Bento XVI aos sacerdotes (II): a verdadeira teologia

Diálogo entre o Papa e os presbíteros de todo o mundo

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CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 16 de junho de 2010 (ZENIT.org) – A teologia atual, muitas vezes, aparece como mera especulação intelectual, separada da doutrina e da vida espiritual. Para um sacerdote, para quem o trabalho deixa tempo livre apenas para sua formação, como guiar-se no labirinto de ideias e opiniões que por vezes parecem contradizer o magistério?

Esta foi a segunda pergunta dirigida ao Papa Bento XVI durante a vigília de 10 de junho, na cerimônia de encerramento do Ano Sacerdotal, colocada por uma sacerdote proveniente da Costa do Marfim (África), Mathias Agnero.

O Papa concordou que se trata de um problema “difícil e doloroso”, porém “não novo”: o próprio São Boaventura sustentava haver “dois tipos de teologia”, uma que procede “da arrogância da razão” e outra que busca “aprofundar o conhecimento do amado”.

“Existe de fato uma teologia que pretende ser acadêmica, parecer científica, e se esquece da realidade vital, a presença de Deus, sua presença entre nós, seu discurso de hoje, não apenas do passado”, explicou o Papa aos presentes.

“Esta teologia provém da arrogância da razão, que a tudo deseja dominar, fazendo com que Deus passe de sujeito a objeto de estudo, enquanto deveria ser sujeito que nos fala e nos guia”, de modo que “não nutre a fé, e sim obscurece a presença de Deus no mundo”.

“Modas”

Nos dias de hoje, comentou Bento XVI, “impõe-se a assim chamada ‘visão moderna do mundo’ (Bultmann), que se converte no critério de decisão do que é possível e do que é impossível”, afirmando que “tudo se passa como sempre, que os acontecimentos históricos são do mesmo tipo”, de modo que “se exclui precisamente o caráter de novidade do Evangelho, se exclui a irrupção de Deus, a verdadeira novidade que é alegria de nossa fé”.

No entanto, o Papa quis “desmistificar” estas teologias “da moda”, segundo sua própria experiência.

“Iniciei meus estudos de teologia em janeiro de 1946, e tendo testemunhado assim a passagem de três gerações de teólogos, posso dizer: as hipóteses que naquele tempo, e mais tarde nos anos 60 e 80 eram as mais novas, absolutamente científicas, absolutamente dogmáticas, com o tempo envelheceram e já não valem! Muitas delas parecem hoje ridículas”, afirmou.

Por isso, convidou os teólogos a “não temer o fantasma da cientificidade”, mantendo a coragem de “não se submeter a todas as hipóteses do momento, pensando a partir da grande fé da Igreja, que se faz presente em todos os tempos e que nos abre o acesso para a verdade”.

Em especial, destacou a importância de “não se pensar que a razão positivista, que exclui o transcendente – que não pode ser acessível – seja a razão verdadeira. Esta razão débil, que apresenta apenas as coisas experimentáveis, é na verdade uma razão insuficiente”.

“Nós, teólogos, devemos fazer uso da grande razão, aquela que está aberta à grandeza de Deus. Devemos ter a coragem de ir além do positivismo, até a questão das raízes do ser”, acrescentou.

Teologia por amor

Existe também “uma teologia que quer conhecer mais por amor ao amado, que, estimulada pelo amor e guiada pelo amor, que conhecer mais do amado. Esta é a verdadeira teologia, que provém do amor de Deus, de Cristo, e que deseja entrar em comunhão mais profunda com Cristo”, explicou o Papa.

“A formação é muito importante. Porém, devemos também ser críticos: o critério de fé é o critério pelo qual devemos também avaliar os teólogos e as teologias”, enfatizou.

O pontífice recomendou, tanto aos sacerdotes como aos seminaristas, consultar, sempre que necessário, o Catecismo da Igreja Católica: “ali vemos a síntese de nossa fé, e este Catecismo constitui o verdadeiro critério para avaliar se uma teologia é aceitável ou não”.

Neste sentido, pediu aos presente que sejam “críticos no sentido positivo”, isto é, “críticos contra as ‘tendências da moda’ e abertos às verdadeiras novidades, à profundidade inesgotável de Palavra de Deus, que se revela nova em todos os tempos, também em nosso tempo”.

Finalmente, o Papa convidou todos os sacerdotes a “manter a confiança no Magistério permanente da comunhão dos bispos com o Papa”.

Neste sentido, lembrou que a Sagrada Escritura “não é um livro isolado: está vivo na comunidade da Igreja, que é o próprio sujeito em todos os séculos e que garante a presença da Palavra de Deus".

“O Senhor nos deu a Igreja como sujeito vivo, com a estrutura dos bispos em comunhão com o Papa, e esta grande realidade dos bispos do mundo em comunhão com o Papa nos garante o testemunho da verdade permanente”.

“Há abusos, como sabemos, porém, em todas as partes do mundo há muitos teólogos que vivem verdadeiramente a Palavra de Deus, nutrem-se da meditação, vivem a fé da Igreja e desejam contribuir para que esta fé se faça presente nos dias de hoje. A estes teólogos gostaria de dizer um grande ‘obrigado’, concluiu o pontífice.