Bento XVI: cura completa e radical é a «salvação»

Intervenção durante o Ângelus

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CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 15 de outubro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção que Bento XVI pronunciou ontem, ao rezar a oração mariana do Ângelus.




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Queridos irmãos e irmãs:

O Evangelho deste domingo apresenta Jesus curando dez leprosos, dos quais só um, samaritano e, portanto, estrangeiro, volta para agradecer-lhe (cf. Lucas 17, 11-19). O Senhor lhe diz: «Levanta-te e vai; tua fé te salvou» (Lucas 17, 19).

Esta passagem evangélica nos convida a uma reflexão dupla. Antes de tudo, faz pensar em dois níveis de cura: um mais superficial, que afeta o corpo; e outro, mais profundo, no íntimo da pessoa, no que a Bíblia chama o «coração», e daí se irradia a toda a existência. A cura completa e radical é a «salvação». A mesma linguagem comum, ao fazer a distinção entre «saudação» e «salvação», nos ajuda a compreender que a salvação é muito mais que a saúde: é, de fato, uma vida nova, plena, definitiva. Também aqui, Jesus, como em outras circunstâncias, pronuncia a expressão: «tua fé te salvou». A fé salva o homem, restabelecendo-lhe em sua relação profunda com Deus, consigo mesmo e com os demais; e a fé se expressa com o reconhecimento. Quem, como o samaritano curado, sabe agradecer, demonstra que não considera tudo como algo que lhe é devido, mas como um dom que, ainda que chegue através dos homens ou da natureza, em última instância provém de Deus. A fé comporta, então, a abertura do homem à graça do Senhor, reconhecer que tudo é dom, tudo é graça. Que tesouro se esconde em uma pequena palavra: «obrigado»!

Jesus cura dez enfermos de lepra, enfermidade que então era considerada como uma «impureza contagiosa», que exigia um rito de purificação (cf. Levítico 14, 1-37). Na verdade, a lepra que realmente desfigura o homem e a sociedade é o pecado. O orgulho e o egoísmo geram no espírito indiferença, ódio e violência. Só Deus, que é Amor, pode curar esta lepra do espírito, que desfigura o rosto da humanidade. Ao abrir o coração para Deus, a pessoa que se converte é curada interiormente do mal.

«Convertei-vos e crede no Evangelho» (cf. Marcos 1, 15). Jesus fez este convite no início de sua vida pública, e ele continua ressoando na Igreja, até o ponto de que inclusive a Virgem Santíssima em suas aparições, especialmente nos últimos tempos, sempre renovou este chamado.

Hoje pensamos em particular em Fátima, onde, precisamente há 90 anos, de 13 de maio a 13 de outubro de 1917, Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos: Lúcia, Jacinta e Francisco. Graças à conexão televisiva, quero fazer-me espiritualmente presente nesse Santuário mariano, onde o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, presidiu em meu nome as celebrações conclusivas de um aniversário tão significativo.

Eu o saúdo cordialmente, assim como os demais cardeais, os bispos presentes, os sacerdotes que trabalham no santuário e os peregrinos vindos de todas as partes do mundo por este motivo. Pedimos a Nossa Senhora o dom de uma conversão de todos os cristãos, para que se anuncie e testemunhe com coerência e fidelidade a perene mensagem evangélica, que indica à humanidade o caminho da autêntica paz.

Tradução realizada por Zenit. Após o Ângelus, o Papa saudou os peregrinos em língua portuguesa:

Esta minha Bênção para quantos rezam comigo a oração do Ângelus – fisicamente presentes ou unidos pelos meios de comunicação social – de bom grado a estendo aos peregrinos congregados no Santuário de Fátima, em Portugal. Lá, desde há noventa anos, continuam a ecoar os apelos da Virgem Mãe que chama os seus filhos a viverem a própria consagração baptismal em todos os momentos da existência. Tudo se torna possível e mais fácil, vivendo aquela entrega a Maria feita pelo próprio Jesus na cruz, quando disse: «Mulher, eis o teu filho!». Ela é o refúgio e o caminho que conduz a Deus. Sinal palpável desta entrega é a reza diária do terço. Enquanto saúdo o Senhor Cardeal Legado Tarcisio Bertone, o Senhor Bispo de Leiria-Fátima e todo o Episcopado Português, bem como os demais Bispos presentes e cada um dos peregrinos de Fátima, a todos exorto a renovarem pessoalmente a própria consagração ao Imaculado Coração de Maria e a viverem este acto de culto com uma vida cada vez mais conforme à Vontade divina e em espírito de serviço filial e devota imitação da sua celeste Rainha. Nunca esqueçais o Papa!

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