Bento XVI: «Guerra nunca mais!», «matança inútil»

Palavras por ocasião da oração mariana do Ângelus

| 486 visitas

CIDADE DO VATICANO, domingo, 22 de julho de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos as palavras que Bento XVI pronunciou neste domingo, ao rezar a oração mariana do Ângelus em Lorenzago de Cadore, a localidade dos Dolomitas italianos na qual ele passa as férias de verão.




* * *


Queridos irmãos e irmãs:

Nestes dias de descanso que, graças a Deus, estou tendo aqui em Cadore, experimento ainda mais intensamente o impacto das notícias que me chegam sobre enfrentamentos sangrentos e episódios de violência que se verificam em muitas partes do mundo. Isso me leva a refletir mais uma vez sobre o drama da liberdade humana no mundo. A beleza da natureza nos recorda que Deus nos colocou para «cultivar e custodiar» esse «jardim» da terra (cf. Gênesis 2, 8-17). Se os homens vivessem em paz com Deus e entre si, a terra se pareceria verdadeiramente a um «paraíso». O pecado, infelizmente, arruinou esse projeto divino, gerando divisões e fazendo que a morte entrasse no mundo. Dessa forma, os homens cedem às tentações do Maligno e fazem a guerra entre si. A conseqüência é que, nesse maravilhoso «jardim» que é o mundo, se abrem espaços de «inferno».

A guerra, com seu rastro de luto e de destruição, é considerada sempre e com razão uma calamidade que atenta contra o projeto de Deus, quem criou tudo para que exista e que, em particular, quer fazer do gênero humano uma família.

Neste momento, não posso deixar de recordar uma data significativa: o dia 1º de agosto de 1917 -- há 90 anos --, meu venerado predecessor, o Papa Bento XV publicou sua famosa «Nota às potências beligerantes», pedindo que acabassem com a I Guerra Mundial (cf. AAS 9 [1917], 417-420). Quando se intensificava aquele enorme conflito, o Papa teve o valor de afirmar que se tratava de uma «matança inútil». Esta expressão sua se gravou na história. Estava justificada pela situação concreta daquele verão de 1917. Mas aquelas palavras, «matança inútil», também têm um valor mais amplo, profético, e podem se aplicar a outros muitos conflitos que acabaram com inumeráveis vidas humanas.

Precisamente nessas terras em que nos encontramos, que por si mesmas falam de paz e de harmonia, foram cenário da I Guerra Mundial, como continuam evocando muitos testemunhos e alguns comovedores cantos dos alpinos. São fatos que não podemos esquecer! É necessário aprender das experiências negativas que infelizmente sofreram nossos pais, para não repeti-las.

A «Nota» do Papa Bento XV não se limitava a condenar a guerra; indicava, no âmbito jurídico, os caminhos para construir uma paz justa e duradoura: a força moral do direito, o desarmamento balanceado e controlado, a arbitragem nas controversas, a liberdade dos mares, o perdão recíproco dos gastos bélicos, a restituição dos territórios ocupados e negociações justas para dirimir as questões.

A proposta da Santa Sé estava orientada ao futuro da Europa e do mundo, segundo um projeto de inspiração cristã, mas que pode ser compartilhado por todos, pois se fundamenta no direito das pessoas.

Este é o mesmo enfoque seguido pelos servos de Deus Paulo VI e João Paulo II em seus memoráveis discursos ante a Assembléia das Nações Unidas, repetindo em nome da Igreja: «Guerra nunca mais!»

Desde este lugar de paz, no qual se experimentam mais ainda como inaceitáveis os horrores das «matanças inúteis», renovo o chamado a continuar com tenacidade o caminho do direito, a rejeitar com determinação a corrida armamentista, a opor-se mais à tentação de enfrentar novas situações com velhos sistemas.

Com estes pensamentos e desejos no coração, elevemos agora uma oração especial pela paz do mundo, confiando-a a Maria Santíssima, rainha da paz.

[Tradução realizada por Zenit.
© Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana]