereiro de 1907. Em 7 de dezembro de 1954, Pio XII voltou a se ocupar do processo. Paulo VI deu-lhe importante impulso e, em 1986, a causa se encerrou com o milagre da cura inexplicável de uma religiosa. Finalmente, João Paulo II o beatificou em 3 de setembro de 2000.