Bento XVI enfrenta cinco questões disputadas em seu novo livro

Apresentação do cardeal Marc Ouellet

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CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 11 de março de 2011 (ZENIT.org) - Bento XVI, ao apresentar uma interpretação da Sagrada Escritura que harmoniza análise histórica e fé, em seu livro “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição” (Principia Editora), esclarece cinco “questões disputadas” sobre a vida de Cristo que ainda hoje provocam intensos debates entre teólogos e a própria opinião pública.

Foi o que explicou na tarde dessa quinta-feira o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos e relator do Sínodo sobre a Palavra de Deus (2008), ao apresentar a obra na Sala de Imprensa da Santa Sé.

O purpurado canadense reconheceu que, ao esclarecer essas questões disputadas, esta obra, que leva a firma de Joseph Ratzinger - Bento XVI, "terá um efeito libertador para estimular o amor pela Sagrada Escritura”.

Fundamento histórico

A primeira questão é o fundamento histórico do cristianismo. “Dado que o cristianismo é a religião do Verbo encarnado na história, para a Igreja é indispensável ater-se aos fatos e aos acontecimentos reais, precisamente porque eles contêm ‘mistérios’ que a teologia deve aprofundar, utilizando chaves de interpretação que pertencem ao domínio da fé”.

“Desta perspectiva, compreende-se o interesse do Papa pela exegese histórico-crítica, que ele conhece bem, e da qual tira o melhor, para aprofundar nos acontecimentos da Última Ceia, no significado da oração no Getsemani, na cronologia da paixão e, em particular, nas marcas históricas da Ressurreição”.

Jesus, um revolucionário?

A segunda questão afeta o messianismo de Jesus. “Alguns exegetas modernos fizeram de Jesus um revolucionário, um professor de moral, um profeta escatológico, um rabino idealista, um louco de Deus, um messias em certo sentido à imagem de seu intérprete, influenciado pelas ideologias dominantes”.

“A exposição de Bento XVI sobre este ponde está difundida e bem enraizada na tradição judaica”, afirmou. “Jesus declara diante do Sinédrio que é o Messias, esclarecendo a natureza exclusivamente religiosa do próprio messianismo. Por esse motivo, é condenado por blasfemo, pois se identificou com o Filho do Homem que vem sobre as nuvens do céu”.

O Papa sublinha que o objetivo do messianismo de Jesus é “instaurar o novo culto, a adoração em Espírito e Verdade, que envolve toda a existência pessoal e comunitária, como uma entrega de amor pela glorificação de Deus na carne”, indicou o prefeito da Congregação para os Bispos.

Expiação dos pecados

O terceiro debate esclarecido pelo Santo Padre afeta a “redenção e o lugar que nela deve ocupar a expiação dos pecados. O Papa enfrenta as objeções modernas a esta doutrina tradicional. Um Deus que exige um expiação infinita não é acaso um Deus cruel, cuja imagem é incompatível com nossa concepção de um Deus misericordioso?”

Para responder a essa pergunta, Ratzinger "demonstra como a misericórdia e a justiça se dão as mãos no contexto da Aliança querida por Deus. Um Deus que perdoa tudo sem se preocupar com a resposta que sua criatura tem de dar estaria tomando a sério a Aliança e sobretudo o horrível mal que envenena a história do mundo?”

Essas perguntas convidam “à reflexão e em primeiro lugar à conversão”. “Não é possível ter uma visão clara destas questões últimas permanecendo neutros ou se mantendo à distância. É necessário implicar a própria liberdade para descobrir o sentido profundo da Aliança, que justamente implica o compromisso da liberdade de cada pessoa”.

A conclusão de Bento XVI é que “o mistério da expiação não deve ser sacrificado por nenhum racionalismo prepotente”.

Sacerdócio de Cristo

Outra questão candente é a do sacerdócio de Cristo. “Segundo as categorias eclesiais de hoje, Jesus era um leigo revestido de uma vocação profética. Não pertencia à aristocracia do Templo e vivia à margem desta instituição fundamental para o povo de Israel. Este fato levou muitos a considerar a figura de Cristo como totalmente alheia e sem nenhuma relação com o sacerdócio. Bento XVI corrige esta interpretação, apoiando-se firmemente na Carta aos Hebreus, que fala amplamente do sacerdócio de Cristo”.

“O Papa responde às objeções históricas e críticas mostrando a coerência do sacerdócio novo de Jesus com o culto novo que veio a estabelecer na terra, obedecendo a vontade do Pai. O comentário da oração sacerdotal de Jesus é de uma grande profundidade e leva o leitor a horizontes que nunca pudera imaginar. A instituição da Eucaristia aparece neste contexto, com uma beleza luminosa que se reflete na vida da Igreja como seu fundamento e manancial perene de paz e alegria”.

Ressurreição

A última questão mencionada pelo cardeal Ouellet é a ressurreição. Bento XVI afirma que “a fé cristã tem sentido ou desfalece em virtude da verdade do testemunho segundo o qual Cristo ressuscitou dentre os mortos”.

“O Papa lança-se contra elucubrações exegéticas que declaram como compatíveis o anúncio da ressurreição de Cristo e a permanência de seu cadáver no sepulcro – explica Oullet –. Exclui estas absurdas teorias observando que o sepulcro vazio, se bem que não seja uma prova da ressurreição, da qual ninguém foi testemunha, fica como um sinal, um pressuposto, uma marca deixada na história por um acontecimento transcendente”.

A importância histórica da ressurreição se manifesta no testemunho das primeiras comunidades, que deram vida à tradição do domingo como sinal de identificação e pertença ao Senhor.

“Se se considera a importância que o sábado tem na tradição veterotestamentária, baseada no relato da criação e no Decálogo, torna-se evidente que só um acontecimento com uma força surpreendente poderia evocar a renúncia do sábado e sua substituição pelo primeiro dia da semana”, escreve o Papa.

Por isso, faz esta confissão: “Para mim, a celebração do Dia do Senhor, que distingue a comunidade cristã desde o início, é uma das provas mais fortes de que aconteceu uma coisa extraordinária nesse dia: a descoberta do sepulcro vazio e o encontro com o Senhor ressuscitado”.