Bento XVI: Natal, esperança de que existe justiça

Última audiência geral de 2007

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CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 18 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção de Bento XVI durante a audiência geral desta quarta-feira, dedicada ao Natal, a última do ano 2007.

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Queridos irmãos e irmãs:

Nestes dias, ao aproximar-nos da grande festa de Natal, a liturgia nos convida a intensificar nossa preparação, colocando à nossa disposição muitos textos bíblicos do Antigo e do Novo Testamento, que nos estimulam a focalizar o sentido e o valor desta celebração anual.

Se, por um lado, o Natal nos permite comemorar o prodígio incrível do nascimento do Filho unigênito de Deus da Virgem Maria na gruta de Belém, por outro, ele nos exorta também a esperar, velando e rezando, o nosso Redentor, que no último dia «virá para julgar os vivos e os mortos».

Talvez hoje também nós, os crentes, esperemos realmente o Juiz; no entanto, todos esperamos justiça. Vemos tantas injustiças no mundo, em nosso pequeno mundo, em casa, no bairro, assim como no grande mundo dos Estados, das sociedades. E esperamos que se faça justiça. A justiça é um conceito abstrato: faz-se justiça. Nós esperamos que venha concretamente quem pode fazer justiça. Neste sentido, rezamos: «Vinde da vossa maneira, Jesus Cristo, como Juiz». O Senhor sabe como entrar no mundo e fazer justiça.

Pedimos que o Senhor, o Juiz, nos responda, que realmente faça justiça no mundo. Esperamos justiça, mas não pode ser só uma para os outros. Esperar justiça no sentido cristão significa sobretudo que nós mesmos comecemos a viver sob os olhos do Juiz, segundo os critérios do Juiz; que comecemos a viver em sua presença, realizando a justiça em nossa vida. Deste modo, fazendo justiça, colocando-nos em presença do Juiz, esperamos a justiça.

Este é o sentido do Advento, da vigilância. A vigilância do Advento quer dizer viver sob os olhos do Juiz e preparar-nos dessa forma, e preparar o mundo para a justiça. Desta maneira, portanto, vivendo sob os olhos do Deus-Juiz, podemos abrir o mundo à vinda de seu Filho, predispor o coração a acolher «o Senhor que vem». O Menino, a quem, há dois mil anos, os pastores adoraram em uma gruta na noite de Belém, não se cansa de visitar-nos na vida cotidiana, enquanto como peregrinos nos encaminhamos para o Reino.

Em sua espera, o crente se torna intérprete das esperanças de toda a humanidade; a humanidade anseia a justiça e, deste modo, ainda freqüentemente de forma inconsciente, espera Deus, espera a salvação que só Deus pode dar-nos. Para nós, os cristãos, esta espera se caracteriza pela oração assídua, como se mostra na série particularmente sugestiva de invocações que nos é proposta nestes dias da Novena de Natal, tanto na missa, na antífona ao Evangelho, como na celebração das Vésperas, antes do cântico do Magnificat.

Cada uma das invocações, que imploram a vinda da Sabedoria, do Sol da justiça, do Deus-conosco, contém uma oração dirigida ao Esperado dos povos para que apresse sua vinda. Desta forma, invocar o dom do nascimento do Salvador prometido significa também comprometer-se para preparar o caminho, para predispor uma digna morada não só no ambiente em torno a nós, mas sobretudo em nosso espírito.

Deixando-nos guiar pelo evangelista João, procuremos portanto dirigir nestes dias nosso pensamento e coração ao Verbo eterno, ao Logos, à Palavra que se fez carne e de cuja plenitude recebemos graça sobre graça (cf. 1, 14.16). Esta fé no Logos Criador, na Palavra que criou o mundo, ao qual veio como um Menino, esta fé e sua grande esperança parece que hoje estão afastadas da realidade da vida de cada dia, pública ou privada. Parece que esta verdade é grande demais. Nós mesmos as recebemos segundo nossas possibilidades, ao menos é o que parece. Mas o mundo se torna cada vez mais caótico e inclusive violento: percebemos isso a cada dia. E a luz de Deus, a luz da Verdade, apaga-se. A vida se torna escura e sem bússola.

