Beneditinos: viver em comunidade para viver em Cristo

Entrevista com o abade de São Paulo Fora dos Muros, Edmund Power

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Por Marco Cardinali

ROMA, segunda-feira, 29 de setembro de 2008 (ZENIT.org).- Terminou no sábado, dia 27, o congresso mundial de cerca de 30 abades da Confederação Beneditina, reunidos em Roma desde o dia 17. Duas peculiaridades deste congresso, que acontece a cada 4 anos, são sua realização no Ano Paulino e a eleição do novo abade primário.

Os abades do congresso mundial reelegeram no dia 25 passado Notker Wolf, que continua seu serviço à Igreja e à Confederação beneditina como abade primaz.

Ao começar o congresso, os abades se encontraram com Bento XVI, em uma audiência especial em sua residência veraneia de Castel Gandolfo, e com a celebração solene de Vésperas, na basílica de São Paulo Fora dos Muros, confiaram seus trabalhos ao apóstolo dos povos.

Em uma entrevista concedida à Zenit, o abade da citada basílica, Edmund Power, faz algumas considerações sobre estes eventos.

– Padre abade, sobre o que falaram durante estes dias de congresso?

– Power: Durante o congresso anterior, de 2004, falamos da globalização como desafio e oportunidade para os beneditinos de nosso tempo. Este ano não se escolheu um tema específico. Quisemos encontrar-nos para poder conhecer melhor os diversos tipos de problemas e riquezas das comunidades monásticas em todo o mundo. Recebemos informes, por exemplo, sobre as atividades dos cerca de 257 mosteiros independentes que fazem parte da Confederação Beneditina, com uma representação das monjas e religiosas beneditinas.

Buscamos juntos soluções de ajuda para os mosteiros mais pobres ou que se encontram em áreas críticas do planeta, mas falamos também de diálogo ecumênico e inter-religioso com representantes de outras confissões cristãs.

Outro tema privilegiado foi o da educação e testemunho beneditino, ou seja, o que o monaquismo pode ainda dizer no mundo de hoje através de suas estruturas educativas.

Nossa vida monástica, ainda que com atividades apostólicas, tem um fundo e uma fonte: a espiritualidade contemplativa que cada monge e monja expressa a seu modo em sua comunidade. Poderia dizer que nosso carisma é «ser» ao invés de «fazer», ainda que este ser se explicite depois no fazer; e tudo isso se expressa no viver em Cristo de maneira intensa.

– Portanto, se este é o carisma, é também um grande desafio no mundo contemporâneo.

– Power: Ultimamente se ouve dizer que algumas congregações religiosas perderam o sentido da vida comunitária porque estão envolvidas demais na atividade apostólica. O apostolado é bom, mas se dá o risco de ser absorvidos totalmente por ela. Basta ver a oração comunitária, reduzida ao mínimo ou às refeições solitárias, por causa dos compromissos que se multiplicaram hoje, inclusive por causa da diminuição de sacerdotes e religiosos.

Para nós, os beneditinos, viver em comunidade, com todas suas implicações, é um modo fundamental de viver em Cristo. Conviver não é fácil, inclusive diria que de alguma maneira chega a ser um perder-se a si mesmos, com a consciência de abraçar a cruz ao serviço dos demais. Não somos certamente melhores que os demais por isso, mas é precisamente este o carisma monástico beneditino.

– Em que medida lhes são úteis estes congressos que celebram a cada 4 anos?

– Power: São duas semanas de intercâmbio que para alguns poderia parecer um período demasiado longo e a outros, curto, mas é importante, a cada 4 anos, encontrar-se para conhecer-se melhor e confrontar alguns temas comuns.

Nosso sistema beneditino não é como outras ordens dependentes de um organismo ou hierarquia centralizada. Cada mosteiro beneditino é independente e o fato de encontrar-nos, com intervalos regulares de tempo, nos ajuda a sublinhar a universalidade da vida beneditina. Nós nos encontramos, trocamos experiências e conhecemos as dificuldades de outros mosteiros distantes. Isto é importante também para conhecer os diversos costumes e tradições. Um mosteiro na Alemanha é muito diferente de um na Argentina ou no Vietnã.

Converte-se também para nós em um modo tangível de ver realizado o que São Paulo diz: que Cristo é de todos, que n’Ele não existe nem grego, nem judeu. É preciso recordar também que, mais além destes encontros, temos uma base em Roma, que é o Colégio e o Ateneu Santo Anselmo, dirigidos pela Confederação beneditina, que o resto do tempo cumpre o fim de atualizar a comunhão, ainda que na diversidade de nações e tradições.

– Acabam de eleger o abade primaz, que coordena a Confederação Beneditina, e voltaram a confirmar a abade Notker Wolf em seu segundo mandato. Uma opção a favor da continuidade?

– Power: O abade Notker Wolf foi eleito em 2000, durante o Grande Jubileu, e foi reeleito por outros 4 anos, no ano do bimilênio paulino. A continuidade é algo bom quando é possível, e neste caso foi.

Todo o congresso está satisfeito pelo trabalho realizado pelo abade Notker Wolf, que reúne em si muitas qualidades: Fala diversos idiomas, tem uma aguda capacidade para comunicar e é um grande viajante, um pouco como São Paulo, e o faz com alegria e empenho.

Estamos contentes, portanto, por tê-lo reeleito para este serviço que implica também um grande dispêndio de energias.

– Os monges beneditinos, há cerca de 1.300 anos, custodiam o lugar da sepultura do Apóstolo Paulo e se ocupam de sua liturgia. O que estão fazendo de especial neste ano paulino?

– Power: É uma pergunta que me fazem em muitas partes, sobretudo no exterior. Todos imaginam grandes celebrações cada dia, mas nosso estilo monástico é um pouco diferente. Como beneditinos, damos muita importância à fidelidade à cotidianidade.

Certamente há uma grande afluência de peregrinos à basílica e nosso serviço como ministros da confissão absorve muito tempo. Há certamente celebrações específicas solenes e especiais, como as Vésperas Ecumênicas, que se celebram a cada sexta-feira às 18h, nas quais participam também fiéis das diversas denominações cristãs que moram em Roma, e durante as quais os monges fazem uma reflexão sobre São Paulo. É um momento de oração que podemos viver no final da jornada, um momento tranqüilo para meditar sobre o que o apóstolo Paulo nos diz hoje através de sua mensagem, tão profunda e atual, e a leitura específica paulina escolhida para aquele dia.

Queremos viver este ano não como um grande momento ou uma série de eventos extraordinários, mas como um tempo de crescimento espiritual. Creio que a vida espiritual é um processo. Há momentos importantes, mas o é ainda mais encarnar o mistério na cotidianidade e na fidelidade. Este é o estilo monástico que propomos também aos peregrinos na basílica.