Bento XVI nos 50 anos da eleição de João XXIII

Discurso após a celebração eucarística na Basílica de São Pedro, no Vaticano

| 534 visitas

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 29 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso que Bento XVI pronunciou após a celebração eucarística que o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, presidiu às 18h desta terça-feira, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, para celebrar o qüinquagésimo aniversário da eleição de João XXIII como papa. 

* * *

Senhor cardeal secretário de Estado, 

venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio, 

queridos irmãos e irmãs: 

Compraz-me poder compartilhar convosco esta homenagem ao beato João XXIII, meu querido predecessor, no aniversário de sua eleição à cátedra de Pedro. Alegro-me convosco pela iniciativa e agradeço ao Senhor que nos permita reviver o anúncio de «grande alegria» (gaudium magnum) que ressoou há cinqüenta anos, neste dia a esta hora, desde o balcão da Basílica Vaticana. 

Foi um prelúdio e uma profecia da experiência de paternidade, que Deus nos teria oferecido abundantemente através das palavras, dos gestos e do serviço eclesial do Papa Bom. A graça de Deus preparava uma estação comprometedora e promissora para a Igreja e para a sociedade, e encontrou na docilidade ao Espírito Santo, que caracterizou toda a vida de João XXIII, o bom terreno para fazer germinar a concórdia, a esperança, a unidade e a paz, para o bem de toda a humanidade. O Papa João apresentou a fé em Cristo e a pertença à Igreja, Mãe e Mestra, como garantia do fecundo testemunho cristão no mundo. Deste modo, nas fortes contraposições de seu tempo, o Papa foi um homem e pastor da paz, que soube abrir no Oriente e no Ocidente inesperados horizontes de fraternidade entre os cristãos e de diálogo com todos. 

A diocese de Bérgamo está em festa e não podia perder o encontro espiritual com seu filho mais ilustre, «um irmão convertido em pai pela vontade de nosso Senhor», como ele mesmo disse. Junto à confissão de apóstolo Pedro, descansam seus venerados restos mortais. Desde este lugar amado por todos os batizados, ele vos repete: «Sou Giuseppe, vosso irmão». Viestes para reafirmar os laços comuns e a fé os abre a uma dimensão verdadeiramente católica. Por este motivo, quisestes encontrar-vos com o bispo de Roma, que é pai universal. Guia-vos vosso pastor, Dom Roberto Amadei, acompanhado por vosso bispo auxiliar. Agradeço a Dom Amadei pelas amáveis palavras que me dirigiu m nome de todos e expresso a cada um minha gratidão por vosso afeto e devoção. Sinto-me alentado por vossa oração, enquanto vos exorto a seguir o exemplo e o ensinamento do Papa, vosso conterrâneo. O servo de Deus João Paulo II o proclamou beato, reconhecendo que os traços de sua santidade de pai e pastor continuavam resplandecendo diante de toda a família humana. 

Na santa missa presidida pelo senhor cardeal secretário de Estado, a Palavra de Deus vos acolheu e introduziu na ação de graças perfeita de Cristo ao Pai. N’Ele encontramos os santos, beatos e todos que nos precederam no sinal da fé. Sua herança está, pois, em vossas mãos. Um dom verdadeiramente especial, oferecido à Igreja com João XXIII, foi o Concílio Ecumênico Vaticano II, decidido por ele, preparado e iniciado. Todos nós estamos comprometidos em acolher de maneira adequada esse dom, meditando em seus ensinamentos e traduzindo na vida suas indicações operativas. É o que vós mesmos procurastes fazer nestes anos, como indivíduos e como comunidade diocesana. Em particular, recentemente, vos haveis comprometido no Sínodo diocesano, dedicado à paróquia: nele voltastes ao manancial conciliar para buscar a luz e o calor necessários para voltar a fazer da paróquia uma articulação viva e dinâmica da comunidade diocesana. Na paróquia se aprende a viver concretamente a própria fé. Isso permite manter viva a rica tradição do passado e voltar a propor os valores em um ambiente social secularizado, que se apresenta com freqüência hostil e indiferente. Pensando precisamente em situações deste tipo, o Papa João disse na encíclica Pacem in terris: os crentes «sejam como centelhas de luz, viveiros de amor e fermento para toda a massa, efeito que será tanto maior quanto mais estreita for a união de cada alma com Deus» (n. 164). Este foi o programa de vida do grande pontífice e nisso pode converter-se o ideal de todo crente e de toda comunidade cristã que souber encontrar, na celebração eucarística, a fonte do amor gratuito, fiel e misericordioso do Crucificado ressuscitado. 

Permiti-me que mencione em particular a família, sujeito central da vida eclesial, seio de educação na fé e célula insubstituível da vida social. Neste sentido, o futuro Papa João escrevia em uma carta aos familiares: «A educação que deixa marcas mais profundas sempre é a de casa. Eu me esqueci de muito do que li nos livros, mas recordo muito bem ainda tudo o que aprendi dos pais e idosos» (20 de dezembro de 1932). Em particular, na família se aprende a viver o preceito cotidiano e fundamental do amor. Precisamente por este motivo a Igreja atribui tanta importância à família, pois tem a missão de manifestar por toda parte, por meio de seus filhos, «a grandeza da caridade cristã, para o qual não há nada mais válido para extirpar as sementes de discórdia, não há nada mais eficaz para favorecer a concórdia, a justa paz e a união fraterna de todos» (Gaudet Mater Ecclesia, 33). 

Concluindo, volto a referir-me à paróquia, tema do sínodo diocesano. Vós conheceis a solicitude do Papa João XXIII por este organismo tão importante para a vida eclesial. Com muita confiança, o Papa Roncalli confiava à paróquia, família de famílias, a tarefa de alimentar entre os fiéis os sentimentos de comunhão e de fraternidade. Plasmada pela Eucaristia, a paróquia poderá converter-se – segundo ele acreditava – em fermento de sã inquietude no difundido consumismo e individualismo de nosso tempo, despertando a solidariedade e abrindo na fé o olhar do coração para reconhecer o Pai, que é amor gratuito, desejoso de compartilhar com os filhos sua própria alegria. 

Queridos amigos: acompanhou-vos em Roma a imagem de Nossa Senhoa que o Papa João recebeu como presente em sua visita a Loreto, poucos dias antes da inauguração do Concílio. Ele quis que a estátua fosse colocada no seminário episcopal dedicado ao seu nome na diocese natal, e vejo com alegria que há muitos seminaristas entusiasmados com sua vocação. Ponho nas mãos da Mãe de Deus todas as famílias e paróquias, propondo-lhes o modelo da Sagrada Família de Nazaré: que elas sejam o primeiro seminário e saibam fazer crescer em seu âmbito vocações ao sacerdócio, à missão, a consagração religiosa, à vida familiar segundo o coração de Cristo. Em uma famosa visita durante os primeiros meses de seu pontificado, o beato perguntou a quem o escutava qual era sentido daquele encontro e o próprio Papa deu a resposta: «O Papa pôs seus olhos nos vossos e seu coração junto ao vosso» (em seu primeiro Natal como Papa, 1958). Peço ao Papa João que nos permita experimentar a proximidade de seu olhar e de seu coração para sentir-nos verdadeiramente família de Deus. 

Com estes desejos, envio com alegria minha afetuosa benção aos peregrinos de Bérgamo, em particular aos de Sotto il Monte, berço do beato pontífice, que tive a alegria de visitar há alguns anos, assim como às autoridades, aos fiéis romanos e orientais aqui presentes, e a todas as pessoas queridas. 

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri 

© Libreria Editrice Vaticana]