Como é importante, portanto, ser realmente crentes; e como crentes reafirmamos com força, com nossa vida, o mistério de salvação que a celebração do Natal de Cristo traz consigo!

Em Belém se manifestou ao mundo a Luz que ilumina nossa vida; foi-nos revelado o Caminho que nos leva à plenitude de nossa humanidade. Se não se reconhece que Deus se fez homem, que sentido tem celebrar o Natal? A celebração se esvazia. Antes de mais nada, nós, os cristãos, temos de reafirmar com convicção profunda e sentida a verdade do Natal de Cristo para testemunhar antes de tudo a consciência de um dom gratuito que é riqueza não só para nós, mas para todos.

Daqui se deriva o dever da evangelização, que é precisamente comunicar este «eu-angelion», esta «boa notícia». É o que recordou recentemente o documento da Congregação para a Doutrina da Fé com o título «Nota doutrinal sobre alguns aspectos da Evangelização», que quero apresentar à vossa reflexão e aprofundamento pessoal e comunitário.

Queridos amigos, nesta preparação imediata para o Natal, a oração da Igreja se torna mais intensa para que se realizem as esperanças de paz, de salvação, de justiça, das que o mundo tem necessidade urgente. Pedimos a Deus que a violência seja vencida com a força do amor, que os mal-entendidos abram caminho para a reconciliação, que a prepotência se transforme em desejo de perdão, de justiça e de paz.

Que o augúrio de bondade e de amor que intercambiamos nestes dias chegue a todos os ambientes de nossa vida cotidiana. Que a paz esteja em nossos corações para que se abram à ação da graça de Deus. Que a paz more nas famílias e possam passar o Natal unidas diante do presépio e da árvore enfeitada e iluminada. Que a mensagem de solidariedade e de acolhida que procede do Natal contribua para criar uma profunda sensibilidade para com as antigas e novas formas de pobreza, para o bem comum, do qual todos estamos chamados a participar. Que todos os membros da comunidade familiar, em especial as crianças e os anciãos, as pessoas mais frágeis, possam sentir o calor desta festa, e que se dilate depois durante todos os dias do ano.

Que o Natal seja para todos a festa da paz e da alegria: alegria pelo nascimento do Salvador, Príncipe da paz. Como os pastores, apressamos nosso passo para Belém. No coração da Noite Feliz também nós poderemos contemplar ao «Menino envolto em panos, deitado no presépio», junto com Maria e José (Lucas 2, 12.16).

Peçamos ao Senhor que abra nosso espírito para que possamos entrar no mistério de seu Natal. Que Maria, que entregou seu seio virginal ao Verbo de Deus, que lhe contemplou sendo menino entre seus braços maternos, e que continua oferecendo-o a todos como Redentor do mundo, nos ajude a fazer do próximo Natal uma ocasião de crescimento no conhecimento e no amor de Cristo. Este é o desejo que formulo com carinho a todos vós, que estais aqui presentes, a vossas famílias e a vossos entes queridos.

Feliz natal a todos vós!

Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri.

[No final da audiência, o Papa saudou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Para vós, amados peregrinos de língua portuguesa aqui presentes, para vossas famílias e quantos vos são queridos, faço votos de que o Natal seja uma festa de paz e de alegria: alegria pelo nascimento do Salvador, Príncipe da Paz. A Sua bênção desça sobre todos, concedendo aos vossos corações os mesmos sentimentos de Maria e José naqueles dias e horas que precederam o nascimento de Jesus. Ele, o Desejado dos povos, não Se cansa de visitar-vos na vida de todos os dias; aí reservai um espaço especial para Ele! Feliz e santo Natal!

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